quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Papillon bunker

Raquel Aparicio



Guardava uma poesia perdida
dentro de um tempo atroz
e o tempo atroz comia meus olhos.
Que inferno!
Atravessei a floresta sem cesta na mão,
mamãe não me cobriu de beijos ao me ver partir.
Cheguei do outro lado apartada do mundo,
perseguindo um vaga-lume,
querendo uma luz por vigília.
Poesia crescendo feito um bicho,
inconciliável com as páginas em branco.
À sombra, erguendo-se em braços,
inconfessadamente errada
- era presa fácil aos predadores velozes.
Atrás da cortina uma menina ainda brinca,
arquiteta os anos que manipula
e o hoje, feito de marionetes e manivelas,
cansa seus dedos datilógrafos.
Poesia-bicho de seda sofistica-se
em silêncios e agudos,
vai na urgência absurda,
contagiosa, insistente
rasgando o invólucro
com uma faca por dentro.
Quanto mais fere mais eu escrevo.

Patricia Porto