sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Poesia de bolso


Konstantin Golovin


A poesia se perdeu. Era preciso encontrar a poesia em algum calhamaço de folhas cinzas, acinzentadas, de massas cinzentas conscientes e neoclássicas jorrando poemas de seus microcosmos universos de exatidão neofáticas. Era preciso apresentar um novo código, mas apenas os poetas de linhagem de altíssima e elevada compostura poderiam dizer ou nomear a nova linguagem cifrada a ser embutida em nossos limitados cerebelos, na superfície muscular, movidos por intuições primárias e fibras. Para os poetas de frequente vadiagem, pouca estética moral  e nenhuma estirpe de retórica neoconvencional - restaria o castigo de Eco, repetir, repetir, repetir os últimos dias de versos, linha abaixo de linha, parafraseando o poeta cânone, o tal istmo entre uns e nenhuns, aquele que se reúne de antigos manifestos e com outros vocifera os mesmos dogmas inúteis de enquadramentos poéticos que se perduram há séculos encéfalos. E é sempre preciso esticar uma bandeira neste caso, onde a palavra é comida no prato fundo, de onde retiram dela as gorduras com bons dentes afiados, os caninos de preferência, quando cospem de lado sobras, a carne expelida no corte fundamental. Pode-se ouvir um grunhir, um traço de rinoceronte. Fundo.
A poesia se perdeu. Era o que gritava um menino vadio que descia a Rua Grande em disparada. Mal sabia o menino da poesia de bolso morrendo de asma, esmagada nas mãos de um poeta de boa estatura. Com gozo estava morta. Com uma finitude mordaz. Gozava de morta entrededos. Asfixiada. & Figura. 

Patrícia Porto