quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Aquário


Osiris by Ken Wong


o amor amadurece lentamente
entre muitas distrações

sua natureza é lentidão pacífica,
hora derramada na porta
de entrar,

uma fotografia de outro século,
um espinho guardado na pele,
as pajelanças todas
entre todos os ritos,
rituais, ressonâncias dos dedos
engatinhando no tempo

tem um gosto de figo,
estranhamento de sabor diverso,
e amadurece no escuro, semeando:

se me amas, se me amas
amadureço flores de estação,
vidros de aquário,
chuva ácida

se tua mente me ama,
se tua escolha me ama,
eu me disperso balão
e me arremesso de sopro
ao ar

sem pensar.
sou peixe

e o amor envidraçando
tanta beleza
amadurece


Patrícia Porto

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

no talo

John Brockington 


o meu corpo avulso
já não dá conta das tuas viagens

encerro nele o meu desejo de partir

dê-me asas e um punhado de paz,
dê-me pés e um passo à deriva

a frente do pelotão por onde voas
é passado, planando
sossega desanuviado,
abre o verso com as mãos
e come o que é teu por pedaço

partidas, não me segues

dê-me asas
para qualquer cartilha de não-entrega

Patrícia Porto

domingo, 28 de dezembro de 2014

A Balada


Monica Barengo



O meu olhar te embala.
Estou tão consumida.
As cenas se desfazem
e a chuva agora é má.
Molhou o meu desenho,
desfez o construído.
Lembranças do arco-íris
no doce - minha íris que embala.


Patrícia Porto

Velocino

Yuko Rabbit


O poema que espere!
As roupas estão no varal.
O poema que se espera
fica assim na garganta: fiodevoz
se afunilando.

Quer é língua,
descer no fio,
morrer, viver nessa: voz

Ser o fio
equilibrista de dorso.
O menino que espere!
Tem essa dor pra ninar.
Essa pedra batendo
uma sonata de rio.
Uma convergência de som
no meio fio.
Via medo de ser
não foi, não quis,
ficou.
Era mulher

(que espere)

.
  
Patrícia Porto


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Vista de perto





Minha ilha tem duas serpentes,
por isso tenho um pacto incomunicável com as horas.
O tempo é sempre vantajoso,
se regala feito um Dionisio
e me abre as coxas em fruta
ao me deixar mulher cíclica,
transformada agora em material estético de jardim
- essa jardinagem secreta de território.
O tempo vagaroso lambe meus botões
e eu os esmago.


Patrícia Porto 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Florez





Não perder a ternura é um método.
O método ainda é viver e se não há imagem
o imaginário inventa a flor, cria seu cheiro,
absorve seu nome como um plural.
Simultânea é sempre a invenção.


Patrícia Porto


sábado, 20 de dezembro de 2014

Mais pesado que o ar

Alina Sibera 


Um cão late para o meu silêncio.
Nenhuma aventura extrema antecede o que vejo do espelho,
nenhum volume é tão alto, tão extremoso
que o de confundir a própria identidade
e ao confundir-se com o algoz,
amar o bruto do sentido
e tentar alcançar as folhas  
à revoada.

Patrícia Porto

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O outro ouvido





O corpo,
um elástico que se equilibra
fantasmagoricamente
numa alegoria
dentro da dança embalada.

Nesses sons
há poemas sobre palavras rudes,
poemas sobre uma noite em Abacã.
Alguns denotam ruídos
contra a esfera do conciso,
os versos calculados a pauladas,
cortados em mil pedaços,
repartidos na mesa entre porcelanas,
amarrados feito bem casados,
monticulados na prensa,
apertados na cabeça
ou feito amarras nos testículos
da máquina de torcer um touro.

Dali o poema sem tormentas,
sem barulho do bicho na água fervente
não geme entre as paredes
não pisca não coa,
não atrapalha o curso firme
das mãos de corte do tempo da fábrica.

O poema desparafusado,
torto na sua proposta,
estrangula-se com o cinto do perdão
e atravessa os opacos na lentidão sôfrega
da mais absurda, bárbara, mais descarada,
mais barulhenta vontade de mar
cortando os barcos, atracados,
com seus lábios grandes.

Patrícia Porto






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Por que afirmas?


Rudolf Ronvie.



Passou horas subtraindo as casas anteriores:
Bem me quer, mal me quer, coisas de azar...

O veludo lhe conforta os dedos.
Mal me quer também é a da ordem do desejo.
Fecha as escotilhas, deixa o arpão escapar...
Acena ao marinheiro uma vontade de terra firme:

O sal desce a garganta, tão íntimo,
em outras palavras piratas.

Adeus, uma das mais bonitas para a bandeira.



Patrícia Porto

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A menina que comeu estrelas




Declinei-me a escrever um poema
sobre a palavra LUNETA.
Se eu fosse aquela menina da varanda...
O poema poderia começar assim.
Eu desejaria ter uma luneta.
Não. Eu desejaria ser uma luneta.
Através do meu corpo engoliria estrelas
e me uniria ampliada ao universo
- transfigurada.

Melhor:
Comeu estrelas.
Fim.

Patrícia Porto

das horas quietas

Michael Reedy 


Hoje lembrei de meu amigo morto,
chamei seu nome para me certificar de sua vida
ainda em chama, acesa, um farol na lua deserta,
uma saudade de mar,
essa salina que me habita
quando jogo flores em mim.

Patrícia Porto

O tempo da casa

by Vo Anh Kiet

Havia o tempo do guardado.
Pó virando notícia,
memória de relógio quebrado.
O tempo dentro do maquinário
corroendo as engrenagens,
colocando seus ovos,
fazendo de ninho o inusitado.
Acervo das horas que nascem
entre o ponteiro parado
e a dança silenciosa
que nunca cessa
nem descansa.


Patrícia Porto 

Pra rasgar.


Acho interessante esse estado da escrita,
a estranheza de se levantar em punho
rasgando um espaço
sem permissão.

E vou morrer sem entender a concepção do poema
por encomenda,
aquele que parede de dizer tudo
e no vazio da casa nos deixa
com uma pílula que nos acomete de previsibilidades e raspões.

Patrícia Porto

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pausa para atonais

Cidade Verde,  Bernard Caelen

Ele disse que vinha.
Arrumei a desordem da vida,
coloquei flores na varanda,
varri velhos fantasmas,
forrei retratos antigos.

Com um pouco de sorte
ele perceberá meu simbolismo,
minha presença
- no perfume do simples
que guardei em vidrinhos.

Com um pouco de sorte
ele vai me sentir
com todas as dissonâncias
em liberdade.

Para esperá-lo
vou tomar um chá com canela
- delicadamente,
gole a gole.

Não tenho mais rima para apressar...
Sou dona do meu nariz,
essa peça de riso cênico.

Vou colocar açúcar na janela,
a janela dentro da xícara
que bebo bem devagar.

Com um pouco sorte
ele pausa (...) aqui.

Patrícia Porto

Um Brinde à Poesia: Patrícia Porto


Diversos e Afins

Meus poemas na Revista "Diversos e Afins". Segue o link:


http://diversosafins.com.br/?p=8622

domingo, 7 de dezembro de 2014

"O Ciúme" e Sobre o tempo de perder.






Sobre o tempo de perder. Quando os silêncios do abandono dialogam.
 (Fragmento do meu livro "Narrativas Memorialísticas...")

 The art of losing isn't hard to master; 
so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster.
  (“One Art”, Elizabeth Bishop)

David Allan Brandt

          As pessoas perdem diariamente: neurônios, células, cabelos, unhas, papéis, bilhetes, máscaras, memórias... Perdas banalizadas no amontoar das agendas que remontam tão pouco o contar dos danos absolvidos. Um dia perdemos as chaves de casa e nos pegamos com aquela sensação estranha de ter inaugurado, sem querer ou esperar, uma avalanche ininterrupta de perdas cotidianas: lá se vão os documentos, a hora do almoço e a hora de dormir, a hora de brincar com os filhos, de ligar pra amiga que está de cama com febre, de escrever um bilhetinho de amor pra pendurar na geladeira. Com a geladeira vazia por fora e por dentro, perdemos a alquimia de preparar nosso alimento, perdendo também a mesa e a conversa na varanda, na sala, no quarto. Conversaremos com banheiros, apertados de preferência, solitárias testemunhas das nossas ansiedades claustrofóbicas. E a passos rápidos perderemos um dia a e-terna-idade do chá que nunca marcaremos. Porque teremos passado anos a fio, ferro, fogo e açoite, perdendo um tempo danado investindo toda quantia recebida no final do mês nos pagamentos do começo do mês: para os bancos, para os impostos, para as contas a penar. E quantas a-pesar! E paranóicos trataremos de fazer cópias das chaves, das fotos, dos documentos, dos corpos com os quais deitamos. E nos preocuparemos em ganhar mais dinheiro para não nos preocuparmos em perder tanto dinheiro. E esqueceremos tudo que for de constrangimento com o tempo futuro para repetirmos tudo de novo e não pensando em nada, nada criarmos a respeito... Pequenas perdas visíveis se atrelam a um tempo imediato: “aquele” que não se quer perder, mas já perdido está: estamos sem tempo! E é claro que nos denunciaremos de quando em quando, lembrando uma, duas perdas, ou melhor, esquecimentos...nossos. Uma humanidade inteira de esquecimentos. Uma História inteira.
             E é certo que perderemos ao longo da vida bens de um mundo concreto e excessivamente real, perdendo objetos, coisas que se gastam pelo uso e até pelo bom ou mau abuso: brinquedos, cartões, cartas (se os enviarmos e recebermos algum dia, é claro), perderemos bugigangas, bibelôs, meias, livros, luvas, guarda-chuvas... Guarda-chuvas... Em algum lugar, no mundo do excessivamente imaginado, deverá existir um reino de afeto para os guarda-chuvas perdidos, esquecidos nos bancos das praças, nos lugares a ermo, nas calçadas, nos chafariz tomando banho, nos sinais equilibrando malabares.
          Um dia acordaremos velhos e teremos perdido o primeiro amor... E como será difícil perder! Dor no peito, sofreguidão que parece eternizar as horas, os minutos longe do ser adorado. E logo aprenderemos que doer não é somente parte do crescimento. Doer é o próprio crescimento e aprenderemos – às vezes no susto - que dói mais perder pessoas que coisas e que pessoas não são coisas. Não servem para qualquer tipo de uso ou abuso. Uma aprendizagem que para alguns começará muito cedo, até mesmo antes do nascer da vida ou do dia. Mas que para outros começará tão assustadoramente tarde que mal haverá tempo desprendido para a descoberta de uma compreensão mais profunda de mundo.
            Dizem os mais antigos que algumas pessoas nasceriam com maior propensão a perdas que outras. Seria uma questão de destino, estrela, sorte ou devaneio de quem diz: nasceu “voltado” pra lua. O certo mesmo é que ninguém, nenhuma pessoa humana passará pela própria vida sem nunca perder algo ou alguém – seja por destino, livre arbítrio, resignação ou desejo. A gravidade, bem, a gravidade só saberá quem viver e quem viver viverá. Existem conjunturas as mais diversas e até algumas esquizofrênicas. Às vezes se chega ao auge, ao topo da montanha, da colina ou de uma escada, quando, de repente, sem que se noticie, lá no esconderijo do sótão se encontra em estado escondido uma perda imensa que se aloja na mente e no coração sem qualquer justificativa, ocupando espaço demais. É um imprevisto de existir. Vive-se então o conflito de uma felicidade vazia. Como quando entramos nos casarões antigos, bem mobiliados, limpos e nos cantos nos deparamos com ratoeiras à espreita querendo ferir a frágil existência do rato, o rato de Clarice.
            E não será também o rato que se espera prender e amordaçar com medo e vingança parte de uma perda ulterior? Tanto ódio sangrará o rato? Matará o rato? O cadáver do rato quebrará nossos espelhos? Ou serão nossos os dedos presos e decepados pelas ratoeiras? Mas dizem também os antigos que quando se vão os anéis, os dedos, esses ficam. Os dedos que vamos perdendo das mãos. Para que mãos se elas não nos servem para o artesanato de afagos, preces e acenos?
            Assim como é dito no belo poema de Elisabeth Bishop há uma arte de perder: perderemos cidades, rios, continentes inteiros. Perderemos o sotaque e a gente que morava com a gente, a gente que reconhecia a gente na rua, a gente que abraçava a gente por nada, de graça: nas brincadeiras de roda, nos encontros entre amigos. Perderemos e não daremos conta do risco e do riso. Se uma alegria é uma ação única e irrecuperável, a memória, mesmo a dessa esfumaçada alegria, é nada mais que o vestígio, a pétala seca do que um dia foi vivido.
           Não precisamos de tantos acúmulos. Imprecisamos. E as perdas fazem parte do que somos. Há perdas precisas e até preciosas – como lágrimas, sorrisos, a separação decorrente da liberdade de quem se ama, o crescimento absurdo dos filhos, os frutos que amadurecem e as nossas raízes, que quase sempre tortas, depois de viverem todas as suas estações se vão para o dentro delas. São perdas, partos, despedidas que trazem à tona o nosso departamento interno de “perdidos e achados”.
            Perdemos chaves, óculos, carteira, o trem fantasmagórico das coisas, um porão de lembranças e urgências para as traças. E se o mundo for mesmo acabar pelo aviltamento dos corações como professou Baudelaire, talvez possamos ainda nos empenhar um pouco mais no zelo de nossas mãos para além da arquitetura das lutas e das ratoeiras. Dedilhar os dedos de outras mãos, quem sabe... atravessando a rua e o tempo.

Patrícia Porto

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Sátira

SHI Yuling 

Que pai seria este:
macho e branco... O meu?
Um pai que pune o corpo,
que bate e tudo queima?
Sim, um deus que me assusta
com sua barba de homem e sua cinta na mão.
Ralhando do alto de sua majestade:
não herdarás, não comerás, não matarás...
(eco de maçãs)

Por isso me esforço para sair desse antagonismo
e do fio que desejo cortado.
E sigo me esforçando para não acreditar
que a vida não passa de uma piada de mau gosto
que me deixará sem graça ao final.

Patrícia Porto