sábado, 23 de agosto de 2014

poeta de outros





O outro que me visitou hoje
era esse outro que mora e morre comigo.
Vou abrir esse abrigo para o hóspede...
Sou dono desse hospício,
poeta movendo doído
o punho da dor:
ardendo
nEle
souinterno 
enfermo
- poemaéêxtase
impermanente.

Patrícia Porto

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

A gira do mundo

Carybé


Tempo forte
Tempo fraco
A voz é som
o sol mora na casa do Rei

mas o Rei foi morto
Morto está o Rei
o sol não

Se o tempo é fraco eu bato
faço da madeira um barco
Se o tempo é forte eu danço
vestido de temporal

Patricia Porto

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A dor de ter asas.

 

by Katerina Plotnikova


A companhia do voo é sempre
silenciosa, um grito-soco no dentro,
um abismo em doses de efêmeros.
E ainda assim leve...
Leve, leve, leve...

Quem saberá se não viver o voo?
Como saber se não voar ao viver o bicho?

Entende que está morto e se está morto pode voar.
Pode voar o quanto quiser.

Essa é a liberdade de quem sangra. 

Patrícia Porto


video

domingo, 17 de agosto de 2014

Trilhos e Trilhas

Gil Vicente


Ele me é ânima,
algum estreito do outro lado de seu braço.
Sanha do tempo, sonho de breu,
beco e esquina,
entranha e seiva,
tira as botas, as correntes,
serena cansado
e dorme no meu dorso de finito.

Veja bem, se tudo é sina,
tudo estranha. Tudo acalanta.
Doces dias, doces noites...
Minha flor, ácida, triste,
minha faca na carne,
meu sangue de dentro labuta.
Tudo ensina.
A figa, o brusco, a terra, o engasgo, o nevoeiro...

Quem é que vai te encontrar
quando eu voltar não sei pra onde?
Quem é que vai seguir nossos trilhos? Quem vai seguir?
Oxalá, os nossos trilhos!

Patrícia Porto

Sensacionalismos e Selfies.




                       Domingo de sol. Ligo a televisão e assisto o cortejo fúnebre de Eduardo Campos. Até aí ou até aqui foi o que, certamente, milhões de brasileiros fizeram neste dia ensolarado de inverno. Leio vários jornais por hábito e vejo num deles que pessoas, muitas pessoas, faziam seu “self” ao lado do caixão de Eduardo Campos para guardar para posteridade. Confesso que fiquei intrigada e que me surpreendi com a relação self e caixão. Não sei mais onde vamos parar com essa mania, mas algo me diz que ela não cheira bem. Outro dia também li que um casal tinha caído de um penhasco na frente dos dois filhos menores enquanto faziam uma self ou um self. Para a posteridade? Sim, essa foi. A última self para a posteridade.                          Nada contra quem sai se fotografando para postar e receber comentários. Mas tudo tem limite. Narcisos existem desde sempre. Quase parte da nossa natureza. E em tempos de mídias sociais e da facilidade do descarte, nada que surpreenda quando uma criatura humana decide se expor para além do esperado. É chato? Sim, é muito chato. Narcisismo só é bom para o próprio narcisista que sempre se acha! Seja em cima de um penhasco ou do lado do caixão de uma figura pública. Antes tinha o tal “papagaio de pirata” que se aproveitava de ocasiões como essa para aparecer numa foto de jornal ou coisa do tipo. Hoje são tantos os papagaios de pirata que até perde a graça, se é que algum dia isso teve graça.
                       Algo que me chocou para além dos smartphones e das mãos levantadas – não para os acenos - foi saber que políticos, políticos sim, dos menores aos maiores, também estavam lá fazendo a sua selfzinha para constar. E seria trágico se não fosse cômico. “Limite” parece ser a palavra da vez. Até onde vai a brutalidade que confunde emoção, comoção com oportunismo? Onde está o limite que separava a criança da jaula? Os pais de crianças pequenas do penhasco da morte? A campanha política do sensacionalismo descarado? Responda o último que apagar a luz.
                           Talvez a nossa força de expressão esteja realmente se dissolvendo com esse aparato que mescla vontade de aparecer, excesso de vaidade e descontrole emocional. Vai ganhar quem conseguir manter a espontaneidade e um caminho mais coerente com a sua vontade e não com a vontade da sugestão. Não estou falando das eleições, mas da campanha pela própria vida. Quanto às eleições vai ganhar quem conseguir, depois dessa tragédia romanesca, encontrar um equilíbrio difícil entre emoção e limite. Não sei o que vai acontecer. Se pudéssemos prever o futuro... Mas ele se parece cada vez mais com um personagem de teatro grego. Como numa grande Panatenéia ele usa suas máscaras para nos iludir enquanto nos confere alguma honraria. A Panatenéia terminava com uma demonstração de culto e devoção. Parece que essa daqui começou pelo seu fim. E se começou pelo fim o que nos providenciará de desfecho poderá ser o imponderável se regido pelo clima de sentimalismo unicamente. As eleições no Brasil têm esse forte aspecto ou apelo da personalização. Não que seja o definidor hoje em dia, mas ainda assim é um aspecto a ser muito bem pensado e medido. Vai ter santinho de político em velório, capela, cemitério... E em tempos de corvos e selfies em sepulturas bom guardar aquela antiga e justa fórmula do bom senso. Para esses tempos uma boa dose de água benta também ajuda.


Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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