quinta-feira, 21 de maio de 2015

Cidade Fria

Denis Buchel

O cão tinha sido abandonado na estrada. Muitos dias se passaram. Chuva, sol, vento frio. Lá o cão com seu olhar triste. Apenas andando, bebendo água suja no acostamento, escapando por milagre de ser rapidamente esmagado. Das janelas de alguns carros restos eram lançados, como um pedaço de bolacha, um pedaço qualquer de sanduíche já mastigado. Era tão pouco o que comia que suas costelas começavam aparecer. Magro, esquecido e infeliz. Parecia trazer consigo a marca cruel dos que largam fora os seus dejetos. Aquele desejo de se ver livre de um estorvo. Um estorvo a seu tempo acaba descartado como se deve. Um cão ocupando espaço demais na vida, na casa, no território de quem lhe devia dar comida e abrigo por decisão e escolha.
Aquele cão na estrada se chamava Rafael. Sua dona tinha lhe dado o nome de anjo. Era assim que costumava contar aos amigos. Quando filhote era uma bola de pelo caramelo com feições de lobo. Corria pelo quintal a escavar a terra para enterrar ossos de brinquedo, depois se ocupava de desenterrá-los num movimento contínuo, enterra desenterra, enterra desenterra... Ossos no jardim era a brincadeira preferida do cão. Todos da casa gostavam de ver e comentar o quanto o bicho era arteiro, divertido. Foram felizes os dois primeiros anos de vida, um filhote de cão para um casal sem filhos, objeto de mimos e afagos. 
No segundo aniversário de Rafael a família lhe preparou bolo e bolas coloridas, uma celebração com vizinhos da redondeza. Fotos foram colocadas no perfil do casal para que os amigos o curtissem. Ele ganhou uma cama nova de tecido coral, algodão puro. Naquela noite dormiu como rei entre seus novos presentes de aniversário. Sonhou com ossos. 
No mês seguinte ao aniversário, o casal orgulhoso contou ao cão a novidade tão esperada. A família ia aumentar! Márcia estava grávida e grávida de gêmeos. Logo nasceriam dois meninos ou duas meninas para ocupar todos os cômodos da casa. Menos o jardim onde estavam enterrados os ossos de Rafael. Isso Márcia lhe assegurava com seu novo jeito de falar e sorrir. Ninguém mexe!  
Meses se passavam enquanto a barriga de Márcia estourava em vestidos cada vez mais cheios, o humor azedando com a maternidade, o rosto inchado. Para Rafael o quintal era um novo reino. Estava grande, desajeitado, e não poderia mais ficar na casa com aquele tamanho e com toda sujeira que fazia. Restava-lhe a varanda e o quintal, o que era suficiente para um cão que só lhe dava trabalho. Márcia cuspia raiva. Vivia cuspindo. Coisas da gravidez. 
O dia do nascimento dos gêmeos foi de grande alegria e festa. Mas Rafael não pôde participar. Tinha ficado na varanda da casa, cheirava a porta e chorava sem nenhum sinal de conforto, nenhuma mão mole na cabeça. Não era higiênico um cachorro sujo e grande correndo na casa, Márcia retrucava, as veias saltando no pescoço. Poderia infectar as crianças com pulgas. Pediu a Renato que tratasse logo daquilo. Renato, o palerma, como era chamado agora por Márcia, irritava-se mais e mais com a presença inconveniente do cão. Um traste.
O casal discutia toda noite e gritava cada vez mais alto, eles só perdiam mesmo para o coral de choro dos gêmeos, dois meninos parrudos que já engatinhavam pelo quarto. Márcia berrava que a culpa era do cachorro, aquele fedorento latindo e acordando as crianças a todo momento. Renato precisava dar um jeito naquilo imediatamente, a voz de Márcia mais e mais estridente. 
Certa noite depois de se demorar no  trabalho e de muito beber, algo corriqueiro desde do nascimento dos gêmeos, Renato resolveu dar fim ao cão. Aqueles olhos do bicho eram um inferno. Aquela aparência estúpida de vítima.  E os gritos daquela mulher ensandecida, cada vez mais diabólica. O cão era o verdadeiro culpado. Bastava se livrar dele e tudo voltaria ao normal. Naquela noite decidiu pegar sua arma, um modelo trinta e oito de cano curto, bastante eficiente. Um tiro só resolveria tudo. Quem reclamaria o corpo ou a vida de um cão? Seria rápido e fácil.
Quando chegou em casa foi direto buscar o cão e o puxou como peso morto para dentro do carro. Preparou a arma e seguiu para a estrada. Um breu danado, um frio daqueles. Não havia ninguém por perto, tudo perfeito e do jeito que tinha planejado. Olhava pro cão, um ódio lhe subia a garganta. Aqueles olhos do inferno. Acabaria com os dois de uma só vez, uma bala no meio deles e eles não fariam mais companhia um pro outro. Aquele reflexo todo lhe dava embrulho no estômago. Deixou o cão no acostamento e se distanciou o suficiente para acertar o alvo e não lhe respingar sangue.
A primeira tentativa foi desastrosa, levou um tranco da arma que lançou seus braços pra cima. Assustou o cão que saiu correndo e entrou no mato. Então se lembrou de um nome pra chamar. Rafael! Rafael! O cão reapareceu abanando o rabo, olhos de dar pena. Os olhos tristes da vítima. Aquele dois espelhos estampando sua cara. Não conseguiu seguir adiante. Guardou a arma, pensou em Márcia que lhe chamaria de palerma e deu partida no carro.
Com o passar dos dias ninguém mais chamava o cão pelo nome. Andando pelo acostamento seguia para frente. Não tinha escolha. Talvez sonhasse com uma cama macia, boa ração e ossos para enterrar.
O cão mesmo era a cidade. Um menino corria nas ruas a olhos vistos.

Patrícia Porto