sexta-feira, 25 de julho de 2014

Entrei!





Essa porta eu inventei
Eu abri com minhas próprias mãos,
às vezes com os punhos cerrados 
Não me arrependo do caminho,
eu também estava perdida
Fui violenta. Fui mártir. Mas, sobre tudo, fui doida
A doida que inventa portas onde nada mesmo
foi construído pra ela

Patricia Porto

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ao que destina



MANUEL CARRILLO

Não, seu tolo, eu não entendo o todo,
mas só algumas partes das partes 
e detalhes das extremas partes nas partes

Não, não fiz as pazes com minha religião,
por isso blasfemo, por isso eu que comi hóstias demais
ainda temo o demo

Não, não contei direito minhas favas
e sobre abandonos, essa rinha,
me pergunto duas vezes ao dia:
por que eu?
por que eu?

Patricia Porto 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Traspassa





Todas essas estrelas são para os olhos dele
porque os olhos dele são essas janelas fundas
Essas janelas abertas para mim e para o mundo 

Patricia Porto

Tempo pródigo


© Zé Miguel Cabrita Matias


Eis que inventaremos um novo decreto
Um novo mandamento para as lembranças ruins,
as que ficam trazendo esses cadáveres de pensamento,
as que se colam em nossas intenções e nos escravizam  
a um tempo inexistente

Fica expressamente proibido estacionar o seu amor
nas razões dessas memórias mortas

Patrícia Porto

NO CREO EN BRUJAS.





"Quando examino a mim mesmo e aos meus métodos de pensar,
 chego à conclusão que o dom da fantasia significa muito mais para mim que qualquer outro talento para pensar positiva e abstractamente."
Albert Einstein
             

                 Clarice Lispector tem um texto belíssimo que fala sobre as vantagens de ser bobo. O bobo,  esse ser que  por  ignorado – consegue levar a vida com aquela dose certa, talvez fugaz, de leveza. Ignoscere é um verbo em latim que significa “não conhecer”. A ignorância pode ser tomada então, por sua origem, como sinônimo do não-conheço, desconheço. Seria então o desconhecimento. Todo o mais que quanto mais conheço mais desconheço eu ignoro. E se algo diz muito perto à ignorância é a nossa conhecida não-compreensão da "outredade". Se não conhecemos não compreendemos, se não compreendemos não enxergamos. Daí a distopia que atinge a tantos e tantas. Tenho “conhecido” (e haja aspas!) gente muito míope e muito dura de espírito, tenho falado com elas e tenho aprendido bastante sobre as asperezas, durezas e a falta do humano que leva à incompreensão e ao mau humor, esse jeitinho blasé dos que se julgam e sentem superiores, "os campeões em tudo", gente que nunca errou, mas também nunca deu uma gargalhada, nunca se expôs ao ridículo, nunca foi fracassado, cafona. 
                    Viver é digno do riso!  E já disse a Elisa Lucinda que “a vida não tem ensaio”. Com ela concordo e me alongo no exercício de pensar... Diria então nesse acordo tácito que a vida é o próprio rascunho, cheia de imperfeições, falhas, desvios, ranhuras, cortes, borrões... A minha pelo menos tem sido assim e não conheço outra melhor de pia.  Por isso sigo transitando pelas falhas do caminho, vou repleta de bobices, correndo riscos, expondo a pele à radiação numa tentativa despudorada de confiar no outro e em mim mesma. Confiar? É um risco constante. E quem nunca correu riscos que atire a primeira pedra. É fácil atirar. Isso sim, uma bobagem... Já me desfiz de um caminhão de pedras que já foram atiradas em minha direção ou em qualquer direção. Porque quem atira pedras atira em qualquer direção e tem gente assim que até cai, mas vai atirando para todos os lados - até o fim!, como quem morre em grande agonia. Aquele pessoal que quer vencer pelo berro, pelo olhar de falsa superioridade e pelo verniz do falso conhecimento.
                    Eu sempre vivi de minhas "bobices". E costumo até dar o meu lugar na fila para quem eu sinto que precisa mais do ser bobo. Mas sei também que, pela nossa cultura, "o cara bom" é o que fura a fila. "Esse é o esperto!" "É o malandro!" "O safo!" Eis o vencedor! O que ganha pela aparência, pelo sorriso amarelo e de canto, o puxa-saco, o que promete com elogios inesperados para depois fazer cobranças mais inesperadas ainda. 
                   A bobice, eu soube, pode ser adquirida ainda em tenra infância. Na minha época de escola, por exemplo, eu era aquela garotinha que levava a equipe nas costas e fazia o trabalho todo sozinha. Vocês devem conhecer uma figura assim ou podem ser uma figura assim.  Essa é a função da "boazinha", do "bonzinho", coitados. Dos chamados de "éticos" e "otários". Descobri há tempos que tenho "cara", "pinta" e "máscara" de boba (ou otária!), e deve estar escrito em letras garrafais na minha testa, piscando feito neon. Só pode. Porque estão sempre me passando a perna, a pernada, a rasteira... Tenha dó!  
                 Sabe aquele doce de padaria que atrai um monte de moscas, aquelas famintas a fim de levar sua lasquinha? Pois bem, o bobo é assim, atrai os espertos com seus badulaques, espelhinhos e seus monopólios de comunicação. O hipócrita que vomita dez frases de efeito é um sujeito genial! Os acadêmicos de gabinete que mal se sustentam nas pernas de suas tolas e fracas teorias, fazendo um "mix" medonho de citações hiperbólicas de sujeitos que já até viraram dessa para pior, ainda assim também "parecem" geniais, arrotando as novas formas de sociabilidade: o churrasco, a troca de moedas, a camaradagem, o nepotismo matrimonial, o "toma lá, dá cá". Depois ainda dizem que são as novas teias, as novas redes... Sim, as redes - não novas - mas as velhas de sempre, as da artimanha bélica pra lá de enferrujadas. Bobos não costumam sobreviver por muito tempo nessas velhas estruturas em metástase, são logo expurgados como corpos estranhos.      
                  Bobo sim era Jesus Cristo. Disse Clarice. Acreditava no perdão. Acreditava na humanidade. Minha avó – que era boba vivida – dizia que se ele voltasse, o crucificariam de novo na mesma cruz. Eu sei que tem gente por aí que ia querer dar umas boas chibatadas em muita gente boba – sem perdão. Tem uma lista deles na fila de espera. Uma quadrilha de assassinos de possibilidades, de matadores de oportunidades, de esgana-dores dos afetos legítimos. Gente má mesmo. Má no sentido mais intenso e amplo da palavra maldade e que até naquele pedacinho do bem: azedou.  Gente que não perde a chance de puxar um tapete, de dizer vilanias, de espelhar e espalhar negatividade por onde passa, distribuindo ofensas preconceituosas, farpas de maldição, profecias, pragas e outros bichos mais. E nos ouvidos das chamadas "minorias", nos ouvidos das crianças e daqueles que "parecem" indefesos? Haja veneno gritando, explodindo!
              Não, não estamos perdidos. Eu sinto que a mesma realidade que nos afasta da crença e da confiança nos leva de volta para elas.  Como sobreviver aos vampiros  sanguessugas que se intensificam e se fortalecem a cada geração que passa? Não à toa “o vampiro” se torna hoje a representação  recorrente do que “o  futuro nos reserva”, basta ver os tantos roteiros cinematográficos que se valem desse mote.  Nenhuma metáfora  talvez sirva melhor do que a do apetite voraz dos que sugam a energia alheia, esse tipo de ser que vive à sombra – sem nunca plantar e cuidar de sua própria planta, árvore, terra.  Aquele ser medonho que fica ali, à espreita, observando o menor descuido do outro para abocanhar a carne, o real, a sorte de muita gente honesta e trabalhadora. E eles vêm correndo, na maior sanha de ambição desmedida e aproveitam para jogar um tanto sal e matar a fertilidade que brota a olhos vistos! São predadores e sedutores, por isso precisamos ainda mais proteger as nossas criaturas e as nossas criações. Até porque eles estão por aí – em muitos lugares, nas melhores famílias. E de quatro em quatro anos se empoleiram e (acreditem!) distribuem “santinhos” nas nossas portas e “casas”. Entram pelos gabinetes e repartições levando – cada qual - uma corja de pequenos seres rastejantes ao redor.  Vampirescos, dantescos...  Dante, por sinal, projetou o melhor quadro da capital nacional, bem antes dos nossos dias.
                  Faxina é pouco. Melhor desratização acompanhada de banho de ervas, muita chuva de pipoca e água benta.  Marx e seus irmãos tinham razão e “pero que las hay las hay.



Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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