segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Liberté

“Menos drama. Mais elegância” dizia minha avó, orgulhosa de seu francês e latim.
Eu voltava da escola nas boleias de caminhão. Eu e meu primo Elvis fazíamos surf de caminhão.
Liberdade de expressão que se aprendia na escola de freiras era o silêncio. Lembro que cortei meus cabelos com tesoura escolar.
Queria ser menino para poder correr sem traços de fitas.
Fui castigada. Tinha que rezar na capela em silêncio. A irmã apontava solene para as irmãzinhas do claustro. Exemplos de sacrifício.
A professora me disse: “sua língua devia ser medida e cortada com fita métrica”
Abortei três vezes. Perdi três bebês em gestação. Tive dois filhos.
Retalharam meu útero com fita métrica. Depois retalharam os meus seios sem fita.
Menstruação. Sangue que me privava de correr menina. Ficava louca dizia minha tia. Era preciso ficar em silêncio para não enlouquecer.
“Menos drama. Mais elegância.” Um espartilho para qualquer criatura bruta,
Liberdade de expressão, uma estátua. Americana.


Patrícia Porto