domingo, 27 de dezembro de 2015

o apito da jaula

Kylli Spare


Seja uma linha de trem
caminhando entre as cruzes da família
Eu não deveria me chocar
Eu nasci para trabalhar,
para seguir filas 

Fui libertada pelo carcereiro, 
mas ainda aqui uma linha de trem,
a estrangeira que rompe o casulo

- a desperta!
...
...
...
entrei no mesmo túnel sempre:
cinza,
cinza,
cinza,
cor de uni formes: o tempo
- um hipopótamo na jaula
(parecem devaneios o que escrevo)

saí agora mesmo
vestida de cores que berram, fagulhando o centro
feito despida e crua na carne

- o cadeado é que dói por dentro,
mas ainda assim me leve para o matadouro,
tenho cores novas para mostrar

por baixo


Patricia Porto

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

A livraria e o sebo.

Esta crônica é dedicada ao Seu Hélio, um gentil e sensível homem de letras e livros. 
Imagem: Arte de Rua, René Magritte. 

            A livraria no Brasil, de uma forma geral, é hoje uma boutique de livros. Lembrando a ironia tão peculiar de Nelson Rodrigues que tão bem dizia: “toda unanimidade é burra”, penso que esta é uma constatação quase unânime. Claro, sem ofender às tantas boas livrarias que resistem bravamente à avalanche das novidades, cada vez que entro em certas duas ou três livrarias de shopping e olho aquelas mesas-vitrines com aquela quantidade enorme de livros que já foram vendidos aos milhões mundo afora, sou convidada a sentir certa náusea. Não vejo diferença entre esse tipo de livraria de shopping e a sapataria de shopping. São expostos modelos e mais modelos com muitos títulos apelativos numa orgia de temas pra lá de “best seller”. O sujeito olha, sente aquela já conhecida comichão do consumo e acaba levando para casa o último tipo de título sem que isso faça muito sentido pra ele.
               “É o último lançamento, você não pode perder essa oportunidade de colocar na sua estante.” E o sujeito mais consumidor que leitor, mais colecionador que leitor, acreditando no papo furado do consumo alienante, compra mais um para não ler ou ler enviesado, achando inclusive que se perder aquele título ficará “out” do universo leitor, um ser totalmente desatualizado do mundo “fashion” livresco ou do “mercado fresco dos livros contemporâneos”, que de frescor tem mais é a afetação das celebridades editoriais, verdadeiros caça-niqueis dos novos nichos de mercado, distribuído em cores, tipos e tamanhos para todos os olhos, para todo gosto ou mau gosto. E eles pegam pesado. É coisa de mercado agressivo para o intelecto. E o que mais me impressiona é constatar que realmente não se precisa mais saber escrever para lançar livros. Tem muito livro-lixo nas bancas das livrarias. E usando de muita sinceridade, esse suicídio também burro, talvez seja até um entrave saber escrever se pensarmos no público que não lê, “ops”, desculpe, no público que só consome, junta, acumula, não pode perder uma promoção, um "best fashion".
              O que nos resta para além das livrarias e do consumo sem freios? O que resta para os que não tem acesso a esse consumo? Bibliotecas? Bibliotecas públicas? Como formar o leitor das camadas populares no tempo em que se fecham boas bibliotecas e não há investimentos nas escolas públicas?  
             Sei, à flor da pele, que nas escolas públicas, pelo menos as que estudei e trabalhei, biblioteca sempre foi um depósito de livros didáticos desatualizados sendo vigiados por professores afastados de suas salas de aulas, provavelmente por problemas de ordem mental e emocional. Vontade de cortar os pulsos com a caneta vermelha? Como são tristes as coisas consideradas sem ênfase", diria Drummond. Como são tristes as pessoas consideradas sem ênfase. Os professores considerados sem ênfase com bibliotecas e escolas consideradas sem ênfase.
                  E a internet?
              Tem porcaria, é claro, mas tem também muita gente boa no desconhecimento parcial ou total. Dá uma vontade de alegria ao entrar em blogs e sites e ler gente escrevendo bem por aí. Então viva a sinestesia e o café - que nos mantém firmes e alertas! Viva a capacidade de alcance transversal do ciberespaço, que não nos deixa mais isolados na morte – literal - do autor. 
                  Mas voltando ao fio dessa meada e às livrarias para deixá-las de vez em paz, vendendo, lucrando e festejando os números e não as letras, gostaria de exaltar a existência e a persistência dos sebos. Aquele lugar que os verdadeiros viciados em livros – como eu, não se cansam de ir, mesmo que o nariz fique todo esfolado de tanta rinite. Ah, um “viva” imenso aos sebos! Deveríamos abraçar coletivamente os sebos assim como fazemos com árvores e lagoas. Faria um bem danado à natureza humana tão saturada de clichês. A cidade agradeceria e as crianças, passarinhos sedentos do alimento da leitura, também.
             Vou parar de escrever para aplaudir agora mesmo – de pé – o bom e velho sebo com seus bons e velhos clássicos, verdadeiras adegas centenárias com literaturas finíssimas, como um Camões, um Dante, Dostoiévski e tantos mais, os brasileiros de ótima safra: Machado, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Sousândrade, Manuel Bandeira etc, e na muita literatura infanto-juvenil que encontramos no caminho. 
            Eu sou realmente um bicho de sebo. Longe dos velhos tempos dos mosteiros e do tempo dos livros enclausurados e longe por opção dos novos templos dos shoppings e da promoção relâmpago que lança e privilegia livros apertados que maltratam a mente, sinto-me abastecida e tocada na minha garimpagem particular por iguarias de letras pequenas e consumo difícil. Os da Tiradentes e do Catete são ótimos. Sou capaz de tirar a fórceps um velho exemplar de Graciliano Ramos ou José Lins do Rego entre um amontoado de tesouros. Como pirata ou fantasma, escavo títulos e me confundo com velhas assombrações. Mergulho no absurdo em direção oposta. E saio de lá sempre confortada.
              Precisamos levar às crianças aos velhos relicários do mundo da leitura, antes que o último deles encerre nossas buscas por preciosidades. E torcer para que novos tempos e novas oportunidades de leitura surjam nas tantas imprevisibilidades do cotidiano.

Patrícia Porto



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Poema engraçadinho

© ebrahim bakhtari bonab


passei doce na calcinha,
passei o café na calcinha,
então passei um rio dentro do oceano,
atravessei o Saara de joelhos, nenhum sinal de cobertura

pontes, abismos, cordilheiras, saltos ornamentais
disfunções do pâncreas devido à cachaça ruim

por que não deu sinal?

pintei as unhas de gatinha no cio,
apanhei folhas de arruda,
fiz segredos com anões de jardim,
fumei marijuana em Guadalajara
e mordi folha de coca em Bombaim,
bem melhor assim

lambi a gota serena, beijei a chuva no travesseiro,
abracei agarradinhos
e vi o céu virar telhados decantados

soprei uma vela na multidão,
rodopiei no viaduto do Chá por mimetismo,
coloquei a calcinha pra lavar na máquina,
fiz tratos com sereias más
e o indelével do mar

dizem que um dia se acontecer aprisiona,
um elefante na porta guarda sempre mistérios
com seus quatro braços cruzados,
como o futuro que se enigma no fundo, escorre, acomoda
- ou esse miolinho de flor que amassamos
entre nós, esses risinhos rsrs, nossos farelos...


Patricia Porto

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Passagem


Louise Bourgeois by Annie Leibovitz, 1997


A morte soltou do bucho da mulher prenha
e veio tirar o nó de marinheiro do peito,
abriu uma porta, fechou outra,

arriscou sangrar o intendo,
sangrada ficou.

Padecendo de juízo torto,
atropelada pelo fantasma
da própria sombra

anuviou
e virou artimanha desatada.

Besta, furiosa
entrou no beco sozinha,
abriu a porta de dentro,
arrancou dois olhos de um clarão.

Fez da mulher mistério
lhe alisando os cabelos:
passagem.

Patricia Porto

sábado, 12 de dezembro de 2015

navalha e coração

Lauren Catherine


o peixe nas tripas o aberto
o bucho da armadilha
no fio de corte

a fruta do porto
é a partida do tempo: não quer saber de mar

a salgueira come os dois lados da maçã
que se corta ao meio

parte morta
para o infiel destino do abraço
- no outro a ferida
consumada na pedra

no outro
a chaga ou é guelra
ou fica inteira nos dentes cobrando sentido

os fios de dor são entre
- tem navalha e coração

- aluga-se essa vida para outros fins


Patricia Porto



sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Retalhos



Shoji Ueda, Untitled, 1950



há em mim essa velhice de nascença
esses sinais de nascença
absolvidos
essa crendice
vertigem de nascença no outro
essa língua de passados,
utopia na semântica da memória

o mundo não me espera
eu é que contabilizo esses retalhos.

Patrícia Porto

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Casa Aberta

© Horst Fischer



eu sou a tarde, envelheço a olhos vistos
a olhos míopes, a olhos de pirata,  os de vidro

procuro agulhas nas caixinhas
sou um terço do quarto que desejei ser

e estou de vigília nessa montoeira de horas desordenadas,
calculados os perigos, os danos, as epígrafes

não corro mais atrás de mim mesma, Alice

ando diminuindo
diminuta
ando

estou atravessando aqui o meu silêncio quebrado

atrasei tantas dores

não adiantei a morte

fiquei quieta no temporal,
andei de trás pra frente

olhei duas vezes o mesmo espelho de dentro

e o que vi
me abraçou

- de repente

Patricia Porto

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Paragens

Andrea Sunder_ Plassmann aus der Serie Selbst 1986


bacia branca:
água salobra parada
a louca de espírito aceso
acende velas, perguntas
e não tem margens

mascou o bom dos dias
e não levou o tombo
dos velhos tempos
das velhas cigarras
das velhas senhoras nas filas
das velhas e gastas gotas

uma bacia branca
uma água parada
um salgueiro
uma dança salgada nas tripas

agulhas para os pés
infinitos para a existência
quem sabe esse cordel nos sustente
esses olhos de mel
essas rugas de arsênico
essa tâmara na carne

quem sabe teu amor me alimente
ou me dilacere o que teima sobrar

nessa terra de cegos
todos nós são os farpados


Patricia Porto

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Maquinagem

Alex Webb



essa maquinagem se desfazendo

a chuva trazendo a cheia, fluxo de sangue,
as toalhinhas lavadas

o tempo das janelas
moringa a água fresca

mal posso esperar para ver crescer sem espinhos,

para ver as engrenagens deste rosto de novo,
uma maquinagem de expectativas
mnemônicas

o seu lugar um átimo,
o fio terra de avó,
a língua incrustada na pedra

tem dias de fazer dó
e outros que se anda ao meio

dias de esquiços de aves
e de nunca mais limpar os canos
das máquinas


Patricia Porto

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por que escrevo?

1971 © Robert Doisneau


Dói pensar, eu sei
como qualquer desespero em notívagos,
a pílula que esqueci de tomar
a geladeira vazia
a vaga do vigia noturno, 
a viga caindo do teto
alguém que desaparece na escotilha do tempo

um corpo que guarda muitos mistérios
é a memória
e nenhum segredo
é vantagem de abismos 
sempre encurta distâncias para abreviar a próxima mordida
esse toque de dente que busca, corrompe, maltrata
na língua

uma escrita como fósforo aceso apagado na pele
tortura
traz essas inscrições,
transfere tatuagens,
agita,
engolfa,
e o golfo
mergulha mamilos,
regurgita quedas e caos

por isso aprecio noites sem abrigo
há essas violetas rasgadas no coração

Patricia Porto




terça-feira, 13 de outubro de 2015

uma língua



não se suje
minha boca
a nua
gorda, xícara rachada
aberta de língua

não se gaste
não se corroa com seu gesto
de língua nas Savanas
o suór de seu deserto

não se deite na boca acesa
não se amarre nos dentes de ouro
não ameace lamber o lume do abismo

caia e não se renda, enreda, enrenda
qualquer flor te cabe ainda a pena

Patricia Porto

sábado, 19 de setembro de 2015

Box

falei pra ele naquela noite estranha: "me diga o que escrever
não me insulte com sua viagem passageira
pois comi o bilhete da sorte que nunca tive"

andava sobre meu próprio corpo morto
e escrevia cartas ao General

malabarista na depressão do terreno
infiltrada por dentro
coletando minhas quedas
os escombros de minha fortaleza

como um câncer que destrói a paisagem
mas só tem câncer quem tem
o resto é felicidade gratuita
pega uma aí, vai

passeando entre rostos sorridentes enterro poemas
escavo a terra na unha

onde foi morar o General?

com tantas mensagens assim
me desconheço

Patricia Porto






quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Encontrando Bouvard

Cabeça e Aranha, Miró

A diáspora e a espada se encontram.
Terra que ninguém pisa é a cabeça.
A cadeira vazia forja a fragilidade do grão.
Dar sentido ao futuro? Quem poderá?
Coração na boca
nada suspende ou irrompe,
nada consegue não orquestrar sua queda.
Nada contém o salto, que é em-si.
O suspense está na corda bamba,
o coração um equilibrista - cai não cai,
rufam bambos os tambores, bambas as pernas,
laços entre os pés sem rede,
a corda ruída, sabotada
- e o salto de quem ama é mortal.

Patrícia Porto


terça-feira, 15 de setembro de 2015

biografia poética

Imaginei:
e seu eu morresse hoje, nesse instante agora
por que não consigo ficar triste?
triste é não ficar triste
a dor cresceu do meu pé à cabeça
pensei num último poema
mas veio a espinha
a espinha de peixe de rio
o rio doce da pequena morte
quando seca  
secou minha biografia poética
sem nenhuma grande transformação

entrei na rua estreita
carregava meus olhos que o rio há de comer
em cinzas

Imaginei a pouca presença no mundo
o pouco impacto na água
um cadáver arrumado de lirismos
frágil cena que se despede no mesmo pátio de escola
onde um menino corre atrás de uma bola

Que bom! Hoje não teremos aula 
Imaginei

Patricia Porto




segunda-feira, 14 de setembro de 2015

A torre


(caminhando com a serpente)

eu fui andando da lapa à santa teresa, perdi o bonde, perdi um trem de histórias, estava só no abismo da minha aldeia, procurando sinais de descuido, procurando o amor da rede, atravessando meus cacos, luzes, tiros da cidade, malandros da cidade, os seres marginais, a sodomia, deitar com o homem da pança, suado, sujo, comendo cocaína, o tempo dos seres vadios, a vadiagem da rua, do rio, sexo fugaz, solidão feroz, "você é feia, não serve", e havia o tempo quebrado de rir, de dançar um jongo, de descer ao centro, sair nos carmelitas e brincar de ser feliz, instantes, instantes, tudo fundo, tudo raso, tanta superfície, meus talhos, minhas costas alisadas pelo moreno, meu pelo alisado, meu badulaque, minha fantasia, minha máscara de carmelita sonsa, meu desespero de amarelo ocre, meu doce de leite, os quadros de mineiro, os quatros de Sérgio Bopp, a serpente da gente caminhando no mundo, mas eu sou da ilha, não sei dos lados que não sejam mar, não sei do mundo que não seja serpente, serpente mordendo meu pé, sugando meu seio, a serpente no passeio dominical, a serpente na escadaria de Seláron, a serpente no travesti que me acompanha na descida da serpente, vou de roda, sou da roda, atravessei a crosta, acenei para os poetas contemporâneos, acenei para os acadêmicos de Bangu, aqueles que só elogiam carne da boa, mas  não morri ainda, não morri porque tem festa até amanhecer, até amanhecer tem festa, maria padilha, cigana, cabeça de coração, neon piscando, piscando num quarto veludo, o homem fétido com cheiro de merda trocando favores, e vou até mais, até amanhecer, mas meus pés bem continuam congelados...na borra, na borra de café uma Eifell desmorona.

Patrícia Porto  

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Má conduta.

Um dos problemas da literatura contemporânea brasileira é o ranço do tradicionalismo de nossos leitores e escritores. Nossa literatura foi marcada em sua gênese pelo elitismo e por isso é ontologicamente elitista e tradicional. Ora, isso sem dúvida, determinou as escolhas estéticas e os campos de poderes nos chamados movimentos literários. Não há nenhuma novidade em dizer que somos tradicionais, conservadores e pouquíssimos ousados na literatura contemporânea e isso se reflete, sobremaneira, na poesia, a poesia que sempre foi carro chefe das mudanças paradigmáticas, a poesia, a  que esteve à frente na condução dos novos estilismos, das novas significâncias, das texturas plásticas. Mas há tempos essa poesia não se encontra com o seu clamor e isso se deve à uma crescente banalização da cultura de massa ou aos efeitos da globalização.
Há uma forte tendência hoje da criação de grupos que se reúnem para criar textos em coletivos. Em termos de busca estética criamos um caminho de retrocessos. Jovens poetas se encontravam para beber e jogar palavras fora. Os círculos eram marcados por conversas que envolviam vários conhecimentos como a história, a sociologia, o direito, a política, campos enriquecedores para qualquer jovem escritor e para qualquer área de estudo e conhecimento criativo.  Não há nada mais tradicional que a criação de quase missas conduzidas por uma figura maternal ou paternal a conduzir o rebanho no que deve ou não merecer ser escrito. Em termos de Poesia, é a morte do estranhamento tão necessário e do mistério, aquele algo contido, obscuro, enigmático.
Mas sim, nossa escola literária sempre foi marcada pelo conservadorismo e por uma certa diplomacia estética. Em termos de mídias sociais isso não só se preservou como se acentuou ao seu extremo. A qualidade literária - quando aparece de fato - é destroçada pela ignorância dos conservadores que ali estão. Não há nada mais medíocre que um comentário de uma palavra, esse reducionismo grasso da mídia social, a prevalência da pouca leitura, do parco conhecimento da literatura de outros países, da literatura clássica ou até mesmo da própria literatura brasileira.
Por um tempo passei por lá navegando em destroços de águas poluídas. Para se permanecer num lugar destes é preciso ser um deles, se portar como nos filmes de zumbis, onde todos querem comer o próximo - isso levado a vários sentidos. A personalidade vale mais que a escrita. A maldade mais que a  leitura limpa de preconceitos. Há confrarias, figuras conservadoras que embalam sarais beneficentes, editoras maçônicas e editoras mercenárias, um verdadeiro universo referencial marcado por um único critério: o da exclusão do que é realmente novo e instigante. Os poemas são repetitivos, exaustivos nas autorreferências, um verdadeiro desfile de ausências de significados e clichês egoicos. 
Se tivesse um conselho a dar aos jovens, aos necessários escritores da poesia brasileira contemporânea, eu diria: não entrem em mídias sociais. Cultivem encontros reais com choques de ideias, sem proselitismo. Deixem aflorar as palavras sem qualquer pudor, sem medo dos estetas, não os coloquem para julgamento para não-leitores, se preservem. Não caiam na ilusão do cardume, coloquem os poemas visíveis para outros audaciosos, entre os loucos diria. Voltem a se encontrar em lugares públicos e extravasem seus poemas sem o crivo de uma tia maliciosa ou tendo que aplaudir um animador de sarau. Busquem a espontaneidade e sobretudo, leiam! Leiam os clássicos, comecem com Shakespeare. Nenhum grande poeta se forma sem Shakespeare ou Dante. Leiam Ilíada, Eneida, todos os gregos e latinos. Depois sim leiam seus contemporâneos. Parece um manual, mas se for, é pela má conduta. Nenhuma literatura sobrevive sem espantos. Espante-se e escreva.    

Um dia de Loba

UM DIA DE LOBA

            Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o tal estalo? Logo aquela pessoa que também amava tanto os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes mentais. Quem são os verdadeiros doentes mentais? Ainda há tempos e templos históricos a nos dizer quem são os deuses. E infelizmente muitos “lucram” com isso, uma indústria inteira sustenta suas pernas na banalização do sintoma e do estigma. E ainda na falta de semelhança com o espelho habita o clichê que compara pessoas aos cães e aos lobos pela raiva. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra, o avesso. Um extinto?  
              Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta. Nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho um enigma, o Lobo, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 
           Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível -  imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande. E para onde vai Dionisio? Matamos o corpo em prol do cérebro? Anulamos, interditamos, aniquilamos, maltratamos, esquartejamos o corpo em suplício em praça pública como aquilo que deve ser temido, destruído, escondido, inconfessado, acossado... Como o corpo de Polinice , banido, usurpado, símbolo de negação, exclusão, como os corpos desaparecidos dos filhos das Mães de Maio, das mães das favelas cariocas, as mães do México, as novas Antígonas.  
          Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta. Apenas o silêncio e o odor da morte.
             No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, as nossas angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha.      
                Gente muito “boazinha”, sempre boazinha, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida.  Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.
           O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo, colocar as mãos nas camadas desse corpo.    


Patrícia Porto  



quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Para James

Querido James,
hoje pela manhã encontrei sua escova de cabelos próxima ao meu criado mudo.
Não sei se foi amor, duvido que tenha sido. Éramos tão crianças naquela época.
Não adianta vasculhar motivos nesta superfície de gelo que nos encontramos.
O importante é que venha buscar sua escova. Aqui onde as curvas dormem de frio.
Não, não deixe nada de seu. Um cabelo que seja. Naquela noite estávamos tão bêbados
e eu menti pra você. Não me chamo Amélie como no filme. Meu nome é Maria Amélia.
James, querido, sua escova de cabelos me lembra alguém do meu passado.
Há vestígios nela de uma que hoje não sou mais e isso me culpa.
Tentei dar um fim digno ao incômodo sem pedir sua aprovação,
mas, por fim, falhei. Aquela misteriosa força oculta e inapropriada dos objetos,
um gesto sem gentileza, sem honra alguma.
Venha logo, amanhã se puder, a escova é um grito no escuro,
um gesto obsceno.
E está aqui há seculos.

Patrícia Porto

mais uma xícara, por favor

tenho jogado fora palavras com a mesma medida de desordem
que iniciei meu plano de perspectiva sobre o mundo

não há margem para simbolismos quando estamos no deserto,
o que há é a escassez, uma folha pálida a ser escrita,
a areia fina da estrada, esse deserto que toda gente traz,
pois ousado é passear no tempo velho de zepelim

o que foi feito dessa nossa poesia?
o que foi feito da viagem que fizemos ao interior de Minas?

tem a porosidade de estarmos aqui sentados neste bar sozinhos,
cada qual em sua mesa, olhando essas telas a passar

poesia espremida nos cantos dos olhos, quase muge:
uma mistura de sal de lágrima e desejo,
tão destroços da minha geração

egos que se misturam ao achocolatado,
a culpa talvez seja do tal nescau,
do leite morto de infâncias,
desse morno todo

poesia espremida entre os olhos
avista os cafés parisienses,
avista os cafés de Buenos Aires,
a moça tão comum de vestido violeta,

achocolatados entornam pelos cantos da boca,

poesia vai para o deserto em busca de café - num balão de gás

- assim foi como disseram que terminou a História, pequena


Patricia Porto

terça-feira, 8 de setembro de 2015

a sanguinária Ana Lee

a sanguinária Ana Lee tem ácidos desejos
tem ácidas antenas de TV, pois não nasceu na era do rádio
a sanguinária Ana Lee tem um pôster da Coca Cola
e umas ácidas esquinas por onde trafica
saias bem justinhas
seu sorriso é só maldade, seu estilo é Macbeth
ela engole fichas telefônicas, porque é noir
carrega spray de pimenta,
salto de plataforma
e quando quer sentido pra flor
come o amor até o talo e curra.


Patricia Porto

O círculo

Hoje eu não dormi de novo,
estou acesa e não sou farol.
Estou acesa de tomar vinho barato,
de doer de acender a luz dos olhos florescentes.
Acendo e queimo, aparo unhas, ajusto canivetes,
saboreio sorvete de avelã e penso em soluções,
dissoluções, o pinga pinga da torneira,
a chuva fina de conteúdo poético,
minha plástica de insônias sucessivas
é um signo distorcido, um som de vampiro na porta.
A arma é minha por engano,
as balas escapam sem complacência.
Atira e eu gemo,
atiram, eu gemo.
Sou perfeita para tiros ao alvo.
Três balas até o estômago,
uma gastrite que queima,
três balas diretas
- uma salga escorrendo até o peito.
Travesseiros hoje me sufocam,
eu gemo.

Patricia Porto

águas

enquanto aguavas a noite
feito narcisos
eu mendigava esperanças,

éramos tu e eu reflexos das águas,
tão limpos que palavras nos chegavam
sem segredos

as gaivotas sobre a ponte
sem plano de voo,

éramos depois de tantos dias
as flores brutas
que nasceram da dor

ouvia tua respiração aflita,
o cachorro selvagem nos olhava de longe,

do mar sinais de cavalos-marinhos, corais,
minha sonata remota, uma garganta da morte,

éramos dois acenos,
dois dizeres:
um silêncio e outro achado

longe vai a partida
- essa ilha póstuma

Patricia Porto

domingo, 6 de setembro de 2015

...


A memória se deitou numa caixa escura,
uma memória uma centelha de sentidos,
as coisas dentro da caixa um relicário,
guardados de carnes do menino santo,
santo corpo de lírios,
santo corpo há reentrâncias,
oculto, vigiado, ressentido,
cuspido, fatiado entre bocas.


Do outro lado a imagem
não é humana.
Deus do outro lado
não é humano.
A água escorre memória.
Não é humana.
A terra triste onde tudo é só
o tempo é sal.
A terra treme
e transa.

Patricia Porto

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

...



a mão e o tambor
o gesto a frequência
o simbólico e o universal
a cultura a raça
o som das minas
o outro
o ouro preto
a luva de afagos
me toca

meu filho Pedro

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Onde Folhas Lembram Galáxias



ONDE FOLHAS 
LEMBRAM GALÁXIAS


A casa da minha namorada fica numa
rua pequena, coberta de folhas
de amendoeira. Foi ela que me fez notar.
Até então, pisava nas folhas sem perceber
como o som dos estalidos lembrava
o crepitar da madeira. Apressado,
buscava chegar na casa dela
sem ver o póstumo mimetismo
que fazia as folhas adquirirem
tonalidades diferentes. As folhas
em frente ao prédio azul, eram
azuladas. As defronte ao
prédio rosa eram rosadas.
É algo relacionado à luz do sol.
Tudo na Terra, aliás, é relacionado
à luz do sol, relacionado a girar
em volta, o que me traz de volta
à minha namorada, em torno da qual giro
sem ficar tonto, como um dervixe,
um pião, uma ciranda acelerada
que espalha mais folhas ao redor,
formando uma galáxia caída na calçada.
Já contei que a calçada é irregular?
As raízes desfizeram as retas
para fazer mais folhas. Quebraram
concreto para produzir mais folhas
e criar sua própria calçada
em frente à casa da minha namorada.

Ricardo Gualda

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Ausências

Ausências (Patricia Porto)

Distante do continente - o amor é terra estranha,
o amor sofre de impulsos , vazios, peito e arame,
tem marcas de exílios nos dedos,
cactos serenos de ossos no deserto,
por dentro é trompa de Falópio arrancada,
uma ferida acesa de tempos mortos e renascidos,
há de viver na seca de seus votos,
ameaçado de expandir não se dissolve,
ameaçado de crescer, cresce por dentro, apaixona-se,
apaixona-se livre de cálculos,
quer cometer delírios,
soltar das margens,
idealizar o encanto,
cria um novo país de promessas.
Longe das amarras de virtudes,
folha morta na calçada
é tempo de ausências, agulhas de ocasião,
instrumento afiado para o tecido da morte
reclama de presenças
reclamado de amantes siameses
picha os muros das cidades,
faz declarações pelo caminho como quem joga flores
e desespera-se,
guarda o retrato no íntimo,
não importa os apagamentos do passado,
o privilégio da paixão é indistinto.


Patricia Porto

sábado, 22 de agosto de 2015

a mulher e a ilha

Giovanni Battista Mazzuco


a mulher do meu tempo
acordou com esse espanto
está fora de si
está fora de mim
a mulher do meu tempo
esse sal essa terra
carregada de mundo nos olhos
sangra da cabeça

atravessou a nado
atravessou a pé
atravessou paredes
as linhas, as fronteiras
a caverna, a pele em cravos

a mulher do meu tempo
a mulher que eu carrego
a mulher da minha saia
do meu útero
do meu úmido
está dentro em luz
por dentro de mim
a mulher do meu tempo está só
está junto do rio
é mar de véspera
é serpente de duas cabeças

a mulher do meu tempo é essa ilha
meu amor essa mata
minha sede a ira
minha amiga, a irmã
tem mais força que sopro
tem mais ida que volta
mais ponteiro que corda
e mais barco que água

a mulher do meu tempo sofre de realidades
se afastou de sua mãe, já negou sua avó
não quer parto, quer só cachaça, ciranda

a mulher do meu tempo está mais nesse aço que na hortênsia
fechou fábricas
sonha com uma nova ordem de espelhos
que se espatifa no chão
sua cara no chão
está mais na justiça que na maternidade
prefere a estrada
está mais na minha memória
mais na flauta que na renda
mais no fragmento que na ilusão

a mulher do meu tempo me engole
explode a ilha

Patricia Porto

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

carpas de aquário

a verdade não mora no poema
o sofrimento sim, mora no poema
o meu, o seu, o nosso
nossas úmidas notícias de lágrima
moram no poema
moram estes residentes da noite:
angústia, fome, suicídio
suicidas moram de teimosos no poema

à noite
carpas
dores de fígado
sequestro de andorinhas
e a solidão

a solidão é a casa do poema

Patricia Porto



terça-feira, 28 de julho de 2015

Poesia no escuro

antigamente eu tinha esse medo do escuro, medo das cordilheiras
e do salto para dentro com nariz tapado,
todo assombro uma vertigem, uma notícia de Kepler

nas horas insolúveis eu  bebia café,
nas horas em que seguia sozinha como se a última noite fosse ali
- um quantum no poço, esquivas

eu também pulava janelas
eu também escutava coros de igreja no ouvido,
devia acelerar minhas partículas, atomizar minha destreza
e parecer menos hermética à primeira vista
  - é o que sempre me diziam os que sabem

mas antigamente tinha uma porta aqui
e uma porta de emergência para a escrita em vermelho,
a escrita no sangue, e outra para o infinito e um deserto

eu até mesmo tinha uma luneta para olhar estrelas
e colecionava notícias de apego
porque fui de nascença certa poeira,
coisas de poesia aérea
coisas doídas de desvios

Patricia Porto

quarta-feira, 15 de julho de 2015

O sol

Quando olho pro sol
não vejo somente o sol
Eu vejo a Terra
vejo minha estatura
E nos vejo pequenos

Mas quando olho o sol
Pela segunda vez
Grandezas me cegam
Eu sou o Sol

Patricia Porto

alguma razão

Tomasz Solinski


Eu queria escrever um poema com os miolos
- decidi comê-los feito miúdos.
Sim, tem mais obscenidade na mente que na carne.
Minha chance é sempre invicta e é caricatura,
uma criança gritando sem dó, de dor desenhada de minhas tintas.
Não posso amar uma criança que grita. Não posso desfrutar da pérola.
Então escrevo um poema com os intestinos
- com as excreções desse meu tempo que grita,
uma fala sem parar por dentro, confundida entre o amor
e as vísceras,

meu poema-tempo,
meu poema-casa.

Patrícia Porto

sexta-feira, 10 de julho de 2015

....

Henri Cartier Bresson


Num amor distante das tragédias, meu querido,
amo para além do tempo posto,
uma aposta perdida para vida com seus tentáculos.
Minhas entranhas devidamente aradas,
meu corpo oculto na frase que me causa poemas
me floreia a angustia de saber da morte dos dias de outono
quando passeavas com outras que não eu.
Que dura a verdade da vida! Saber que minha floresta se aquieta,
que todo meu sonambulismo será meu retorno para casa cansada,
pouso de pássaro numa ponte que me causa quedas.
Ando espaçada da criatura que me tornei,
tenho hemisférios cortados,
chagas que me anoitecem mais cedo.

Da boca que calam beijos
me devora água por todo corpo,
me abre os olhos com suas aparências,
me espreita uma vontade de alongar as deixas,
de compor as falas, prologar o tempo que foge da memória.
Num equilíbrio de cordas me deito, perigosa para contentos.
Quero a destreza de Deus, compor a balada do tempo
que dobra o corpo na linha sem redes.
Acordar em suspensão. Desejo. Gozo. Vida.
O dobro. Rasteira no rapto de meus dias felizes.

Ser eterna no próximo verão.

Patricia Porto


o perfume

hoje ele acordou faceiro
colocou perfume do Saara
disse que na firma tinha ganhado um aumento
"vou te trazer um presente, princesa"
"vou colocar mais perfume na gola"

ele me acordou intenso
me virou de bruço
feito um bebê que morre asfixiado
lambeu meu umbigo
fez serenata pro sol

tomou pinga ao invés de café
cantou uma música inventada
e se encharcou de perfume
tão barato
tão na pinta
que voltei logo a dormir

Patricia Porto

segunda-feira, 6 de julho de 2015

o poço

Henri Cartier Bresson


perto do poço
uma mulher faz vigília
o tempo acostumado aos relógios
é uma pequena morte de tudo

a mulher espera a poça
no pouco da vida

tem sentimentos de chuva
mas não chove

tem cabelos de ilha
mas não parte

parece que tem uns olhos grandes
feito dois horizontes
e às vezes eles escurecem

todos os dias alimenta os bichos
que a comem por dentro

tem sede de palavra que nela esgota
feito um fiapo de nada

perto do poço
muito perto
esquece dos dias terríveis de guerra
alcança um espelhinho quebrado
e retoca o rosto
como quem esculpe sonhos
na rede que lhe leva o corpo  

Patricia Porto


segunda-feira, 29 de junho de 2015

expansão


Times Square, 1963 Joel Meyerowitz

as perguntas que não sei responder
as perguntas que esqueci de fazer
as respostas que estoquei
as senhas infringidas
os sopros tomados de supetão
as perguntas e guerras
os acentos, os antolhos

tenho uma queda pela ternura
tenho uma queda por aparelhos de medição

a matemática do sentimento
pela eu tanásia da palavra

cheque seus equipamentos, por favor
:há falta de ar suficiente para os passageiros?

esse trem parte pra onde, condutor?
pedi a Deus um bocado de ambição,
recebi um santinho para colocar na carteira

"eu vou rezar por você"
"eu vou pedir por você"

ooh muito obrigada, a sua solidariedade me comove
estou encharcada de raiva, mas é só suor

na fábrica de calcinhas revistavam nossas bolsas,
mas deixavam nossas mentes livres

uma gramática meticulosa: "vou pensar em você"

o trem partirá e é espacial
não acredito em astrologias, prefiro a astronomia
os acidentes do espaço
a geometria do verbo

"vou passar a mão na sua cabeça"

não, agora não
preciso partir naquele trem
soube que explodirá em breve

ando com uma leve de dor de lobotomia

Patricia Porto    

sábado, 27 de junho de 2015

absolutamente

Piet Biniek



às vezes a lua projeta uma amostra de seu seio esquerdo
tão esmagadora entre as duas mãos a vida,
-  a vida de porção líquida, escorre definitivos,
alvoroços encaixotados,
um tênis esquecido no armário
- tragédia silenciosa,
voz talhada por não-ditos, esquecimentos

viver e não-viver: dois espelhos rachados
"I loves you, Porgy" na porta mágica

azulejos brancos de separação
limpos, discretos,
precisam sempre de luvas cirúrgicas para asseio

basta reunir pedaços, catalogar as coleções
ou fazer outra qualquer bricolagem

absolutos não são afins
o último a sair
é apenas o último mesmo


Patricia Porto

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Mais Adão



Eric Marrian

Parece que Penélope não foi pro mar hoje.
Quede os tapetes, Mariona? "Sei não. Nem quero saber.
Hoje vou beber mais Adão."

Penduro contas
sofro redemoinhos na cabeça
e faço cordão de sobra.

Vou virar a folha dessa literatura sem olhar um triz pra esse ressinto.


Patricia Porto

terça-feira, 23 de junho de 2015

casa velha




Through the Back Door by Alfred E. Green & Jack Pickfor


esse poema é uma casa com vista para os fundos
nele há notícias velhas de escombros
uma parede infiltrada ´
arranhões e fraturas

parece um poema antigo desabitado
mas é só um poema em demolição

casa pequena posta abaixo
para a construção insalubre
de um arranha céu
na garganta

feito nó
apertado
- uma cinta

Patricia Porto


Traição é viral?

Carpinejando por aí. 

Gosto demais dos textos do Fabrício Carpinejar e isso vem de longa data. Hoje ele postou um texto muito bacana sobre traição na era virtual. "Até que o facebook nos separe". Seria como ter que ligar um "on ininterrupto" de fidelidade em todas as mídias sociais por onde se zanza. Pensei logo na patrulha da patroa. Engraçado dizer isso. Porque só nessas horas a mulher é a chefe, a patroa. Na hora da surra de toalha molhada e "vou rasgar teus documentos, porra!". Aí a patroa aparece, desce e faz barraco. Outro dia vi um cara correndo da mulher na rua e ele gritava: "ela é borderline. ela é borderline!" Fui imediatamente procurar no google e achei! Como disse a diretora da escola da minha filha: "...a mulher que larga o homem é louca. Conheço isso há trinta anos, minha filha." Por isso essa tal história de traição continua bem mais aceitável quando é o homem-macho-alfa que pratica ou quebra a cerca. 
Voltando ao texto do Carpinejar que fala dessas 24 horas no ar de vigília. São muitas as contas a pagar para o companheiro, companheira, namorado, namorada etc etc nessa mídia social que nos engole e se torna cada vez mais o que há de real. É confuso pra caramba, no mínimo! Como desvincular hoje ou sempre o que é do real do que não é do real? Entraríamos em questões filosóficas, voltaríamos pra lá dos pré-socráticos e não daríamos conta. Ou não pagaríamos a conta.
Bem, desde que o mundo é mundo há trocentas explicações coerentes e antropológicas, genéticas, darwinistas e o escambau para explicar que o homem é um bicho que trai por osmose. É da natureza dele. Mas é que inventaram que "homem" é o genérico para a distinção entre os sexos quando se trata, de fato, (vamos fazer uma continha rápida) de vários gêneros. Vamos combinar que trair e coçar é só começar mesmo. E a generalização do vale tudo e do pode tudo leva a uma dose de exagero nesse surf virtual. 
Concordo com Carpinejar que fica difícil controlar mídia social, zap zap e outros - para o parceiro, parceira, não confundir alhos como bugalhos. Mas fica sempre a dica: dá pra gente se controlar na comunicação e até dar aquela ajudinha pra aquela amiga, aquele amigo "sem noção" que tá lá de boca arreganhada esperando sua mudança de status.
Comentários inconvenientes, curtidas adoidado, marcações de coisas nada a ver... Tudo isso pode ser sim - não controlado, mas trabalhado, dialogado. Nós estamos ainda aprendendo a lidar com mídia social e isso leva tempo. É um aprendizado difícil entre erros e acertos. Talvez bem mais erros. Mas o certo e nesse ponto concordo plenamente com o que diz Carpinejar no final de seu texto é que "traição é ser íntimo de duas pessoas ao mesmo tempo". Perfeito. Mas se toda definição vem grávida de indagações, a gente pode voltar a um ponto de partida conceitual: o que é intimidade nesses novos tempos? Pois é. Dá pano pra manga de vários ditados populares. 
Na semana passada li um elogio engraçadíssimo numa mudança de foto de perfil de um amigo SC (super casado). Ele tinha mudado a foto e uma amiga comentou: "prefiro mil vezes com aquela barbinha nascendo". Sei lá. Afinal podem ser só coisas que viralizam na nossa cabeça. 
Muita água pra "rolar" (esse quase viral) embaixo dessas pontes virtuais.
Patricia Porto


Eis o texto de Carpinejar:

ATÉ QUE O FACEBOOK NOS SEPARE

Fabrício Carpinejar

Ser fiel e leal atualmente exige novos acréscimos no juramento da igreja.
É preciso ser fiel e leal na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, mas também no Facebook, no Whatsapp, no Skype, no e-mail, no Twitter, no Instagram...
Estamos nos casando hoje duas vezes. São dois casamentos simultâneos: na realidade e na virtualidade.
Tem gente que casa na vida real e não na virtual.
Não é apenas ser fiel e leal com o corpo, mas também com a imaginação e com a fantasia.
Não é apenas ser fiel e leal dividindo as tarefas, mas também não escondendo nada do celular.
Não é apenas ser fiel e leal em casa, mas em todas as caixinhas de mensagens e inbox.
Não é apenas ser fiel e leal falando, mas também em todas as letras, bytes e emojis.
Não é apenas ser fiel e leal na aparência, mas também quando ninguém está olhando, o que significa não seduzir ou não se mostrar fácil em diálogos na web, é ser casado 24 horas, é não testar os limites de estranhos com perguntas, não acreditar que traição é apenas sexo.
Traição é ser íntimo de duas pessoas ao mesmo tempo.

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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