quinta-feira, 11 de junho de 2015

o poema de amor

Antoni Arissa - The kiss 1930

era um poema de amor
não, não era
o tempo passado já era
no tempo que corre planas
e transforma cruezas
em peças menores
de saia xadrez

eu tinha um disco de vinil
um som de agulha e um teatro de sombras
eu tinha costumes, regras de convivência
flores de jardins e coisas prateadas no cinzeiro

eu até tinha uma decência qualquer,
um espelho de penteadeira, uma nuvem no cabelo
eu andava enaltecendo a pouca métrica
e trazendo moral aos sobreviventes trôpegos,
parcos míseros seres que só sabem perder

era um poema de amor, eu me comprometi
comprei anel de anular, calcinhas de estação
meu passado rotulado no cume de sua nostalgia
de brejo

tudo em pouco vão
fundo era minha gata no cio
fundo de banheira
coleções de diabinhas

atenção: era um poema de amor,
mas saiu assim, melado de promessas cutâneas
apertando os lábios de dizer:
amo minhas presas nos olhos nesse fundo
de minha doçura que alma o papel

nas seivas, os animais na floresta
um leopardo, uma onça pintada
os cheiros que me calmam
exalo porque não era, não erra

é o poema de amor,
de amor


Patrícia Porto