domingo, 30 de novembro de 2014

Casa de águas


Esse inseto na flor
na água-de-flor-de-laranjeira-azeda,
na flor de pimenta de cheiro
é pele, pluma leve,
levo no peito um deserto, um respiro
e
certezas de beber nas fendas, nas ranhuras
das pedras pelas manhãs,
um novo espaço inteiro.

Na dose da flor mais fruto,
mais fluída verte líquida,
molhando a boca do tempo em espiral.

Saudade é um vulto misterioso
que no corpo - transmuta e deseja
ser apenas o-que-é:
- breve ou longa,
cedo ou tarde,
o fundo e o raso,
o ser imensa
Andar perdida de aventuras...
Nesse reverso morar.

E o amor
na casa de passarinheiro
é um quintal de açucenas
livres.

Na intensidade acesa:
é água marinha,
água brotando
fluxo pro mar
- espuma é espanto.

Em brincadeira de riso
lama de rio é alma de gente
que tudo inventa.

No dentro um arrepio,
uma terra que não cessa
de ser esse doído de delicados na renda.

Vou pro tambor ver o fogo.
Vou dançar todas as dores
até o sempre. Até esgotar a morte na saia -
- porque sou vento. E rodopio...

O amor,
minha casa de águas,
me acena e vai...
E sempre retorna brincante
-  pra me contar sobre esse giro,
a poeira celeste...
o menino correndo na temperança da vida
no tempo da flor...na flor aberta...em flor-senti(n)do

Patrícia Porto

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Decantada


Joan Miró, Blue III


A noite caiu como um beijo.
A razão? Pro brejo do sossego.
Da minha janela
um Largo Azul, um desejo:
atravessar o Mar
a nado, por nada.
Por nada?
Que nada!
Está tudo dentro,
basta você acessar.

Patrícia Porto

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Das impermanências.




Partituras no asfalto - Bel Pedrosa  



Umbigo de ambíguo
é o diverso.
Se o plural de inefável
faz um barulho imenso,
escutar a voz do mundo
nos tímpanos.

Patricia Porto

sábado, 22 de novembro de 2014

A rinha

Lana Šlezić



Eu tenho uma memória,
mas ela é natimorta.
Uma memória esvaziada
do quintal de meu pai, uma talvez
de não tão verídica, se morta.
Mas lembro da rinha de galos
e de como aqueles bichos se sangravam até a morte,
invisíveis na noite dos cativos.
Meus dez anos eram ralos e estranhos.
Eu era a estrangeira andando de infância
pelo quintal de meu pai médico, de jaleco branco...
Os bichos sangrando até a morte:
Era rinha para muito eco no peito,
nos apagamentos de minhas ruínas.
Essa rosa despedaçada.

Patrícia Porto

domingo, 16 de novembro de 2014

Gatejando


Bernard Kliban

A gota
que brinca na queda,
quando cai ao chão
ao invés de fim e corte,
pousa de chuva malandra
afinada com a morte.

E um gato brincando na poça
sete vidas tem.


Patrícia Porto

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Como inventar um poeta

(Pensando em Manuel Bandeira)




Inventar um poeta é dose diária de loucura e de agonia.
Aos poetas menores, a maior sabedoria:
o tempo e o gosto. O gosto mascado da história. Ficando gasta a língua.
Ficando gasta de tanto uso.
Lá onde a vírgula faz o vento e a palavra poesia é uma menina vestida de chita
girando no quintal de suas paragens, sedenta de memórias...
Lá onde tudo: poesia, menina, memória - é puro delírio, imagem e invenção.

Patrícia Porto

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma palavra


Martin Dobes


Palavra pra mim é festa,
é folguedo na praça, sujinha de terra,
deitada no barro, se desfazendo toda,
se fazendo toda, rolando terreiro.
No corpo da alma palavra faz tempo, um som, sustenido que gira mole no ar.
Palavra no corpo que a gente recebe é a imagem da rua.
Uma casa, uma benção, a rezadeira na porta com seus unguentos.
Uma fonte, sina, sinal de milagreiros e coletivos passando...


Patrícia Porto

A gramática.

Matjaz Krivic



A língua, coitada, foi levada pro abate.
De lá a cortaram em mil, milhões de partículas,
subdividida, ficou lá acesa como centelhas e lanternas pelo mundo.
Em cada canto novo, agora pequena em fragmento,
a língua criava uma nova calda.
De lagartixa ou chocolate. Da preverência do falês. 
Mas não necessariamente nessa desordem.


Patrícia Porto

Um sério




Namoramos por quatro semanas ou mais. Todo dia a gente brincava. Ia pra rua. Dançava, dançava... A gente brincava de ser gente, de ser boneco. Ele dizia "estou muito feliz". E a gente brincava de ser criança. Era de novo, de novo de novo. A gente se perdia de risada, se escangalhava no corpo de rir, fazia tempo na cama, na rua, pelo mundo rodando. Mas num dia de muito siso, ele chegou de um repente e disse: "ah, não dá pra viver assim não, menina, com essa alegria sem hora, esse viver brincando junto o tempo todo. Não posso. Não dá. Amor não é isso não. Amor é coisa séria na vida". Final da história. Ele escolheu uma moça pra continuar batendo um sério. Soube que anda batendo um sério até hoje. Eu? Rindo.


Patricia Porto

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Texto




A aranha sabe.
A teia não faz cadeado.
A aranha na forma
diz forma
por uma lua que prateia
no sentido que a diz persa.

Tapete de texturas,
mandalas,
pele, língua,
significâncias
- signos, sílabas,
volume, dialetos,
muitas em uma,
uma em todas
- luxúrias do tecido.

Patrícia Porto

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

...



Esse corpo
de amor...
Desintegrado.

Dente de Leão
pego de surpresa - uma caça,
partido em mil pedaços.

Entregues ao vento,
ambos desorientados,
diminuto tormento.

Chorando quietinho
Cada qual, um caminho,
cada qual, sem lugar, um lugar.
Cada um, sem amar.


Felipe Machado

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Lírica

Peter Przybille


Foi um simples poemeto de amor no papel, singelezas.
Eu que queria estrelas, luas, festas de luz...um amor.
Levei meus olhos e sim, lavei meu corpo, minhas coxas...
Inteira de meus sentidos partilhados, cacos e poentes deixei.
Passei ao lado dele, tão antecipada, perfumada de flores,
Esquecida, terra nômade, a nua despejando solos, itinerários. E era uma sinfonia. Não o vi.

Patrícia Porto

Agulhas

Mick Lindberg



Para o livre
a palavra é galope
na garganta desfixada.

Se o teto é pouco,
melhor a viagem,
o teto da estrela,
a boca do céu.

Hologramas e imagens
- ecos - de imaginação:
raros (restos) mortais
do ar(bítrio)
- são esses rumores mundanos
- mostrando nossa face-à- face
- gentilmente -
às margens.
.


Patrícia Porto

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Cantiga para Ânima


David Galstyan


Os dias que não te vejo a cama arde.
Os dias dos aflitos, dos famintos, dos mortos
são os meus dias de pertencer.
Eu me embriago de luas.
Quando tudo é o entorno visto uma saia de dedos,
refém do que em mim obscenas.
Quem sabe...
Sou esse cão ao teu lado.
E ainda ardo febril.
Sou a que coleta os ossos
e à tarde sou caminho.
Viajo trilhas cansando do amor,
debruçada nos troncos,
esquecendo meus companheiros.
A pedra é minha amiga,
nela encosto minha alma,
minha dispersão.
Sem lar, anônima,
me abasteço de histórias outras,
me alimento de antigos,
dou voz aos lobos,
minha língua aos morcegos.
E minha cama arde.


Patrícia Porto