sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Janelas (III): o amor e o charco

Ádám Gyula- Gyimes

Meu amor falou assim:
“do charco nasce a flor”,
do Charco, meu amor,
Chagas nascem do meu corpo doce
junto à Flor do meu sexo bruto
como da transformação nasce o mel
E das violentas sedes da minha alma
Nasce o escuro
Assim como do fim nasce o início,
Como das bocas nascem e caem os dentes
Como da vida nasce a morte
E do tempo nasce o futuro que nunca chega,
mas nos corta fundo
ao meio de tudo.

Patrícia Porto 

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Janelas (II)


Mirjam Appelhof

A ventura do espantalho era viajar,
mas como pode o espantalho viajar?
Os pombos sobre seus ombros,
seu corpo preso ao chão,
empalado ao chão...
Misericórdia... Mísero... Córdia
Mitigando coragem de pombos,
pombos que cagam em seus ombros,
sua cabeça...
Ademais é um roto, um amor dissoluto
de ser mais, preso ao chão,
preso ao corpo, preso ao tempo,
preso aos pombos que lhe bicam os ombros,
que lhe cagam a cabeça.
Era preciso não mais ensilvar-se, sair do estado,
do chão, atravessar a fronteira, o madrigal...
Há pessoas que viajam por pessoas,
há pessoas que viajam por cabeças,
pessoas que viajam por países perdidos
nos olhos do ser amado,
viajam pela morte serena dos pássaros...
O espantalho viajava solene como uma harpagão,
sem perder nenhum pequeno imperceptível,
nenhum sentido de soleira. Mesmo os pombos,
mais os pombos, pousando sobre seus ombros,
comendo sentidos, trazendo dejetos, amados pombos...
Os viajantes secretos do espantalho. Suas janelas.

Patricia Porto

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Janelas (I)

Victoria Selbach


Que solidão a tua e que noite de reincidências!
Abro a janela e o faço às duras penas.
Por que tão antecipada é a hora trágica e extemporânea?
Abro a janela com afinco lúgubre.
A janela é meu desespero de abertura.
Vou pé ante pé... Em reciprocidade com o desejo.
Não quero mais cadeados de monotonia, monologia...
Antes o que não sei, mas essa concepção de Deus em insistência...
A janela é onipotência, aberta feito um Deus, escancarada!
Ainda duvido da síntese.
E não abro mão.

Patrícia Porto

     

de Emergência

Katerina Plotnikova, Tree.

viu o tempo mudando, dançando,
rodando por dentro em serpente,
crescendo no ventre: serpente,
seu corpo: sentido serpente
bem pressentiu presságios:
há alguma metafísica
no tempo da infecção?

escutou: ecos efêmeros
contra a própria vontade de ficar:
"toda a gente aqui é só, não sabia?"
e se o abraço da vida crescida é pouco
o corpo se fecha
o tempo é cozido
o corpo quer se assegurar:
“já posso dormir?”

escuto que há vozes por todos os lados
e há salvação e grandeza na arte
sussurros no ouvido, sonoros no tímpano...
“sim, meu bem, agora é tarde”,
 recarregue logo o seu amor.
A arte que salva...
é a que nos salva?
Onde, por favor, fica a saída?
Alguma saída? Onde fica?


Patrícia Porto

domingo, 24 de agosto de 2014

Leminski





Nenhum grave e doce
foi tão forte quanto o som
da melodia
Tudo que nos atravessa
é ponte e poesia

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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