segunda-feira, 20 de abril de 2015

Noites de Cais

William Turner


O olhar primeiro da terra,
um cisco no olho direito,
na vista do cais do porto,
mãe chorou de desespero.
Vai chorando devagar
tempo rude,
me ensina
a arte e o saber voltar

O olhar da Terra é o tempo, 
o tempo, uma ciranda
No alto mar é a morte.
Pancadas no breu da noite, 
esse navio, um tumbeiro
se me perco, acho o mar, sou inteiro,
sou inteiro...

Terra no Mar, povo na Terra,
tempo de arder ao Sol:
a carne, o corte, o sal, a vida, a estrela...
Com o mar, a estrela com o mar...
No tempo de ser vendido,
da mãe o filho fugido 
no tempo de ser benzido,
a morte foi me avisar. 

Aos olhos de minha sina,
Mãe distante é a Terra,
o mar é sangue nos olhos, 
no sal da língua eu me meu encontro
onda do mar, contas do mar,
o cais desse destino
com o mar, com o mar


Patrícia Porto 



"Cais do Valongo – Rio de Janeiro - (RJ)

Em 1774, o Vice-Rei Marquês do Lavradio determinou que passasse a ficar “fora dos limites da cidade” do Rio de Janeiro o comércio de africanos. O novo local escolhido para esse comércio foi o Valongo, entre a Pedra do Sal e a Gamboa. A ideia, com propósito de não contaminar a cidade, era isolar os recém-chegados que ali esperariam a venda para depois saírem diretamente pelo mar, através do Cais do Valongo e outros trapiches próximos. Estima-se que passaram pela região quase 1 milhão de africanos. A partir de 1831, com a proibição do tráfico de africanos pelo Governo Imperial, a entrada de escravos pelo Valongo diminuiu significativamente e os comerciantes tiveram que buscar maior discrição nos negócios de africanos. Procuraram locais mais seguros para o tráfico, em geral, em praias s isoladas, mas não muito distantes dos pólos dinâmicos da economia brasileira, como as regiões cafeeiras do sudeste, que requisitavam mão de obra escrava africana." 

Referência: HONORATO, Claudio de Paula. Valongo: o mercado de escravos do Rio de Janeiro, 1758 a 1831. Dissertação de mestrado. Universidade Federal Fluminense (UFF). Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Departamento de História. Rio de Janeiro, 2008.