segunda-feira, 28 de julho de 2014

Ponto

Oleg Oprisco



O poeta é assim. Ele caminha incansavelmente.
Não o toleram. Ele marcha!
Tentam derrubá-lo e o atropelam. Ele se imagina caminho!

Patricia Porto

Fique bem

Oleg Oprisco



Eu tenho vários lados e alguns são lodos.
Será uma alma alma humana sem seu lado lama?
Será a natureza humana natureza ou fabricações de seres,
ossos, sofismo?
A vida começa no big bang ou no bang bang?
Eu tenho vários lados e alguns são lodos.

Patricia Porto

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Entrei!





Essa porta eu inventei
Eu abri com minhas próprias mãos,
às vezes com os punhos cerrados 
Não me arrependo do caminho,
eu também estava perdida
Fui violenta. Fui mártir. Mas, sobre tudo, fui doida
A doida que inventa portas onde nada mesmo
foi construído pra ela

Patricia Porto

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Ao que destina



MANUEL CARRILLO

Não, seu tolo, eu não entendo o todo,
mas só algumas partes das partes 
e detalhes das extremas partes nas partes

Não, não fiz as pazes com minha religião,
por isso blasfemo, por isso eu que comi hóstias demais
ainda temo o demo

Não, não contei direito minhas favas
e sobre abandonos, essa rinha,
me pergunto duas vezes ao dia:
por que eu?
por que eu?

Patricia Porto 

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Traspassa





Todas essas estrelas são para os olhos dele
porque os olhos dele são essas janelas fundas
Essas janelas abertas para mim e para o mundo 

Patricia Porto

Tempo pródigo


© Zé Miguel Cabrita Matias


Eis que inventaremos um novo decreto
Um novo mandamento para as lembranças ruins,
as que ficam trazendo esses cadáveres de pensamento,
as que se colam em nossas intenções e nos escravizam  
a um tempo inexistente

Fica expressamente proibido estacionar o seu amor
nas razões dessas memórias mortas

Patrícia Porto

sábado, 19 de julho de 2014

Carregar um pouquinho

Adam Wawrzyniak


Olhei para minha mesa e notei que carregava um pouquinho
Carregava um pouquinho de cada pessoa, lugar que andava comigo,
um mero detalhe, uma ínfima partilha, partida, parte dividida e ampliada,
um pouquinho só
e era tudo o que me bastava


Patrícia Porto

Esse Passarim

(Para Rubem Alves)


Passarinho avoa aqui pertinho do meu jardim
Faz pirueta prosopopeica de balanços pelo quintal
Sabe que ser criança é assim, passeios rápidos, giros,
cambalhotas de dar risada até a gente morrer de tanto ir

Patricia Porto

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O Peixe e o Olhar de João



As palavras deram agora para brotar da boca,
vêm em saltos como peixes que se incubem de ser ar.
Uma tarefa onírica.
Como um peixe pode ser ar? João me perguntou.
Quando pula e desenha um salto majestoso e extraordinário no espaço
o peixe desafia a sua própria natureza de mar e se transmuta ar.
Então será que olha de relance tudo o que está em volta de si
em milésimos de segundos
e guarda tudo profusamente como experiência mágica?
Não. O peixe quer saber de voar em sonhos de ar.

Se precipita. Se arrisca. Se atira. E morre pelo olhar.

João me deu um copo d`água. Eu ali um peixe morrendo de olhar.
Ele me disse: "as melhores coisas da vida são as mais fáceis".
E só queria morrer se João deixasse.

Patrícia Porto

quarta-feira, 16 de julho de 2014

NU FRONTAL

Joel Peter Witkin


Para o Estrangeiro mamilos de Vênus
Para o Terror a noite escura
De um Adão outro Adão
Para Eva a Lilith
O pecado essa serpente
Será mesmo o demônio
para todo o sempre
nu feminino?

Patricia Porto

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Desvio para o vermelho




A neve que eu nunca vi, no espelho
O frio explodindo na rua de tantas friezas
Meu deslocamento, amor, fez-se tão veloz
Eu travei espaços pra dizer, eu senti demais

Dancei tão sozinha e pra desvendar o quanto doeu
vim pra te dizer que esse corpo é meu,
desviado pro vermelho intenso
Intento não querer mais saber desses outros seus

Vou dançar no fim sobre o seu cinismo sempre tão fugaz
Eu nem sei dizer, a porta fechou, não por merecer,
antes desse alguém sair, abrir - para me abraçar.


Patrícia Porto


domingo, 6 de julho de 2014

Cartas para Mário: Memórias do Estrangeiro

Alain-Laboile. Arte en familia.


          
            Depois que a ligação caiu, demorei a dormir. Fiquei confusa. Mas eu sou confusa. Hoje o sol apareceu - entre nuvens ainda. Vou dar uma caminhada na praia, ver gente, ler o jornal... Sair um pouquinho desse confinamento e buscar lugares, ilhas de equilíbrio.
            Ontem fui ao grupo de terapia para pessoas que sofreram abusos e, aos poucos, vou percebendo que agora ouço muito mais que falo. Não tenho algo que me perturbe tanto quanto antes, quando não podia falar sobre. Ou algo que me incomode tanto a ponto de me expor mais que o devido, nem mesmo esse cão rosnando do passado, muito menos o cão que me fareja de presente. Mas estar entre eles, entre os que falam, também me faz desvelar um bem maior. Não deixaria de ir só por egoísmo do "já posso lidar com isso", pois ouvir o outro, os sons do outro, as palavras adormecidas entre durezas e as necessidade de sobreviver... Tudo isso tem me ensinado a buscar algo que talvez já morasse em mim: uma cumplicidade silenciosa, respeitosa, um silêncio respeitoso. Sinto que posso ajudar ouvindo e que isso faz realmente diferença... E essa descoberta dá a minha vida uma significativa possibilidade de compreensão do outro, de escuta atenta, afetuosa. Vou ficando comedida, eu tantas vezes sem medida. Sei bem quanto nos custa dar um passo a cada dia, um de cada vez. Sei que ainda me confundo, tropeço, caio e levando. Não tem outro jeito, eu preciso levantar todos os dias, levantar da queda, do escuro, do medo da morte etc. Mas ainda cometo contradições. E como bem disse o Jurandir Freire, ás vezes pode ser muito tarde para perdoar, eu vou tentando perdoar quem me puxa para o abraço do afogado, e tento esquecer quando possível. Assim percebo que vamos reaprendendo com as nossas falências, significando esses vazios, diminuindo o volume do barulho interno.
           Então a gente que vive dentro da gente vai vivendo melhor, descobrindo novos tempos da fruta Vida. Tem um frase que eu gosto muito do Cyro dos Anjos que diz: "na verdade, as coisas estão é no tempo, e o tempo está é dentro de nós". A terra roxa que nos foi subtraída, deixando assim o solo seco sem água, vai criando uma vontade de plantio. É longo esse tempo do plantio, é Cronos e Kairós. Plantar, trabalhar a terra, sujar as mãos e não se achar sujo por isso, mastigar o capim do tempo, cantar a música do trabalho, esperar que surja o novo implante de terra, e ser nele o exercício de viver o próprio movimento. 
             Pensei em fazer uma viagem. Todos me dizem para fazer viagens, embora eu já faça muitas. A mente pode nos levar a tantos lugares, assim como pode nos tirar de lugares de imobilismo. Mas viajar é olhar, viajar é o olhar do estrangeiro, é tirar férias do cotidiano e suspender-se como um trapezista, olhando do alto em seu balanço magistral que - de repente - vira um mergulho, uma entrega, um ir sem medo da volta. A melhor vantagem de ser estrangeiro é olhar e ver, olhar e não ver. Uma liberdade de arbítrio que te ensina e que se dilui em pequenas porções de versões sempre originais. Logo sua identidade singular se amplia e se estranha, e se você ficar mais tempo se verá para sempre como o Estrangeiro de si mesmo, por mais que se fixe, seu lugar é mover-se. O de "onde você veio" ficará num transe, colado ao "onde você está".  Quando mais ficar mais será Estrangeiro, se ficar pouco, apenas turista.
             Numa de minhas viagens para fora me deparei com o pensamento sobre uma preservação de  identidade coletiva que corre contra a aculturação galopante desse mundo cada vez mais globalizado - "tão perto e tão longe", conectados e ao mesmo tão distantes do hoje e do que foi ontem. Tento entendê-los por um lado, mas não sei se também "reter" o quase inevitável: o novo do mundo- não pode vir a ser "o não querer viver a/na diversidade”. Afinal, viver com o(s) diferente(s) é adaptar-se a viver constantes estranhamentos, transformações. Acho que o velho mundo colonizador não se preparou para isso e "naturalmente" (sem movimento) preserva se preservando, talvez com aquele medo de ser invadido por velhos (também) - fantasmas. Acho que os imigrantes históricos, assim como os migrantes- são pela natureza interna - Estrangeiros. Estão em trânsito permanente, por isso se agrupam como quisessem preservar o perdido, o elo perdido. E vivem em saga. São micro-narrativas da história humana. 
               Nas minhas viagens subterrâneas tenho aprendido desses muitos sentidos com o outro, esse outro que diz quem eu estou sendo naquele momento, nesse momento. Tenho mais compreensão que compaixão pela menina sofrida da minha infância, menos perdão e mais afeição. No grupo de terapia também somos todos Estrangeiros, cada qual com suas próprias viagens a narrar. E a narrativa ali renasce todos os tempos da Terra, as notícias chegam de lugares, os mais longínquos. As narrativas são veículos de cura e temperança. A voz que me acalanta é a voz que caiu comigo no mesmo precipício, mas diferente de Orfeu, por vezes voltamos com a nossa criança viva, respirando. E esse respiro é voz, é a narrativa desse Estrangeiro que sempre acaba de chegar, voltar e olhar.      
               Na porta de entrada da Terra Estrangeira colei um cartaz: Tenha uma boa estada nesta morada e aproveite bem o que for sentido... Vamos lá fora ver o mar?

Patrícia Porto

Agulhas para compor palheiros








Sou a criadeira de versos,
esses de estribilho,
palavras de linhas,
mulher de morrer no mar ou na rede,
água-viva que tanto queima
e beija no doce - esse assunto vulcânico.

Devo dizer que nada sei

dos futuros ou augúrios das mãos.
Sei das agulhas, dessas finas
de tecer na dor o verso no inverso o feio,
sugando a vida, o leite de todo viço fresco.

Ah, eu sei, sei do que me desalinha.
O que me faz perder o ponto.
"Poesia! Poesia..." Chamo daqui. Ela me acende.

E tu? Quem és? 

Meu querido hóspede, meu lado sombrio de mim,
sei que só tu sabes bem desses feitos de agulhas
e como colecionar palheiros onde a procura sempre se perde.


Patrícia Porto

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Engasgo

Salih Agir


Como um oásis no meio do nada,
uma palavrinha mole de descer pela garganta
abrindo caminhos
fugidia
faminta de novas ambições
de frases, poemas helênicos,
versos alexandrinos.

Mas ali ficou, no meio do nada, oásis,
deslumbrada de si mesma,
tão pequena, tão miúda,
esqueceu de crescer.

Patrícia Porto