domingo, 31 de agosto de 2014

Grande desafio




Manter-se vivo
Manter-se com os olhos abertos
e ser ao mesmo tempo comunicável
Cada homem carrega a sua cela
Cada mulher, o seu útero
Cada cidade, o seu beco
E o Rato, cada rato carrega a liberdade
do incomunicável

Cada rato carrega o susto
do incomunicável


Patrícia Porto

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Janelas (III): o amor e o charco

Ádám Gyula- Gyimes

Meu amor falou assim:
“do charco nasce a flor”,
do Charco, meu amor,
Chagas nascem do meu corpo doce
junto à Flor do meu sexo bruto
como da transformação nasce o mel
E das violentas sedes da minha alma
Nasce o escuro
Assim como do fim nasce o início,
Como das bocas nascem e caem os dentes
Como da vida nasce a morte
E do tempo nasce o futuro que nunca chega,
mas nos corta fundo
ao meio de tudo.

Patrícia Porto 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Janelas (II)


Mirjam Appelhof

A ventura do espantalho era viajar,
mas como pode o espantalho viajar?
Os pombos sobre seus ombros,
seu corpo preso ao chão,
empalado ao chão...
Misericórdia... Mísero... Córdia
Mitigando coragem de pombos,
pombos que cagam em seus ombros,
sua cabeça...
Ademais é um roto, um amor dissoluto
de ser mais, preso ao chão,
preso ao corpo, preso ao tempo,
preso aos pombos que lhe bicam os ombros,
que lhe cagam a cabeça.
Era preciso não mais ensilvar-se, sair do estado,
do chão, atravessar a fronteira, o madrigal...
Há pessoas que viajam por pessoas,
há pessoas que viajam por cabeças,
pessoas que viajam por países perdidos
nos olhos do ser amado,
viajam pela morte serena dos pássaros...
O espantalho viajava solene como uma harpagão,
sem perder nenhum pequeno imperceptível,
nenhum sentido de soleira. Mesmo os pombos,
mais os pombos, pousando sobre seus ombros,
comendo sentidos, trazendo dejetos, amados pombos...
Os viajantes secretos do espantalho. Suas janelas.

Patricia Porto

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Janelas (I)

Victoria Selbach


Que solidão a tua e que noite de reincidências!
Abro a janela e o faço às duras penas.
Por que tão antecipada é a hora trágica e extemporânea?
Abro a janela com afinco lúgubre.
A janela é meu desespero de abertura.
Vou pé ante pé... Em reciprocidade com o desejo.
Não quero mais cadeados de monotonia, monologia...
Antes o que não sei, mas essa concepção de Deus em insistência...
A janela é onipotência, aberta feito um Deus, escancarada!
Ainda duvido da síntese.
E não abro mão.

Patrícia Porto

     

de Emergência

Katerina Plotnikova, Tree.

viu o tempo mudando, dançando,
rodando por dentro em serpente,
crescendo no ventre: serpente,
seu corpo: sentido serpente
bem pressentiu presságios:
há alguma metafísica
no tempo da infecção?

escutou: ecos efêmeros
contra a própria vontade de ficar:
"toda a gente aqui é só, não sabia?"
e se o abraço da vida crescida é pouco
o corpo se fecha
o tempo é cozido
o corpo quer se assegurar:
“já posso dormir?”

escuto que há vozes por todos os lados
e há salvação e grandeza na arte
sussurros no ouvido, sonoros no tímpano...
“sim, meu bem, agora é tarde”,
 recarregue logo o seu amor.
A arte que salva...
é a que nos salva?
Onde, por favor, fica a saída?
Alguma saída? Onde fica?


Patrícia Porto

domingo, 24 de agosto de 2014

Leminski





Nenhum grave e doce
foi tão forte quanto o som
da melodia
Tudo que nos atravessa
é ponte e poesia

Patrícia Porto

sábado, 23 de agosto de 2014

poeta de outros





O outro que me visitou hoje
era esse outro que mora e morre comigo.
Vou abrir esse abrigo para o hóspede...
Sou dono desse hospício,
poeta movendo doído
o punho da dor:
ardendo
nEle
souinterno 
enfermo
- poemaéêxtase
impermanente.

Patrícia Porto

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A gira do mundo

Carybé


Tempo forte
Tempo fraco
A voz é som
o sol mora na casa do Rei

mas o Rei foi morto
Morto está o Rei
o sol não

Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
Se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal

Patricia Porto

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A dor de ter asas.

 

by Katerina Plotnikova


A companhia do voo é sempre
silenciosa, um grito-soco no dentro,
um abismo em doses de efêmeros.
E ainda assim leve...
Leve, leve, leve...

Quem saberá se não viver o voo?
Como saber se não voar ao viver o bicho?

Entende que está morto e se está morto pode voar.
Pode voar o quanto quiser.

Essa é a liberdade de quem sangra. 

Patrícia Porto



domingo, 17 de agosto de 2014

Trilhos e Trilhas

Gil Vicente


Ele me é ânima,
algum estreito do outro lado de seu braço.
Sanha do tempo, sonho de breu,
beco e esquina,
entranha e seiva,
tira as botas, as correntes,
serena cansado
e dorme no meu dorso de finito.

Veja bem, se tudo é sina,
tudo estranha. Tudo acalanta.
Doces dias, doces noites...
Minha flor, ácida, triste,
minha faca na carne,
meu sangue de dentro labuta.
Tudo ensina.
A figa, o brusco, a terra, o engasgo, o nevoeiro...

Quem é que vai te encontrar
quando eu voltar não sei pra onde?
Quem é que vai seguir nossos trilhos? Quem vai seguir?
Oxalá, os nossos trilhos!

Patrícia Porto

Sensacionalismos e Selfies.




                       Domingo de sol. Ligo a televisão e assisto o cortejo fúnebre de Eduardo Campos. Até aí ou até aqui foi o que, certamente, milhões de brasileiros fizeram neste dia ensolarado de inverno. Leio vários jornais por hábito e vejo num deles que pessoas, muitas pessoas, faziam seu “self” ao lado do caixão de Eduardo Campos para guardar para posteridade. Confesso que fiquei intrigada e que me surpreendi com a relação self e caixão. Não sei mais onde vamos parar com essa mania, mas algo me diz que ela não cheira bem. Outro dia também li que um casal tinha caído de um penhasco na frente dos dois filhos menores enquanto faziam uma self ou um self. Para a posteridade? Sim, essa foi. A última self para a posteridade.                          Nada contra quem sai se fotografando para postar e receber comentários. Mas tudo tem limite. Narcisos existem desde sempre. Quase parte da nossa natureza. E em tempos de mídias sociais e da facilidade do descarte, nada que surpreenda quando uma criatura humana decide se expor para além do esperado. É chato? Sim, é muito chato. Narcisismo só é bom para o próprio narcisista que sempre se acha! Seja em cima de um penhasco ou do lado do caixão de uma figura pública. Antes tinha o tal “papagaio de pirata” que se aproveitava de ocasiões como essa para aparecer numa foto de jornal ou coisa do tipo. Hoje são tantos os papagaios de pirata que até perde a graça, se é que algum dia isso teve graça.
                       Algo que me chocou para além dos smartphones e das mãos levantadas – não para os acenos - foi saber que políticos, políticos sim, dos menores aos maiores, também estavam lá fazendo a sua selfzinha para constar. E seria trágico se não fosse cômico. “Limite” parece ser a palavra da vez. Até onde vai a brutalidade que confunde emoção, comoção com oportunismo? Onde está o limite que separava a criança da jaula? Os pais de crianças pequenas do penhasco da morte? A campanha política do sensacionalismo descarado? Responda o último que apagar a luz.
                           Talvez a nossa força de expressão esteja realmente se dissolvendo com esse aparato que mescla vontade de aparecer, excesso de vaidade e descontrole emocional. Vai ganhar quem conseguir manter a espontaneidade e um caminho mais coerente com a sua vontade e não com a vontade da sugestão. Não estou falando das eleições, mas da campanha pela própria vida. Quanto às eleições vai ganhar quem conseguir, depois dessa tragédia romanesca, encontrar um equilíbrio difícil entre emoção e limite. Não sei o que vai acontecer. Se pudéssemos prever o futuro... Mas ele se parece cada vez mais com um personagem de teatro grego. Como numa grande Panatenéia ele usa suas máscaras para nos iludir enquanto nos confere alguma honraria. A Panatenéia terminava com uma demonstração de culto e devoção. Parece que essa daqui começou pelo seu fim. E se começou pelo fim o que nos providenciará de desfecho poderá ser o imponderável se regido pelo clima de sentimalismo unicamente. As eleições no Brasil têm esse forte aspecto ou apelo da personalização. Não que seja o definidor hoje em dia, mas ainda assim é um aspecto a ser muito bem pensado e medido. Vai ter santinho de político em velório, capela, cemitério... E em tempos de corvos e selfies em sepulturas bom guardar aquela antiga e justa fórmula do bom senso. Para esses tempos uma boa dose de água benta também ajuda.


Patricia Porto

sábado, 16 de agosto de 2014

O rito

O rito
é essa passagem
essa paisagem de pedras
quando eu carregava grávida
as pedras que comi na infância

O passo
é essa passagem
para o outro lado,
o lado é que só um vértice,
um fora do eixo que me encontra
em dois hemisfé rios

O ritual
sagrado, profano,
mistério de mar,
um laço no ar,
desumana, humana,
vestida de fitas,
entro florida na floresta
sem instrumentos de aferição
Quero apenas o basta.

Patricia Porto

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Tutano




palavra angulada
obliquada, anivelada
ao universo micro da agulha
passando por dentro
atingindo o dorso do animal em transe

Poesia, Poesia, rasgando o tecido

Patricia Porto

O atrito: entre espaços e muros na rapsódia da vida

Nicolas Bruno


Mente, vai!
Afinal foste feito para não dar certo.
Para morrer de medo e pavor, e também sangrar!

Mas ainda assim, loucamente sonhas e amas
e acreditas nalguma liberdade.
Vazio e cheio.
Cheio e vazio.
Fraco e não fundo.
Desejo de ir e ficar
feito rio e leito de rio.
Exangue.


Patricia Porto

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Avoe

Victoria Selbach


Fiquei velha antes do tempo
Fiquei velha depois das horas
a ponto de hoje restar-me
apenas esses restos de noite ou de dia
restos de palavras enclausuradas
como irmãs rezando terços

E tive nas mãos algemas etéreas
e olhos de gaveta para guardar o mundo
Por isso hoje só me restam poucos
versos engatilhados
e dúvidas se serei
na algibeira da porta: a tal ventania da morte

Meus fantasmas ali esperam
com seus tolos afagos

Volto-me faminta a revolver a terra
onde enterrei os fatos, algumas mentiras
e tenho poucas mãos para o Ato

Preciso então ir mais fundo
e me fartar desse solo triste
até a exaustão
Preciso chorar todas as lágrimas de dentro,
emborcar o corpo,
dobrar e desdobrar o dorso
para libertar de vez as asas
que guardei nas coxas,
desaprendidas do voo

Patricia Porto

sábado, 9 de agosto de 2014

A atiradora de facas

Victoria Selbach

Ela procurava uma companhia em anúncios digitais.
Profissão: atiradora de facas, santo oficio familiar de quatro gerações.
Andava solitária, o mundo envelhecia mais rápido que o habitual
e ela era um animal em extinção, um animal a galope
pulando vertiginosamente para o próprio esquecimento.

Mas nunca tinha matado uma mosca.
A atiradora de facas era um animal amoroso irrecuperável
que tinha como único passa tempo cultivar maçãs.

Patrícia Porto




Drama


Katerina Plotnikova фото


Apenas me viaje
nessa dura palavra de hoje,
me dissolva desse gosto de ser mais metal
- mais que pensei, uma piada estúpida de corte.

Viajar é ser a estrada. Venha...
Ando morando em meu silêncio horas demais.
Converso com meu estrangeiro em outras línguas.
Não me reconheço em nenhuma, nenhum rosto
tem o meu rosto. Nenhum nome leva o meu peso.

O poema pesa e minha poesia é esse grama que minha indolência não apara.

Patrícia Porto

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Esse silêncio é o cão



Katerina Plotnikova


Aqui estás como sempre estiveste antes, 
vista a olho nu, ou microscopicamente,
procurando um lugar aceso
na tua insana mania de escavar teus dilemas à unha.
Ampara-me com a tua palavra nas pequenezas,
nos pequenos de teus armarinhos, luzes fugidias,
e se houver alguma esperança me oferte... 
Esse silêncio é o cão!
Disse um dia ao pai "um bom natal",
e hoje mal sabe como seria seu rosto de velho.
A vida, ou um cão mordendo o móvel, ou um cão lambendo o pé.
Eis que estamos agora diante da fresta do mundo,
e por ela vejo um quintal:
pé de tamarindo, jaca, jenipapo,
tão doce amargor, frutas de uma infância na Ilha.    
Mas essas saudades efêmeras de hoje vem de um natal na Serra,
clara evidência de que o tempo escoa.
E sem saber da minha ou da tua fadiga noticiada,
se precisamos muito de um sono que nos restaure  
a mal dormida noite, a vida de merda se nos engole,
o sol assim brilha na esplêndida vertigem do dia. 
Um espetáculo!
Nele coo meu pó de acordar sempre alerta
e saio às ruas armada, o de sempre.

Patrícia Porto




terça-feira, 5 de agosto de 2014

Num quarto dela

Mirjam Appelhof

Após a tempestade,
entre espaços
e esquadros de lugares imperfeitos,
a bailarina se despiu, trocou de roupa
desejando
bonanças,
calmarias,
mensagens silenciosas.

Após a dança das ondas,
observando o que ficou
e o que deixou de lixo, dejetos na praia
sob seus frágeis pés de vento:
a vida ainda ousava naufragar tranquilamente.


Ele perguntou se era mesmo doce morrer no mar.
Ela sorveu a pergunta e imergiu num salto.

Águas de seu ventre rompiam,

sua bolsa de água rompia,
a água toda de seu corpo dolorido
rompia.
Era ela o próprio rodopio e o escape.

Em alívios
- sobra de seus dilúvios –
entendeu que não era o fim,
era um começo.

Rogou num absurdo gesto
de quem se resgata do Mar.
Não me amordace mais os pés
com sua salga.

Homem, seca meus dedos?

Patrícia Porto

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

No sense

Stoimen Stoilov - Стоимен Стоилов


Mulher no es-ohlep
espelhando da lua a luz

de um sol

no mirror
no matter

.

Porto Patricia

Boa sorte

Stoimen Stoilov


A sorte não é fonte do forte
Ou é seca ou lhe seca
Ou lhe serve ou lhe assombra
Ou lhe fere ou lhe engana
Ou lhe é manta ou lhe trai
Nesta tenda de ausência
Onde a veste é solidão
Onde a virada é a morte
Onde me talha e esfola
Onde me beija e corta
Onde mistério é ser-a-vir
Servos somos da tua sina
Sirvo, serves sem saber seguir 



Patricia Porto

domingo, 3 de agosto de 2014

Intangível

Stoimen Stoilov 


Nem poros, nem anti-poros, nem uma arrumação a pele
se meu tempo implode 
Não quero mais as dores de ser de Sevilha, eu, o rio civilizado,
você alguém que traz a luz  
O intangível esforço da lagarta... 
De quantos artifícios precisamos para compor um novo mapa?
Sobre a espera de despelar um ante-paro muscular,
um espasmo, e sobre a pele, essa recusa de absolutos,
essa sirene na rua
se meu tempo explode

Patrícia Porto