domingo, 29 de junho de 2014

Intocável




Foi vítima de um amor asséptico
que limpava as pistas dos crimes por onde passava
onde sujasse o ambiente lá ia o amor logo limpando as digitais,
juntando os cabelos, jogando na lixeira o seu re-verso

sem vestígios, relicários ou qualquer fato de concreto na sua materialidade
na assepsia da palavra que calava, amordaçou qualquer projeto de futuro

Limpou as botas, tirou as marcas de sangue do ressinto
lavou as origens das bocas, dos sexos unidos,
apagou um cigarro nas gotas se suór

alterou a cena do crime
e permaneceu no mesmo, intacto, impassível
- nunca visto antes, uma ninharia

Guardou navalha e bacia. Aguou as sardinheiras...

Patrícia Porto

dos Andarilhos

Quint Bucholz

O salto
feito soltar pipas
no Ar, infinito?

Deixar os pés soltos
na terra
ou molhar as pontas
na maré baixa
da finitude?

as amarras
os Cintos
as Gravatas
Cordas
e Correntes
des amar arrar
e errar, sangrar, sofrer
porque é das humanidades
o mais recorrente
absurdo

Encerrar ciclos
começar outros
Saltar sobre a corda?
Puxar a cadeira?
Pular sobre a morte?
Escapar ileso.

E saltar:
com a Alma
TransLuzente
de novos achados

Como arde
no peito
essa saudade de amanhã!

A vontade
é uma viagem sábia
por si mesmo...

..................
Patrícia Porto

sábado, 28 de junho de 2014

Céu de vespeiro


Casamento Coletivo, Marcel Gautherot, Nordeste do Brasil,1941


Nordestino num destino novo
NOvo de outro Colombo
No destino dele
O Itá a pé-mirim 

No meio dessa história
Tinha uma estrada reta
Um destino torto no meu sangue
no meu sangue negro
no meu sangue índio
no sangue de colonizador,
esse pai feito de meu avô

De Novas Américas caminhos
Dentro da América de sentinelas
Parindo essa menina,
menina América da barriga do mundo

São Gabriel, minha Ave Maria!
Era tanta a água de parto que se fez açude
Que a terra do escravo tanto inundou!
Quantos grãos dessas areias
se fizeram lágrimas de minhas mães secas?

Nordestino viu, era visionário
Teve tino e tento 
Tinhoso o destino apontava o forte
Fez a terra tenra, roxa, terra de costumes,
bonita de corpo onde o que se planta come

Fez de pedra a casa
Fez da sorte a pedra
E a Vida de pedra, a analfabeta,
Na cidade selva fez do bicho um aprende dor

Nordestino vive
Cinza, atrás de um balcão de portaria,
mais forte que nunca geme suas paredes, 
Traz vida à força
No corte se fia
pra iludir a morte,
pra iludir o senhor

No destino reza
Aponta pro norte
Onde foi parar essas minhas velas?
Norte que me deste
No destino prova no açúcar branco
Que a terra é de transe 
E que o transe é da Rocha

No destino apruma
Corre contra o fel da endemoninhada
Já que a espera cansa

Faz chover do céu
Caos de canivete
Renascendo tonto, profeta da sanha
Dançando no saibro, puxa a navalha
Chapéu de aprumado

No destino aponta
E até com a curra 
Cruza e faz pareia
Pula e dá risada

Vence da moléstia
Praga, peste é piula

No destino acha
que Vida é clã que se destina
Passagem divina de passarinheiros
É Flor de aroeira, versos de passagem
E só pra ganhar essa benção em dobra
na dobra do tempo
esse natimorto

Dá uma de besta
Na rede da alma comete indolências de sobreviver: 
"Alma, alma, essa me é boa de deita!"


Patrícia Porto

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Gravidade

Egon Schiele


Nenhuma gravidade na gravidade
Na grávida potência dos objetos que seguem seu curso inato
e se atraem
Se coloco um peso contra o chão de mim mesma
que corpo padece?
O sol é sol todos os dias sem nenhuma poesia, poesia ou anarquia
Poesia mesmo são os vulcões imaginários
da minha e da nossa gravidade

Patrícia Porto

sábado, 21 de junho de 2014

A casca




Tirando a casca
o que se tem por dentro?
Por trás da superfície fina
essa alminha
tão dodói... 
- doída de profunda

Patrícia Porto

Depois de horas...

Reeve Lim

Quando você vier
o poço estará seco
a pista vazia
a noite escura
o tempo esticado
fugido

Quando você vier
estarei em outra onda
vivendo outros mares
ou talvez dilúvios, novas tempestades

As horas estarão se alargando entre os ponteiros
apavorando os passageiros dessa nave
Os dias não serão mais tolerantes
Nem eu serei mais eu, nem tu serás menino ou meu destino

Faz frio no inverno dessa casa e os tempos são voláteis
como meninos nas ruas, correm atrás das pipas pelos ares
e enfrentando a vida que é tão dura, tão dura, são audazes

O vasto do meu peito é um poema
Não sei fazer de outro jeito essa sequela
o tempo diluindo a cristaleira
nos corpos da cicuta industrial

as fichas tão jogadas pelos ventos
enfim serão tão logo engolidas ao acaso
quando você vier

Patrícia Porto

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Memórias e Dimensões



Salvador Dali

Pedras lançadas
em águas paradas
a formar esferas abstratas
que se multiplicam,
sobrepujadas por novas divisões.
Se acumulam
como pensamentos inquietos
de um sentimento quieto e renovado
de quem junta caquinhos
em dimensões subjetivas...

A memória estacionada, uma engrenagem 
que alerta da sensação do quantum és finito.
As gavetas seguem abertas
procurando perguntas...

E os caquinhos são bricolagens desse novo ser.
Medonho. Divino.


Patrícia Porto

No dia que te vi estrelas

RIIKKA SORMUNEN


Quando ela era criança
Subia telhados de estrelas
E fazia estrelas nos próprios telhados
Os telhados de estrelas fazia
Com céu de criança no quarto
Quando ela era

Quando ela aprendeu a crescer
Com suas próprias mãos
Construiu telhados de vidro
E quebrou espelhos com as mãos
Violentamente fez de vidro telhados
E quebrou silêncios
Quando teve espelhos
e semelhanças feitas com suas próprias mãos

Quando a desordem cessou
Ela desceu do telhado da casa
As estrelas haviam partido
Ela sequer teve mãos
Para dizer adeus
Então a morte dela chorou
Os olhos inundaram
Os vidros se estilhaçaram
Fragmentaram sujas possibilidades
de expansão

Desejou outro céu
Outras poeiras


Patrícia Porto




terça-feira, 17 de junho de 2014

Cais do Porto


Franz Falckenhaus


Eu não espero
Não teço
ou tropeço no corpo dele
Eu não diluo o que concentro
e não elaboro o mar, eu o invento

Se ele vem me alegro
Se não vem não me entristeço ou luto
Meu amor é o próprio tecido de vida
Da vida componho meus traços no entorno

Não calculo ou me alucino
não me perco na ausência dele
não me entendo nele
não me acho nele

Sou o mar inventado, o mergulho, a viagem,
as águas, os líquidos que dou de beber
Não me angustia o retorno
de quem nunca soube de si em mim

Patrícia de Cássia Porto
Pátria Cais e Porto

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ex-atos

Shinichi Suzuki 1870


Amor de compactos
vida elástica
sentimentos são esquinas,
ruas de se soltar na multidão
Ser no muito o ser de muitos,
Ser de toda gente
ler e viver a palavra como corte
e aceno

Alma elástica,
Amor de desdobráveis,
Vida de compactos

noites de beber no outro a inexatidão
os acentos
a linguagem viva
foto atravessada de espelhos

Toque não, é fundo...
Toque sim...

Patrícia Porto

Minha casa, meu reino, minha alma de brechó.



         
                     Como boa leonina que sou gosto de zelar pelo território, por isso minha casa, essa transitória, por pequena que seja, modesta que seja, entulhada que seja - ou de livros  ou de lembranças de todos os lugares por onde andei a fazer amigos, é o meu reino. E só um felino muito indistinto sabe o valor que isso tem na hierarquia dos desejos. Por isso cuido do meu canto, gotejo nas plantas minha sorte, arrumo gavetas de esquecimentos, brinco de abrir e fechar janelas e solto meu pensamento, flutuante, misturado ao odor de café, cheiro de minha natureza sempre mais para o dentro que para fora. Não reclamo, embora reclamem bastante de mim. Gosto da minha natureza reservada, do meu canto de leitura e meditação, de construções enigmáticas de poemas que ainda vão surgir daqui a dias, meses ou que simplesmente vão desaparecer esfregando e soltando letras sem sentido algum que dê sentido a eles. Gosto da solidão moderada, gosto de estar comigo e conversar comigo mesma e isso talvez me torne essa pessoa muito estranha. Difícil não explicar a liberdade que mora na minha necessidade de solidão. Gosto de escolher tecidos e pendurar roupas, mas não me sinto oprimida por isso. Quando ando borboletando pela minha sala, pouso na estante e sempre arranco sorrisos dos livros: pedaços, corpos inteiros, novos romances pra ler... 
                   Espero que ninguém, nenhuma fada madrinha tente algum dia me salvar ou me anular da minha tão íntima rotina. Por isso meus companheiros são meus filhos e um cachorro. O meu cachorro até senta para tomar café comigo, olha a lua da varanda e me ajuda a criar loucas elucubrações com latidos e afagos arabescos. Nesse instante somos os dois a própria falta de eternidade, aquele instante breve de ser nada. Adultos humanos são os mais difíceis de lidar, querem sempre explicar ou exigem explicação para tudo, para a mais mísera das bobagens. Não se conformam com "não sei", "esqueci" e "não me interessa". Minta, meu filho, é o que costumo dizer. Humanos adultos preferem os mentirosos aos autênticos, ou porque abandonam suas infâncias na primeira esquina de arrogância ou por conta da soberana soberba. 
            Então, sinto muito, mas não me explico mais e falo cada vez menos o desnecessário. Tem um vizinho que sempre me pergunta: por que seu cachorro late tão pouco? Eu minto: "ele é tímido".

Patricia Porto


sábado, 14 de junho de 2014

Sempre é Tempo.

© Victoria Baraga


Homem,
melhor botar sua barba de molho
antes que escorra da fruta a toda
linguagem da minha fome, a suculenta,   
em  fruta de pão, fruta solar, a que me farta o sonho,
a meio partida, aberta aos gomos,
a dividida aos pedaços para ser  
- a devorada, a desfeita, fruta da sexta,  
transformada em água doce e sal
na boca do mundo, a cheia.
Trans borda.
Transberra. 

Patrícia Porto




quinta-feira, 12 de junho de 2014

Por que somos Polianas?

           
     
Cabeça de Criança,  Gottfried Helnwein

                     Dia desses minha amiga Elaine me contou duas cenas que me impressionaram muito. Ela estava numa sorveteria de iogurtes numa esquina badalada da nossa cidade. Sorveteria de iogurte natural?  Sim, com muitas pessoas consumindo "o natural"... E na esquina, bem na curva, tem uma belíssima banca de flores. E mais bela seria se não fosse a logomarca gigante de uma operadora de cartão de crédito piscando para todos. O cenário é fácil e faz parte de muitas outras cidades onde as pessoas transitam e compram, compram e transitam, principalmente nas datas comercias. Dia disso, dia daquilo...
             E enquanto Elaine prosseguia tomando seu sorvete de iogurte muito calmamente, repito: calmamente... Porque Elaine é dessas raras pessoas calmas e risonhas, e das últimas que conheci nos últimos tempos. Para falar a verdade conheço poucas pessoas hoje que não saem de suas casas sem que comecem o dia berrando com o leiteiro, o sapateiro e o vendedor de bananas. E olha que essas profissões nem existem mais. São de um Rio Antigo, um tempo antigo. Mas eis que Elaine e o sorvete se derretiam com a paisagem da cidade quando uma loura Fausto-Fawcett,  uma“louraça belzebu provocante” entrou na sorveteria toda empinada. Nariz em pé, bunda em pé, tudo em pé dentro de sua roupa de ginástica da última moda. Lá onde eu nasci, lá no Tirirical, diríamos, arrochada, “arrochadinha” com sotaque. A moça entre 20 e 40 anos em suas roupas colantes de mulher gato pediu um sorvete por trás dos seus óculos escuros. Parecia irritada, impaciente com a demora de dois minutos do atendente: “que absurdo!” Olhou para o sorvete com cara de quem não lambeu e não gostou. E para o atendente com cara de “quem você pensa que é”, “veja com quem está falando”, “já se olhou no espelho hoje...” Esnobou a todos sem exceção e saiu apressada esvoaçando os cabelos, sorvete numa das mãos, na outra a chave de sua camionete estacionada na esquina. Entrou “roboticamente” no seu possante e olhou mais uma vez com ar de desprezo ou Botox (nunca saberemos) para a sorveteria.
            Não sendo nativa, Elaine, claro, estranhou. Tentou mudar de olhar e se fixou na banca de flores, afinal uma das belas paisagens poéticas do cotidiano das cidades. Sempre achei que os floristas deveriam ser isentos de impostos já que traziam a alegria das cores e o perfume da vida em meio ao concreto bruto, em meio a tanta gente embrutecida. Mas a máquina de cartão de crédito acabou de vez com esse meu pensamento pueril.
               Na cena descrita por minha amiga, a florista lançava espirros delicados de água nas flores... Tudo parecia singelo e delicado até que um rapaz saiu de seu “carrão” e se aproximou da florista como se quisesse contar um segredo. Era um rapagão forte, músculos bem definidos, a silhueta dizia o quanto ele tinha se esforçado para chegar àquela forma ou fôrma. E Elaine o observava enquanto terminava seu sorvete. Achou que ele parecia confuso, nervoso, roendo as unhas... Falou com a florista e depressa voltou para perto do carro... A florista fez suas escolhas e se concentrava no arranjo com os egípcios, aquelas pequenas florzinhas brancas. Não tinha pressa qualquer. O rapaz deu uma volta ao redor do carro, assoviou uma musiquinha, olhou o crescimento dos bíceps e tríceps no espelho retrovisor... E quando a florista mal terminava de enlaçar as flores, novamente se aproximou e fez uma "transação rápida": “passa pra cá.” Entregou o dinheiro também rapidamente e a florista ficou no ar... “O cartão!” Gritou. O rapaz já tinha corrido apressado para o outro lado da rua, aberto a porta do carro e jogado as flores  pra dentro em tempo recorde. “O cartão!” Gritava a florista. Ele acenou: “Esquece!” Sim, podemos nos consolar pensando: “Ah, talvez ele não soubesse escrever...” Simples assim.
                    Complexo do cotidiano. As cenas me interessaram e por isso resolvi registrá-las, não porque sejamos, eu e minha amiga as duas últimas Polianas do pacote, mas porque somos humanas, somos seres "humanas" que amam e que se preocupam com outros seres humanos, que se interessam por outros seres humanos e se entristecem, ficam desconcertadas, estarrecidas e até mesmo sofrem com outros seres humanos. E nós os humanos ainda somos seres gregários, biologicamente, culturalmente e todo o isolamento apenas comprova o quanto o individualismo nos faz mal, muito mal, esteticamente mal, eticamente mal. Assim como a pressa nos faz mal e como a fome de viver no shopping da adrenalina acelera não só o nosso bio-ritmo, mas também o nosso modo de viver as experiências, podendo até mesmo “apagá-las”, queimando etapas significativas de nossas vidas. As crianças querem ser adultas e os velhos não querem envelhecer.
           E parece mesmo que o consumo se tornou a mola mestra, a peça chave e a nossa paisagem mais bela. A nossa Garota de Ipanema só pensa em malhar e consumir albumina. E o corpo entra “nessa” montanha russa contraditória entre o culto e a saúde para virar objeto do desejo e do dejeto. O corpo é hoje explicitamente usado como fetiche, mercadoria. E olha que eu nem sou marxista. Mas me parece que Marx explica. Que Freud explica. Pois eles não só anteviram esse estado de coisas como também podem explicar o nosso tremendo mal estar, pelo menos explicam o meu e o de Elaine. E eu incluiria Baudelaire nessa lista da minha perplex-idade. Até porque os poetas conhecem muito do homem. E ser poético não exclui o ser político. 
             E se tudo é consumo e se tudo precisa ser consumido, devorado rapidamente, instantaneamente, o que nos sobra é a falta. Falta tempo, falta amor, falta alegria e falta porque se não estamos consumindo não estamos existindo e se não existimos não há tempo, não há amor, não há alegria. Talvez por isso o consumo de droga também tenha mudado e a juventude consuma cada vez mais e mais a cocaína da vida, pra ficar tudo cada vez mais rápido – e agressivo de preferência. Da mesma forma que desejam o mercado. E o consumo. E o mercado... Corpos abrutalhados e carros potentes que mascaram o nosso vazio e a nossa impotência diante da liquidez das relações. É preciso estar bombado, maquiado, botoxado, maquinificado, padronizado, fazer cara de mal, assustar os passantes com os símbolos da nova era. Antes falávamos até em “boa foda”, hoje é o “food se”, “eat me” e “fast”, please. O descartável. 
               Poéticas e patéticas, eu e Elaine suspiramos ao pensar nas flores...  E deu aquela nostalgia fora de época. Mas se hoje é uma vergonha comprar flores, se a pessoa se sente constrangida por fazer um elogio, por dar um abraço, por expressar um afeto que seja, o que esperar do amanhã? O florista será em breve como o leiteiro e o vendedor de bananas. E ainda gritarão com ele: “Saia do nosso caminho, precisamos passar com pressa com nossos carros e as nossas marcas!”
                 Diante dessas cenas cotidianas decidi não só escrever, mas decretar “pateticamente” que hoje será “o dia da flor”, como temos “o dia do abraço”, “o dia do beijo”, “ o dia do respeito”... Vou sair para "consumir" uma flor para mim mesma e também vou tirar um foto para guardar de lembrança, porque sei que ela não resistirá ao tempo fugaz. Comprarei uma para Elaine também em agradecimento pela nossa partilha e amizade, que é dessas coisas lentas... E vou torcer para que reencontremos na esquina da vida de um futuro-próximo aquele ser humano bem humorado, demorado na sua existência, evoluindo com novas texturas e com seus tolos encantamentos.



Patrícia Porto

terça-feira, 10 de junho de 2014

Meu amor,



Meu amor de vestígios, amor de hora, minuto,
esse gosto de suar na boca, 
Minha festa é tua, minha maré fluxa é tua,
minha flor aberta, meus sulcos, minha atmosfera,
essas águas, minha sorte ao avesso

Meu amor, minha sombra é tua, ao meu lado um cão,
minha dose Exu, minha criação, esse sopro de lucidez
Será?

Minha alma de devaneios,
minha poética, uma medida de veneno que cura e mata
Atrás de mim, dentro de mim teus elementos se unem
meus dedos dos pés se animam de língua e beijam

Ouvido molhado, minhas vestes queimadas de naus
Sou a armad-ilha pronta para o resto da tua vida incerta
nesse ócio de bacante

E curto como um curtume
A pele dura  de sal  

Patrícia Porto

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Memória


Maleonn


Memória

Essa ponte firme sobre o abismo
Com promessas de frutos sem dor
Não revelam as bandeiras escondidas
As bandeiras escondidas nos armários
Com os ossos de nossas ambições
Para onde vamos se a tal liberdade é tão racional?
Que tempo é esse, soldado?
Que cruzes são essas nas portas de nossas casas?
Andamos de antolhos por cima dessa ponte,
Máscaras demais para encenar, risos tortos, risos frios,
Cinismo, jogo, doença que mata de tão real
Freios para esses moços, freios para o tempo que come,
O tempo de morrer de inanição, a fome mundial, a fome
De sonho, de sentido, se vai significar ou não,
Se dobro esse papel em dois ou três...
Se pulo essa janela, enfim... Não resolvo?
Essa dor sobre o vazio, essa cruz sobre o abismo
Sou homem, mulher, sou mulher desse homem bravo, rude...
Sou a criança esquecida, o fruto esquecido, sou ela e sou você
Por que o sol ainda nos queima?
Passou uma nuvem, um nuvem carregada de tempos,
Velhos, moços, tempos, gomos de tempos, gérmens de tempos
Na Vila Militar há um desfile... um calor de subúrbio...
Levo minha bandeira, mas meu peito é pedra, sou toda memória

Patricia Porto

domingo, 8 de junho de 2014

Irreversíveis

 Francesca Woodman


Ah, o Amor...
Uma rua obscena, uma câmera escura
que cruza dois ou mais perdidos
sem mexer um fio de cabelo de seu objeto
na arrumação da cena que o oculta, explícita,
explicíto é o sexo, ob-servo

os inexoráveis na porta de entrada e saída

Feito a morte, em absurdo de domínio
sem qualquer controle é liberdade
Sempre em contra adição
- aguarda, coloca flores nos peitoris

PatPorto



sábado, 7 de junho de 2014

Apelo dramático


                                                                                  1907, Klimt, Gustav


Eram coisas como acúmulos e apegos
que de tantas matizes
senti-me declinada a contemplar meus vazios
e lancei

Ele não saberá desse meu drama
Eu bem fiz reminiscências nas garrafas que lancei
em acenos que lancei
em indiretas, diretas, bilhetes, angustias
que lancei

Ele não soube ou saberá desse vazio ao meio
Se ando para trás ou se cometo essas covardias
O apelo eu tatuei na encosta de um rio, uma costa
Gravei em hieróglifos, constelações
Traduzi em sonoras gargalhadas
Deixei até gastar num canto de passarinho

Foi perdendo a cor, ele não viu

O vazio foi crescendo desbotado
e eu ali naquele apelo pedindo, socorrendo-me,
uma estrelinha caiu, morta de muitos anos
e eu escrevi na areia de mar:
"vem que estou receptiva!"

Mas ele não viu nem sina de minha fumaça!
Mar veio e engoliu os sinais


Patrícia Porto





a moça e a flor






Um dia ela teceu de um gesto violento
a fragilidade de um poema-flor, uma poema-rosa,
um poema-cor-de-útero-vazio-e-cheio
Um dia ela pariu da aspereza um sopro-lúcido-louco-lancinante-
um delírio de um poema-chaga-dolorido-de-partos]
Um dia como o de hoje ela que era de existência frágil
depois de um tombo na curva do inferno escreveu
um poema-sangue-vinho-limpinho-sujinho-de-digitais
Falem baixo, por favor, silêncios...
Um poema intenso acabou de nascer
Podem olhar
[Estão abertos

Patrícia Porto

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Nessas horas pequenas




espiava por dentro
à minúcia
na imagem da imagem
na imagem: a mise
flores de árvores pequenas
flores adultas delicadas
istmo de partitura
sombras da melhor cama de deitar um nu

Com sua lente macroscópica de verdades
ampliava ao máximo as dúvidas sobre se eu era mesmo
a flor a rocha o poeta o vaso

e sempre me angulava em lupa
a incerteza do olhar
É você aqui nesta dobrinha de hora?

Nessas horas pequenas me fogem respostas.

Patrícia Porto

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ilha





Aporte. Meu corpo tem estreitos
esses cortes que se podem sentir com os pés
viagens manipuláveis
de dedilhados marítimos
e nós de marinheiros

Se sou ilha desvende
e aporte se sou pátria

se um porto, não me calcule
aporte

mas venha de braçadas
vencido da angustia de mar
me anuncie a chegada
em pouso e pausa de sons

me retiro em nome da espuma que te beija

Patricia Porto


Suspensos

2010, Joy GoldkindAdagio


Tanto Verde, Esse Tolo Sentimento de Fruta Ácida Caída
Meu Sujeito não Identificado quer os Gomos, 
Desejo Dúbio de Língua

E são tantos os Avisos de Não Entre

Não, não entre!

Mas meus Olhos Míopes, meus olhos de Castanhos
Velhos Camaradas, Velhos Obscenos
só Vêem entre o Vão e esse Fundo, Espelho
o Sim dos Teus Olhos
que de Tanto Verde imaturo me imPelem Correr
e o Mundo é Largo

Então eu Corro, Escorro, Inundo
em pensar que Retorno
JaMais

Patrícia Porto

Aos Esquisitos!

Helen Warner


(Para minha amiga Valeria Garcia Bastos e para mim, essas pessoas esquisitas)

Um Bravo esplêndido aos estranhos!
Salvem sim todos os esquisitos,
os que estão no fim da fila
entrando de novo sem a menor dissolução!
Ah, um intenso aplauso aos loucos de amor,
aos que cometem desvios, atalhos,
labirintos... aos dementes, aos sem juízo,
aos que atrasam as contas com a razão e o relógio,
os que procrastinam,
os que desviam,
os que desfiam!
Viva aos doidos e apaixonados!
Salvem os andarilhos,
os espantalhos,
essa toda gente in sana em corpos in sanos!
Palmas para os loucos varridos!
Para todos os varridos: Palmas!

Patrícia Porto

terça-feira, 3 de junho de 2014

Atonais


Anka Zhuravleva

Estou trabalhando com afinco na DES-PALAVRA
Quero antes a ARDENTE FALTA DE PALAVRA
Se me construo ou desconstruo nela
ao me DESPALAVRAR
me iludo de rupturas,
gasto minha língua,
esbanjo idiossincrasias,
lambuzo meu anti-verso num golpe de sílaba falha.
Darei de queimar os versos abusados,
arrancando o miolinho do acento, esse botão,
e sei que não viverei em paz
se o NADA é o que ME resta.

Patrícia Porto  

Os azuis

(Para Ana Lucia Kaminski)


Todos os dias ela regava os seus azuis

Doses absurdas de azuis
com aqueles olhos de madrugar 

Era tanta opulência de alma
que lhe dava gosto de Ser

Patrícia Porto

segunda-feira, 2 de junho de 2014

BREVE

©Alain Laboile

Pisar leve, Pluma
feito Plumagem de
Pássaro, um ser exótico
em extinção
Breve em insistências

Patrícia Porto

Do mar

© István Kerekes



Se meus barcos afundarem
O que fazer com tanto Mar?
Afogar minhas mágoas?
Afagar?

Patrícia Porto