sábado, 21 de junho de 2014

A casca




Tirando a casca
o que se tem por dentro?
Por trás da superfície fina
essa alminha
tão dodói... 
- doída de profunda

Patrícia Porto

Depois de horas...

Reeve Lim

Quando você vier
o poço estará seco
a pista vazia
a noite escura
o tempo esticado
fugido

Quando você vier
estarei em outra onda
vivendo outros mares
ou talvez dilúvios, novas tempestades

As horas estarão se alargando entre os ponteiros
apavorando os passageiros dessa nave
Os dias não serão mais tolerantes
Nem eu serei mais eu, nem tu serás menino ou meu destino

Faz frio no inverno dessa casa e os tempos são voláteis
como meninos nas ruas, correm atrás das pipas pelos ares
e enfrentando a vida que é tão dura, tão dura, são audazes

O vasto do meu peito é um poema
Não sei fazer de outro jeito essa sequela
o tempo diluindo a cristaleira
nos corpos da cicuta industrial

as fichas tão jogadas pelos ventos
enfim serão tão logo engolidas ao acaso
quando você vier

Patrícia Porto

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Memórias e Dimensões



Salvador Dali

Pedras lançadas
em águas paradas
a formar esferas abstratas
que se multiplicam,
sobrepujadas por novas divisões.
Se acumulam
como pensamentos inquietos
de um sentimento quieto e renovado
de quem junta caquinhos
em dimensões subjetivas...

A memória estacionada, uma engrenagem 
que alerta da sensação do quantum és finito.
As gavetas seguem abertas
procurando perguntas...

E os caquinhos são bricolagens desse novo ser.
Medonho. Divino.


Patrícia Porto

No dia que te vi estrelas

RIIKKA SORMUNEN


Quando ela era criança
Subia telhados de estrelas
E fazia estrelas nos próprios telhados
Os telhados de estrelas fazia
Com céu de criança no quarto
Quando ela era

Quando ela aprendeu a crescer
Com suas próprias mãos
Construiu telhados de vidro
E quebrou espelhos com as mãos
Violentamente fez de vidro telhados
E quebrou silêncios
Quando teve espelhos
e semelhanças feitas com suas próprias mãos

Quando a desordem cessou
Ela desceu do telhado da casa
As estrelas haviam partido
Ela sequer teve mãos
Para dizer adeus
Então a morte dela chorou
Os olhos inundaram
Os vidros se estilhaçaram
Fragmentaram sujas possibilidades
de expansão

Desejou outro céu
Outras poeiras


Patrícia Porto

video



terça-feira, 17 de junho de 2014

Cais do Porto


Franz Falckenhaus


Eu não espero
Não teço
ou tropeço no corpo dele
Eu não diluo o que concentro
e não elaboro o mar, eu o invento

Se ele vem me alegro
Se não vem não me entristeço ou luto
Meu amor é o próprio tecido de vida
Da vida componho meus traços no entorno

Não calculo ou me alucino
não me perco na ausência dele
não me entendo nele
não me acho nele

Sou o mar inventado, o mergulho, a viagem,
as águas, os líquidos que dou de beber
Não me angustia o retorno
de quem nunca soube de si em mim

Patrícia de Cássia Porto
Pátria Cais e Porto

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ex-atos

Shinichi Suzuki 1870


Amor de compactos
vida elástica
sentimentos são esquinas,
ruas de se soltar na multidão
Ser no muito o ser de muitos,
Ser de toda gente
ler e viver a palavra como corte
e aceno

Alma elástica,
Amor de desdobráveis,
Vida de compactos

noites de beber no outro a inexatidão
os acentos
a linguagem viva
foto atravessada de espelhos

Toque não, é fundo...
Toque sim...

Patrícia Porto

Minha casa, meu reino, minha alma de brechó.



         
                     Como boa leonina que sou gosto de zelar pelo território, por isso minha casa, essa transitória, por pequena que seja, modesta que seja, entulhada que seja - ou de livros  ou de lembranças de todos os lugares por onde andei a fazer amigos, é o meu reino. E só um felino muito indistinto sabe o valor que isso tem na hierarquia dos desejos. Por isso cuido do meu canto, gotejo nas plantas minha sorte, arrumo gavetas de esquecimentos, brinco de abrir e fechar janelas e solto meu pensamento, flutuante, misturado ao odor de café, cheiro de minha natureza sempre mais para o dentro que para fora. Não reclamo, embora reclamem bastante de mim. Gosto da minha natureza reservada, do meu canto de leitura e meditação, de construções enigmáticas de poemas que ainda vão surgir daqui a dias, meses ou que simplesmente vão desaparecer esfregando e soltando letras sem sentido algum que dê sentido a eles. Gosto da solidão moderada, gosto de estar comigo e conversar comigo mesma e isso talvez me torne essa pessoa muito estranha. Difícil não explicar a liberdade que mora na minha necessidade de solidão. Gosto de escolher tecidos e pendurar roupas, mas não me sinto oprimida por isso. Quando ando borboletando pela minha sala, pouso na estante e sempre arranco sorrisos dos livros: pedaços, corpos inteiros, novos romances pra ler... 
                   Espero que ninguém, nenhuma fada madrinha tente algum dia me salvar ou me anular da minha tão íntima rotina. Por isso meus companheiros são meus filhos e um cachorro. O meu cachorro até senta para tomar café comigo, olha a lua da varanda e me ajuda a criar loucas elucubrações com latidos e afagos arabescos. Nesse instante somos os dois a própria falta de eternidade, aquele instante breve de ser nada. Adultos humanos são os mais difíceis de lidar, querem sempre explicar ou exigem explicação para tudo, para a mais mísera das bobagens. Não se conformam com "não sei", "esqueci" e "não me interessa". Minta, meu filho, é o que costumo dizer. Humanos adultos preferem os mentirosos aos autênticos, ou porque abandonam suas infâncias na primeira esquina de arrogância ou por conta da soberana soberba. 
            Então, sinto muito, mas não me explico mais e falo cada vez menos o desnecessário. Tem um vizinho que sempre me pergunta: por que seu cachorro late tão pouco? Eu minto: "ele é tímido".

Patricia Porto

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Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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