segunda-feira, 25 de maio de 2015

"Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos" por Luciana Brites




             Finalmente, terminei a leitura do novo livro da Patricia Porto. Antes de falar sobre as minhas impressões, permita-me relembrar uma passagem de Clarice Lispector em Felicidade Clandestina, quando ela diz: 
            "(...)Não era mais uma menina com seu livro. E sim, uma mulher com seu amante." Durante os dias em que estive acompanhada dos textos de “Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos” foi exatamente o sentimento que me atingiu, esse sentimento de compartilhar essa visão emancipada pela solidão da viagem com o eu lírico da poeta, que investiga reações e desencadeia magnitudes do eu que inclina e sonda novas possibilidades além e através da janela aberta do umbigo do mundo. E assim me senti, enamorada desse amante em verso e prosa, pura poesia. Cada passagem era um portal para outros universos que me convidavam a olhar para os dias na terra. Esses dias tão nublados em que somos espantalhos a observar os fluxos da passagem do tempo, e os dias em que ousamos andarilhar através do pensamento.
             A artista artesã que dribla o tempo e expõe seu voo rasante nos faz caminhar no labirinto de sensações da linguagem, nos desafia e nos convida para dançar com o pensamento como sonhou Nietzsche um dia. A dança que Patricia chama de linguagem dos corpos não-domesticáveis. Os textos de Patricia se apresentam dançarinos e escapam a cada tentativa de capturar significados e buscar sentidos que deslizam na linguagem espasmódica e ao mesmo tempo, solvente.
            Seu poema pesa como pesa o olhar do poeta ao observar como seria a grama do quintal do universo intangível da palavra que traz para a luz e ecoa essa cartografia de sensações onde os caminhos dos andarilhos e dos espantalhos se cruzam e se bifurcam nas memórias dos movimentos eternos, circulares e nômades que somam-se através dos vínculos que criamos em cada viagem com toda essa gente que caminha sobre as palavras e pisa, versátil, em outras terras. Patricia Porto nos convida para essa viagem rumo ao desconhecido berço dos seres selvagens e livres, esses adoráveis seres que não se dobram com os ventos e vibram com novas paisagens.

Luciana Brites