quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Papillon bunker

Raquel Aparicio



Guardava uma poesia perdida
dentro de um tempo atroz
e o tempo atroz comia meus olhos.
Que inferno!
Atravessei a floresta sem cesta na mão,
mamãe não me cobriu de beijos ao me ver partir.
Cheguei do outro lado apartada do mundo,
perseguindo um vaga-lume,
querendo uma luz por vigília.
Poesia crescendo feito um bicho,
inconciliável com as páginas em branco.
À sombra, erguendo-se em braços,
inconfessadamente errada
- era presa fácil aos predadores velozes.
Atrás da cortina uma menina ainda brinca,
arquiteta os anos que manipula
e o hoje, feito de marionetes e manivelas,
cansa seus dedos datilógrafos.
Poesia-bicho de seda sofistica-se
em silêncios e agudos,
vai na urgência absurda,
contagiosa, insistente
rasgando o invólucro
com uma faca por dentro.
Quanto mais fere mais eu escrevo.

Patricia Porto

Às cegas não era poesia.





Ele me perguntou porque tinha cortado os cabelos.
"Mulheres com cabelos curtos são menos atraentes", me disse.
Então atentei para as horas, pois ele usava um relógio muito caro.
Perguntei: "Quanto custa um relógio desses?" e ele me respondeu:
"Ficaria chocada".
Estranhos andando na beirada de penhascos desconhecidos.
"E isso é poesia?" Com meu livro nas mãos.
"Não, isso é Amor. Mas você ficaria chocado."

Patrícia Porto

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Aquário


Osiris by Ken Wong


o amor amadurece lentamente
entre muitas distrações

sua natureza é lentidão pacífica,
hora derramada na porta
de entrar,

uma fotografia de outro século,
um espinho guardado na pele,
as pajelanças todas
entre todos os ritos,
rituais, ressonâncias dos dedos
engatinhando no tempo

tem um gosto de figo,
estranhamento de sabor diverso,
e amadurece no escuro, semeando:

se me amas, se me amas
amadureço flores de estação,
vidros de aquário,
chuva ácida

se tua mente me ama,
se tua escolha me ama,
eu me disperso balão
e me arremesso de sopro
ao ar

sem pensar.
sou peixe

e o amor envidraçando
tanta beleza
amadurece


Patrícia Porto

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

no talo

John Brockington 


o meu corpo avulso
já não dá conta das tuas viagens

encerro nele o meu desejo de partir

dê-me asas e um punhado de paz,
dê-me pés e um passo à deriva

a frente do pelotão por onde voas
é passado, planando
sossega desanuviado,
abre o verso com as mãos
e come o que é teu por pedaço

partidas, não me segues

dê-me asas
para qualquer cartilha de não-entrega

Patrícia Porto

domingo, 28 de dezembro de 2014

A Balada


Monica Barengo



O meu olhar te embala.
Estou tão consumida.
As cenas se desfazem
e a chuva agora é má.
Molhou o meu desenho,
desfez o construído.
Lembranças do arco-íris
no doce - minha íris que embala.


Patrícia Porto

Velocino

Yuko Rabbit


O poema que espere!
As roupas estão no varal.
O poema que se espera
fica assim na garganta: fiodevoz
se afunilando.

Quer é língua,
descer no fio,
morrer, viver nessa: voz

Ser o fio
equilibrista de dorso.
O menino que espere!
Tem essa dor pra ninar.
Essa pedra batendo
uma sonata de rio.
Uma convergência de som
no meio fio.
Via medo de ser
não foi, não quis,
ficou.
Era mulher

(que espere)

.
  
Patrícia Porto


Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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