sábado, 7 de junho de 2014

Apelo dramático


                                                                                  1907, Klimt, Gustav


Eram coisas como acúmulos e apegos
que de tantas matizes
senti-me declinada a contemplar meus vazios
e lancei

Ele não saberá desse meu drama
Eu bem fiz reminiscências nas garrafas que lancei
em acenos que lancei
em indiretas, diretas, bilhetes, angustias
que lancei

Ele não soube ou saberá desse vazio ao meio
Se ando para trás ou se cometo essas covardias
O apelo eu tatuei na encosta de um rio, uma costa
Gravei em hieróglifos, constelações
Traduzi em sonoras gargalhadas
Deixei até gastar num canto de passarinho

Foi perdendo a cor, ele não viu

O vazio foi crescendo desbotado
e eu ali naquele apelo pedindo, socorrendo-me,
uma estrelinha caiu, morta de muitos anos
e eu escrevi na areia de mar:
"vem que estou receptiva!"

Mas ele não viu nem sina de minha fumaça!
Mar veio e engoliu os sinais


Patrícia Porto





a moça e a flor






Um dia ela teceu de um gesto violento
a fragilidade de um poema-flor, uma poema-rosa,
um poema-cor-de-útero-vazio-e-cheio
Um dia ela pariu da aspereza um sopro-lúcido-louco-lancinante-
um delírio de um poema-chaga-dolorido-de-partos]
Um dia como o de hoje ela que era de existência frágil
depois de um tombo na curva do inferno escreveu
um poema-sangue-vinho-limpinho-sujinho-de-digitais
Falem baixo, por favor, silêncios...
Um poema intenso acabou de nascer
Podem olhar
[Estão abertos

Patrícia Porto

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Nessas horas pequenas




espiava por dentro
à minúcia
na imagem da imagem
na imagem: a mise
flores de árvores pequenas
flores adultas delicadas
istmo de partitura
sombras da melhor cama de deitar um nu

Com sua lente macroscópica de verdades
ampliava ao máximo as dúvidas sobre se eu era mesmo
a flor a rocha o poeta o vaso

e sempre me angulava em lupa
a incerteza do olhar
É você aqui nesta dobrinha de hora?

Nessas horas pequenas me fogem respostas.

Patrícia Porto

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ilha





Aporte. Meu corpo tem estreitos
esses cortes que se podem sentir com os pés
viagens manipuláveis
de dedilhados marítimos
e nós de marinheiros

Se sou ilha desvende
e aporte se sou pátria

se um porto, não me calcule
aporte

mas venha de braçadas
vencido da angustia de mar
me anuncie a chegada
em pouso e pausa de sons

me retiro em nome da espuma que te beija

Patricia Porto


Suspensos

2010, Joy GoldkindAdagio


Tanto Verde, Esse Tolo Sentimento de Fruta Ácida Caída
Meu Sujeito não Identificado quer os Gomos, 
Desejo Dúbio de Língua

E são tantos os Avisos de Não Entre

Não, não entre!

Mas meus Olhos Míopes, meus olhos de Castanhos
Velhos Camaradas, Velhos Obscenos
só Vêem entre o Vão e esse Fundo, Espelho
o Sim dos Teus Olhos
que de Tanto Verde imaturo me imPelem Correr
e o Mundo é Largo

Então eu Corro, Escorro, Inundo
em pensar que Retorno
JaMais

Patrícia Porto

Aos Esquisitos!

Helen Warner


(Para minha amiga Valeria Garcia Bastos e para mim, essas pessoas esquisitas)

Um Bravo esplêndido aos estranhos!
Salvem sim todos os esquisitos,
os que estão no fim da fila
entrando de novo sem a menor dissolução!
Ah, um intenso aplauso aos loucos de amor,
aos que cometem desvios, atalhos,
labirintos... aos dementes, aos sem juízo,
aos que atrasam as contas com a razão e o relógio,
os que procrastinam,
os que desviam,
os que desfiam!
Viva aos doidos e apaixonados!
Salvem os andarilhos,
os espantalhos,
essa toda gente in sana em corpos in sanos!
Palmas para os loucos varridos!
Para todos os varridos: Palmas!

Patrícia Porto

terça-feira, 3 de junho de 2014

Atonais


Anka Zhuravleva

Estou trabalhando com afinco na DES-PALAVRA
Quero antes a ARDENTE FALTA DE PALAVRA
Se me construo ou desconstruo nela
ao me DESPALAVRAR
me iludo de rupturas,
gasto minha língua,
esbanjo idiossincrasias,
lambuzo meu anti-verso num golpe de sílaba falha.
Darei de queimar os versos abusados,
arrancando o miolinho do acento, esse botão,
e sei que não viverei em paz
se o NADA é o que ME resta.

Patrícia Porto  

Os azuis

(Para Ana Lucia Kaminski)


Todos os dias ela regava os seus azuis

Doses absurdas de azuis
com aqueles olhos de madrugar 

Era tanta opulência de alma
que lhe dava gosto de Ser

Patrícia Porto

segunda-feira, 2 de junho de 2014

BREVE

©Alain Laboile

Pisar leve, Pluma
feito Plumagem de
Pássaro, um ser exótico
em extinção
Breve em insistências

Patrícia Porto

Do mar

© István Kerekes



Se meus barcos afundarem
O que fazer com tanto Mar?
Afogar minhas mágoas?
Afagar?

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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