domingo, 28 de setembro de 2014

leitura do chá

Jeri Silverman 


sonhos de passagem,
folhas da matriz secular
preservam a beleza
da escuridão,

as luzes da escuridão
são como adagas no ar
- escritas no fundo da xícara
de camellia

(uma cerimônia)


Patricia Porto

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

a muda






Uma poesia ingrata reside aqui. É minha pátria e minha ilha. As duas numa serpente, numa serpente que se move labirintica em busca de sua cabeça, a segunda. Os que têm dentes para podar seu domínio não conseguem morder sua calda ou arrancar seu miolo na flor.
Mastigam vazios, suponho, sem praticar da beleza um narciso sequer. Há flores de comer como ilhas de viver em trãnsito.
A ilha me devora os caules e eu ainda sou do gargalho, pois gordas são essas horas de êxtase com minha pátria travestida de poesia. Tenho alma e vivo trasmutações. E mais nela, alma, tenho corpo de território. Tenho corpo que goza solenemente feito um animal em seu estado natural. Sou do improviso, gozo e não maculo. Tenho sempre essa fome de direitos. E essa poesia vestida com minha rosa, sangrada na pele, nesse gargalho, a que me oferta de leite bom, me lambe os peitos, me atravessa os tombos, me água a pele, molha, cansa o bruto, golpeia a derme, me repatria com agulhas afiadas, uma cicatriz que pulsa, coça, corta, dói quando o tempo a muda. De rosa para púrpura. De rosa para serpente. Sem cura. A levo. muda.

Patícia Porto

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A cena


A cena

Era grave o volume, uma voz de volta escudo,
a voz do abismo que trago bom dentro por fuligem,
faço voltas no ar, contorno de fumaça, essa cortina oculta

são poemas rasgados,
tatuados votos com o desagravo de ser eu esse mesmo ser a mesma,
essa voz de outro nome, essa palavra riscada por cima, traçada ninha

sofro de excêntricos,
experimentos de voz
na curva assento

Patricia Porto

Banquete

As carnes
expostas extremadas nas finas calhas
cabem umas noutras nas bordas linhas
desfronteiriças
fagocitadas
germinam

Patricia Porto

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Poema Animatopia por Patricia Porto



Animatopia

Porque era um corpo de imagens,
uma ciência fugaz, como a vida,
carregava sonhos e sopros que não cabiam fora de si.
Do si mesmo inventou a solidão,
Do si mesmo deu para falar
e entender uma nova linguagem,
a dos corpos não-domesticáveis
no corpo nu da poesia, uma cicatriz propositada.
Um corpo que se dobra à curvatura do espaço e tempo
que deu para saltar com os pés
as dobras do tempo, um labirinto.
Deu para ser o tempo dobrado sobre seu corpo.
Na solidão fabricada de novas memórias, seu desafio:
conhecer a anatomia desse novo animal
curvando-se ao espaço.
Amar esse animal  
e deixar-se avistar por Ele.

Terça Nobre no Teatro Municipal de Niterói: Patricia Porto convida Maria Helena Latini

Divulgação e convite aos amigos.

No dia 07 de outubro, 19 horas, eu estarei no Teatro Municipal de Niterói na "Terça Nobre" na Roda de Novos Poetas, convidando a amiga e poeta, uma referência pra mim, a querida Maria Helena Latini. O evento é gratuito com distribuição de 80 senhas 30 minutos antes. Será a primeira vez do Livro "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos", que já começa muito bem. 



domingo, 21 de setembro de 2014

Abrindo a primavera: Lucilia Dowslley e Antologia "Um Brinde à Poesia"

            A primeira vez que vi Lucilia Dowslley foi como atriz na peça "Crônicas Pantagruélicas do Infame Rabelais", de Annamaria Nunes. Fiquei tão encantada com a peça que retornei uma outra vez, logo em seguida. Texto, cenário e atores extraordinários.
        Será um grande prazer e uma grande alegria retornar ao Teatro Municipal para ver Lucilia. Evoé!



"Dentro de um porão, uma poetisa se vê obrigada a escrever para ser libertar. Poesia, realidade e loucura, se mesclam confundindo-se entre o real e o surreal no Teatro Municipal em Niterói, terça, 23, às 19h. Em virtude das comemorações dos 15 anos do projeto "Um Brinde à Poesia" completos no dia 11 de junho, projetos especiais foram desenvolvidos e estão sendo apresentados ao longo deste ano.

Escrito por Vinicius Soares e contendo poemas de Lucília Dowslley, "Milagravas" é um texto que diz a simples e contundente verdade: toda palavra é um milagre, algo mágico que transforma quem as lê e ouve. Todo poeta, portanto, é um mágico, um mago, uma entidade que faz chorar e rir faz amar e enamorar, um alquimista que transforma as letras em oceanos misteriosos e profundos.

O texto foi escrito por meio de pesquisas poéticas, tendo como referências o livro "Milagrário Pessoal" de José Eduardo Agualusa e poemas de Fernando Pessoa e, como vertente principal, o poema "Louco" da própria Lucília Dowslley.

Com cinquenta minutos de duração, "Milagravas" narra a história de Lucília, uma mulher que está encerrada há anos em um porão por ser uma das últimas poetas que ainda escrevem. O tempo presente enfrenta uma crise: ninguém mais consegue escrever poemas ou histórias. A poesia, por vezes desprezada, retirou-se de cena, fazendo com que organizações clandestinas sequestrassem poetas para que as palavras voltassem a serem escritas.

O porão onde está a protagonista, se mescla com a loucura da mesma, fazendo com que o público se encontre num emaranhado de histórias, um mundo ávido de poesia e loucura.


"Milagravas", o monólogo que será encenado por Lucília Dowslley é um dos projetos que nos brinda com mais poesia. Na verdade, tem algo mais especial ainda. A jornalista, fotógrafa, poeta e atriz se desafiou a pisar no palco do Teatro Municipal de Niterói por sentir falta de trabalhar como atriz. A peça mais recente que atuou foi "Cabaret Wild", Salomé, de Oscar Wild, dirigida por Marcelo Aquino e apresentada no Solar de Botafogo, em 2010.

Lucília fez o Anjo da Morte e teve a liberdade de inserir poemas de sua autoria no espetáculo, incentivada pelo diretor. Mas Lucília tem história no histórico teatro de Niterói. Em 1997, no início de sua carreira, ela atuou com cinco personagens na peça "Crônicas Pantagruélicas do Infame Rabelais", de Annamaria Nunes. Com um inusitado personagem ela tirou gargalhadas da plateia e foi aplaudida em cena aberta várias vezes.

No fim da noite, haverá uma apresentação dos músicos e compositores parceiros de Lucília Dowslley Cayê Milfont e Sergio Octaviano, com a participação da atriz Carla Soares interpretando Fernando Pessoa."

Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Vinicius Soares
Poesia: Lucília Dowslley
Atuação: Lucília Dowslley
Cenário e Figurino: Camila Scorcelli
Iluminação: Farley Mattos
Música: André Regal
Produção: Carla Soares Roteiro

Serviço
Lucília Dowslley | "Milagravas"
Data: Terça-feira, 23 de setembro de 2014
Horário: 19h

Duração mínima: 120 minutos
Entrada: Entrada franca (Colabore com o Abrigo ADONAI, trazendo 1kg de alimento não-perecível no dia da apresentação)
Classificação etária: 12 anos
Teatro Municipal de Niterói
Rua XV de Novembro 35, Centro
Tel: (21) 2620-1624

sábado, 20 de setembro de 2014

"Histórias do Mar" por Maria Helena Latini.


Imperdível! No Museu De Arqueologia de Itaipu (Mai)

Estarei lá para prestigiar mais uma obra da minha querida amiga Maria Helena Latini: "Histórias do Mar" (embaladas por músicas de Dorival Caymmi). Dia 24 de setembro, 17h30. Não deixem de ir. Esse espetáculo e essa primavera prometem.

*Recomendamos que o público chegue com meia hora de antecedência, pois só poderemos disponibilizar 50 lugares para a apresentação.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sabático


Las manos de Louise Bourgeois 1911- 2010,
escultora y artista, nacida en Francia. Fotografía de Alex van Gelder, 2010.



Obsequioso desentranho
desentranho essa diligência
que é o decifra-me
e quando não socorro-me
espeto meu dedo mínimo com uma agulha.
Sim, estou vivo!
Atravesso minhas colheitas
com meus tempos amostra,
devo parecer ou padecer
de meu léxico amedrontado.
Sim, estou vivo!
Acumulo valores,
bestialmente acumulo valores
para girar ao redor desse homem,
clone de minha raça,
esse homem que come da minha mesma ração,
primo-irmão de meu paradoxo,
esse que me enfia a faca nas costas
quando me afasto para cochichar: "te amo".

Patricia Porto

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

De infinitos e fecundos




De infinitos e fecundos

  
Com quem dialogas?  
Teu vulto? Tua silhueta?
Com teu rosto nos olhos de uma outra?
Com a tua estátua? Com a tua escrita paralisada?
Com a tua mística?
Com as tuas pedras?
Com quem dialogas?
Com teus orixás? Teus símbolos?
Com teus arquétipos?
Com o teu Cristo na parede?
Com a casa de teus mistérios?
Com quem dialogas?
Com a tua fecundidade?
Com a tua escassez?
Com teu estranhamento?
Com a tua cultura?
Com o teu phatos?
Com o teu sexo?
Com a tua visão?
Com quem além de tu mesmo, em silêncio,
além do enfrentamento contigo mesmo, no barulho,
nu, cru, aberto às vísceras, visto fantasma
na tua incapacidade de ser para além-de-ti-com?
Como dialogas?

PatriciaPorto



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos




Dezembro, 31


Tem saída?

viu o tempo mudando, dançando,
rodando por dentro em serpente,
crescendo no ventre: serpente,
seu corpo: sentido e serpente
bem pressentiu presságios:
há alguma metafísica
no tempo da infecção?

escutou: ecos efêmeros
contra a própria vontade de ficar:
"toda a gente aqui é só, não sabia?"
e se o abraço da vida crescida é pouco
o corpo se fecha
o tempo é cozido
o corpo quer se assegurar:
“já posso dormir?”

escuto que há vozes por todos os lados
e há salvação e grandeza na arte
sussurros no ouvido, sonoros no tímpano...
“sim, meu bem, agora é tarde”,
 recarregue logo o seu amor.
A arte que salva...
é a que nos salva?
Onde então, por favor, fica a saída?
Alguma saída? Onde fica?

 Patricia Porto



segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Chorinho



Essa música não é de vestir o sisudo,
o sisudo do outro, esse dilúvio de ingrato
é maltrato.
Agrado é de amor, espécie de dizer o coração
com olhos que procuram assim, no céu, no chão,
corpos de coreto, um caminho.

De tão alegre faz chorar.
E se choro sou choro
se choras meu choro
choro em dois,
E minha mão se estreita, desengonçada,
procura,  passeia, pedindo
uma dancinha ao menos,
um chorinho a mais.


PatPorto    



domingo, 14 de setembro de 2014

o louco, as margens, a linguagem



Alain Laboile


a alma do louco 
nunca colabora
ele ador-mece na rua
comendo do breu
é fantasma na cidade grande,
mega, megalomaníaca, ninfeta ninfa,
ninfomaníaca
A cidade parece falsa como uma nota de três
três na cruz,
três na santa família
A cidade sabe do louco
o estado de composição

o louco não responde
ele desafina
acelera
rompe
esquizoideando a palavra
signa, significado amplo
ressonância na caixa
peitoral
malabarismo da linguagem
o louco exemplifica


PatriciaPorto

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos (Patricia Porto)


http://www.amazon.com/Di%C3%A1rio-Espantalhos-Andarilhos-Portuguese-Edition/dp/1502342057/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1410560832&sr=8-2&keywords=di%C3%A1rio+de+viagem+para+espantalhos+e+andarilhos



Primeiro Lançamento do Livro será no Teatro Municipal de Niterói, no dia 07 de outubro na "Terça Nobre" 
na Roda de Novos Poetas – Salão Nobre



Patrícia Porto convida Maria Helena Latini
07 de outubro, terça, 19h
Evento Gratuito (Distribuição de 80 senhas 30 minutos antes)
Livre
60min

um anil

Ludmila Yilmaz


amanhã esse riso
os riscos de ruptura pra depois,
ao se deitar
contar do absurdo delicado
.
Em Shangri-Lá deixam para viver
dias de chuva fresca
na goteira de telhado.
E se contentam
feito flor de anil
com festas de azul 

PatriciaPorto



terça-feira, 9 de setembro de 2014

AVE!

VIVIAN MAIER (1956)



Minha avó fazia brevidades,
Tão bonito esse ofício da mulher de comer a maçã.
A equilibrista feita de coragens, sem contradições,
cheia de olhares por todos os lados,
ilha velha de ancoragens e agonias.

As aves estão no céu
vivendo essas simplicidades.
Eu comendo brevidades
nesses pratos de tão rasa e promíscua liberdade.



PatPorto

domingo, 7 de setembro de 2014

Água na pedra


Uma série de poemas com fotografias do meu amigo Eduardo Wermelinger que faz um trabalho esplêndido ao desvelar a luz, não somente a perfeita, mas a possível, indizível, poética. O resultado nas imagens emociona.

Eduardo Wermelinger 





"A luz é o primeiro animal visível do invisível."
 Jean-Luc Godard


Ah, o Amor...
Uma rua obscena, uma câmera escura
que cruza dois ou mais perdidos
sem mexer um fio de cabelo de seu objeto
na arrumação da cena que o oculta, explícita.
Explicíto é o sexo, ob-servo

os inexoráveis na porta de entrada e saída.


Feito a morte, em absurdo de domínio e declínio,

sem qualquer controle é liberdade.
Sempre em contra adição
- aguarda, coloca flores nos peitoris...






...

Eduardo Wermelinger 




Solidão é uma sobra de peixe no prato,
a palavra, o arpão, o peixe no salto isca, um vazio de garfo
- que sutil morre outra vez peixe, vazio, eco...
por dentro um mar transe, borda


Patrícia Porto

sábado, 6 de setembro de 2014

São Luís



Eduardo Wermelinger 


Não sei de onde me aportaram essas garrafas.

São saudades de casa,  
quando regressa tardia a primeira embarcação.
Longe um arquipélago, um mapa de perdidos para o mundo...
essa ilha de tantos no peito gravada,
essa ilha no assombro, esse efeito pronúncia.

Patricia Porto


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Nome


Andy Prokh


Há de se experimentar o improviso,
calar o medo na boca.
Há de se jogar fora as verdades anunciadas
e bendizer o signo na sua hecatombe,
implodido na sede de dizer para além.
Assim como vestes de um nada com tudo a ser dito
espocará balão inflado de possibilidades,
signo arbitrário, escapando ileso,
aberto ao tempo, memória fugidia.

Patrícia Porto

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Janelas (IV): Das conversas com Teobaldo

Juan Esteves

Sou uma apaixonada por imagens. E as persigo. Sei que muitos vivem esse processo criativo, como também vivem o inverso - partem da palavra-imagem para a pintura, a fotografia... Esse mergulho acontece quando vejo uma imagem que me fala fundo. Eu me sinto mexida, movida a escrever. E foi o que aconteceu quando vi a belíssima imagem do meu amigo querido Juan Esteves, uma imagem que tem por ele escrita uma linda narrativa, o que me encantou ainda mais. E daí surgiram as minhas quatro janelas, meus quatro poemas-janelas. E no meio desse caminho dialogado, não sem tumulto interno, me vi também conversando com meu amigo Délcio Teobaldo numa conversa imaginária, e a última janela é para ele num gesto de amizade. Estão no blog, estarão no meu livro e agora divido com vocês "imagem, palavra, amizade, narrativa, imagens..."



Abismos:
uma forma invertida de ver do avesso
a própria corda bamba
Se não abro o guarda-chuva
desequilibro
Se abro chovo armadilhas,
alçapões...
Sou boa mesmo é de abismos,
os de fora, mais os de dentro
A vida é curva,
é pingo de sal na ferida acesa
Se abro os olhos memória
Se fecho imagino
Janelas são para todos,
mas nessa varanda agora floresta
ao meu o lado um Dioniso,
o lobo é minha natureza:
eu escrevo versos sem cellophane,
como quem morde e sangra,
passando a língua no invisível

Patrícia Porto

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Devaneio



by Henri Cartier Bresson


O verso úmido é devaneio
Nenhum salto sobre a língua
nenhum sobre salto
e os dias são de destreza
e o sentido afiado
em suspenso
único

Eu de vaneio
atraindo o verso,
amolando a rima
vou na pedra  

PatPorto