terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Uma palavra




Levantei de novo
e descobri que estava grávida,
gravidez galopante:
personagens conversavam dentro de mim
numa gravidez esquizoide.
As histórias se levantavam
e comiam pedaços do meu cérebro
como zumbis contemporâneos num banquete.
As histórias estavam lá, aprisionadas,
pulsando, criando veias para explodir...
Que trágico!
As histórias queriam a chave,
porque eu tinha me trancado por dentro.
Perguntei ao enigma:
"por que estamos aqui?"
Como chegamos até aqui?
O enigma respondeu:
"para darmos um passo além".
Naquela noite quente de verão infernal
eu e minha gravidez tópica
faríamos nascer algo extraordinário
chamado literatura.
E chega de tantos bastas
porque o chão é bem mais acima
e a aranha tece.

Patrícia Porto