quinta-feira, 29 de maio de 2014

Noites de Cabíria

Le notti di Cabiria,  Giulietta Masina e  Fellini, 1957


As insônias dos meus olhos
só querem dizer
que estou exausta de tanto anoitecer

Daqui pra frente vou amanhecer todos os dias,
talvez enforque umas segundas-feiras

Patrícia Porto

Monofásica


Harry Callahan



isso, assim vai, é uma coisa triste
essa coisa assim triste
quando a pessoa deixa de te amar
sem o teu consentimento

Patrícia Porto

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Presente

Sara Facio 1963

Levanto da cama, poesia me chama.
Não sei onde enfiei o raio dos óculos de direção.
Poesia se é o presente é um inferno, se troco letras, vai,
por inverno - parece mais bonitinho. Parecer não é ser.
Mas poesia me dança no umbigo, me gera insônia, fome,
assalto à geladeira. Quanto vazio!
Sim o da geladeira é sempre o existencial
e todo poeta tem a geladeira que merece.
Vai estudar, menina! Não estudou, viu?!
Geladeira, vida, vazio existencial e o presente pra burro!
Onde estão os óculos? O poema já se quer como fim passado à goma.
Chega de presente! Presente é o cão! O grito diabólico de dentro,
do rascunho sempre se borrando de medo.
Ah, os vencedores, esses não têm tempo para o medo,
medo é coisa de menininha descendo a ladeira.
É pesadelo de urina, terror de criança, floresta encantada de bruxas.
Pois sim, levanto, poesia me chama e eu sem saber onde colocar
esses olhos aqui, se vejo, me enxergo, não gosto. Prefiro vitrines.
Vitrines sim sabem anunciar as coisas que eu não sei do mundo.
São de vidro, parecem vistosas para sempre, carregam os transeuntes.
Eu por invalidez prefiro olhar de fora, meu dentro não dá conta do ausente
Presente. Com esse ar de blasé.  Essa estampa de vitrine.

Patrícia Porto

A fonte

Lucien Clergue 1965



Fonte mesmo não seca
na seca mesmo fonte é soberba
fere e até sangra no outro um forte
e farol fonte é emblema
boca aberta esperando
um bico, via bico
cai de boa sempre!
Inveja dá porque é coisa de borboleta e touro.
Só para os iniciados.

Patrícia Porto



sexta-feira, 23 de maio de 2014

Dois



Duas festas, dois irmãos, dois rios
São estrelas, estrelas nas mãos,
duas sentenças, dois acordos de mar e armadilhas...
são fogos e artifícios queimando, rompendo os vergalhões
Baía de São Sebastião, noite de lua, noite de viração
Dois viras, dois barcos, duas argolas, dois timoneiros sem direção
Derivas, docas, distopias, donos desse esteio marinho, vão, espumam...
Dois segredos, duas fontes, duas dores, duas noites para meu sangue
se desviar no teu... devagar, divagar é bom...dois trôpegos, dois assassinos
de ficção
Dois trens, uma bifurcação
Dois fatos, nenhuma verdade
Dois de duas doses de pretensão...
Dois, dublê de sonho, duplo sentido, dobrando o cabo,
harpando a rima, dando bobeira, vestindo ensaios
dois corações.

Patrícia Porto 

quarta-feira, 21 de maio de 2014

À flor



Eu e minha solidão
sabemos colecionar:
cartas não escritas
ideias dicotômicas.
Fotos rasgadas ao meio.

E sabemos ouvir
a música de capela nas paradoxais.
Claro, tem essas janelas, as tantas janelas,
e os vidrinhos de remédios,
os vidros quebrados, esses nossos fragmentos,
as notícias, os mundos para olhar
e comer feito um voraz voyer.

Amor de carne,
calcinha com mel,
telefonemas estranhos e banheiros ocupados,
vozesinhas absurdas...

Eu e minha solidão, nós duas,
sabemos colecionar
à pele
à unha
a flor...

Patricia Porto


sexta-feira, 16 de maio de 2014

à grega

Marilyn Cosho que tem síndrome de Asperger e criou "50 fadas de corda" desde 2005. 


Foi virando estátua
começou brincadeira
pernas, braços,
olhos
tudo congelado
petrificado
embrutecido
espasmos
no frio dorsal

uma estátua de dorso
coração talhado pedra
de elementos de areia

Uma menininha passou e perguntou a mãe:
"De quem é aquela estátua, mãe?"
Ela coçou o queixo, pensou...

"Não sei. Coloque uma moedinha."


Patrícia Porto

quinta-feira, 15 de maio de 2014



A nuca
Essa ruguinha no tempo
entre o cabelo
e o beijo

mecha a deixa
deixa entrar
a língua

no sub


Stephen Sandor Selpal, artista autista.

Encontrei uma forma muito inquieta de seguir viagem
vou de sublingual, amaciando de língua
hálito de saliva feito lamber a palavra
nem obscena, nem leviana
uma palavra amena
morninha e sem muito esforço

a palavra ENCANTO por exemplo

Saltos ornamentais


o

Marilyn Cosho, artista autista.


solto numa rua
feito um assobio
um aço, um fosco de metal,
na via escrita

o quê?!
qual o mistério que ronda a matéria?
que vestígio guarda o espírito da palavra
que incendeia esse inseto?

ah, solto na rua
o meu fantasma é o divino
um insulto odioso
ao gesto oficial
de toda existência
que ri por arbítrio

um engasgo, glup

qual o seu?
Ora, qual é o seu arbítrio?

Patrícia Porto

terça-feira, 13 de maio de 2014

"Vai ter Copa!" e "Isso Passa!"

 

           
                  Ética? Perdoe o (e)leitor, é que às vezes, por tolice, confundo, vislumbrando determinados contextos institucionais, a palavra ética com algum tipo de “ismo”. E dei pra confundir também a palavra amizade com compadrio, troca de favores e sofás. E a palavra família confundo com nepotismo e churrasco. E a palavra confiança com corporativismo ou fisiologismo. São resquícios talvez da minha ignorância prévia ou tardia. Mas é que tenho curiosidades estranhas por saber o porquê de eu ainda conseguir ficar perplexa quando me dou conta que brasileiro não vota mais? Brasileiro faz fezinha. E dá pra fazer outra coisa, meu irmão? "Votar" definitivamente não é a paixão nacional! E quando é sugerido "o pense antes de votar" aparece um coxinha, misto de almofadinha com fascista, que te xinga de radical, comuna, esquizoide. José Murilo de Carvalho fala bem sobre o exercício do pensamento como “instrumento” de muita utilidade, mas tantas vezes usado pra cair no vão da História.
                Outra questão. Cadê o pensamento?! Será que estamos ficando assim tão pobres em produção intelectual que não dá mais pra ver emergir algo de realmente pensado? Cabeça de político? Bunda de bebê? É qualquer coisa mesmo?
              Por que não assumir o lugar do risco de pensar? Da ousadia de falar o que pensa? Da tentativa criativa e estratégica de mostrar um ser que fica indignado, calcula sim, e pensa por si mesmo? Deixa o pensamento solto! Esse "ser-eu", singular e fraturado que planeja, projeta e que se desafia - sem o papelão ou papelote de ficar atrás da porta, da máscara social, da persona... Deixa fluir o pensamento!
                Na mitologia africana há um orixá que simboliza a mãe-guia das forças das tempestades, a guia que age segundo uma grande força que deixa à mostra as fraturas do terreno, da terra, que desfolha, desalinha tudo para trazer um novo tempo... Qualquer semelhança com o Caos? Pois é. O que estamos tentamos ocultar para não cuidar, olhar e compreender? Justiceiros, linchadores... São eles? Os outros?                      Sabemos que em ambientes hostis precisamos acionar velhas defesas e que para isso vamos desenvolvendo táticas, subterfúgios, cartografias de sobrevivência. E também tem aquele velho e "bem" gasto conformismo. E "conformismo" é uma palavra que às vezes confundo com fingimento, mas que está aí e pertence ao léxico dos que teimam em dizer: "deixa disso" e "isso passa". Porque tem o conformista e tem “gente que finge conformismo” para ritualizar a moeda de troca. "O próximo, por favor!" E tem um tipo de oportunista-conformista que finge ser coleguinha de todo mundo e é um tremendo hipócrita por convicção. Posso crer, inclusive, que esse tipo pode muito - tranquilamente - passar uma biografia inteira como um cínico-medíocre-mediano-conformista, se é que é possível ser tão traste assim. Sabe aquele jeitinho de ser... No caso do Brasil, o jeitinho é mais pra fazer. E a falsa regra da etiqueta é guardar entre os panos e colocar panos quentes onde der, limpar a cena do crime ou as fichas do crime. O Príncipe de Maquiavel sabia bem quais eram as regras da etiqueta. E da etiqueta mesmo passamos longe. De Medieval só a Barbárie.  
           É claro que eu leio os jornais, é claro que tenho acesso às páginas da Internet - do bom e do pior - e sei o que se passa na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil. De Cabral a Cabral nós sabemos que vamos mal, pra não deixar de usar esse trocadilho bobinho. E lá vamos nós caminhando às avessas. Excesso de roupas do Rei diria. Excesso de Reis. Mania de Colônia, complexo edipiano de matriz. Da que gruda na gente. Mas as informações nos chegam a todo o momento, quase que pelos poros, entram em nosso órgãos vitais até respirarmos bastante lixo midiático no automático e sensacionalista "tudo passa"... Não dá pra demonizar os que nos deixam mais burros e catatônicos, mas dá pra chamar de calhordas os políticos covardes que se espalham pelo país nesse sistema sócio-econômico cínico-medíocre-mediano-conformista “dos que levam vantagem em tudo”, nas instituições, nas redes de informação e sacanagem. E todo cuidado com o que respiramos de notícia é sempre pouco. 
          Mas aos cínicos de plantão podemos dizer que é possível guardar uma medida de crença, talvez fantasia, utopia de outros tempos, a mesma crença, utopia, ou miopia, que nos faz suportar a existência, o engasgo, e que nos faz também suportar um bocado de mazelas, seja na política, no congresso, nessa estrutura toda com metástase. E espero e devo crer que boa parcela da população brasileira quer mudanças definitivas e bem definidas. E tendo bastante esperança mesmo, quero acreditar que muita gente não vai compactuar com esse “fascismo” de ocasião. A gente acredita no Brasil e acredita como criança, apostando as fichas. Existem "fichas" ainda? Sim, peguem as limpas ali no final de tudo.
            E para não dizer que não falei das metralhadoras, há uns tempos atrás, numa escola pública onde trabalhei, nós, professores e alunos, fomos obrigados a fechar as portas por ordem do tráfico. Tente acertar. Alternativa A: notícia gasta sem qualquer efeito no receptor. Alternativa B: notícia velha que só serve para embrulhar peixe. Alternativa C: notícia renitente que não faz cócegas nos assentos de qualquer Parlamento.
        É... Sobre essa situação lembro que sofri um bocado, sensação de ficar no ponto zero ou morto, na desvalia, se é que me entendem. E para anestesiar minha parcela, no jogo do joão teimoso ou sem braço, lembro que fui de bolinha, placebo desses que no invólucro vem escrito que um dia “isso passa”. Afinal, zero a zero na Educação é uma desgraça.



Patrícia Porto

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Alfazema



Ela se desfolhava em alfazemas pela casa
Andava em seus pés de vassalagem
Aos pés de ninar o soldado
O soldado que nunca deixava sua guerra
e enfeitava a jardineira de antúrios

Cheias são de limão e alfazema

Raso, limpava os canos das armas
De costa para o tempo
Temperando ausências com sal 

Uma carta. De quem?
Um som grave estilhaçando a guerra.
Quietou-se o mundo

Emborcada seguiu viagem
Des-naturada
De costa para o vulto da casa




Duo

Gus Bundy, Smoke Creek Desert, Gerlach, Nevada, 1950’s


E aí chove por dentro e inunda
A gente pensa que é gente e é bicho
E esse outro quem é? 
Um clown que afoga mágoas com vinho barato
Ele sabe da minha roupa a nua (risos e mais risos),
ele tem essa caixa
e eu guardo esse serrote
A gente se olha pra estrada e há sombra,

A-ssombra...
Em qualquer lugar, essa gastura da palavra
Um mágico guardado na manga
um sopro na goela

Patrícia Porto

sábado, 10 de maio de 2014

Costela

Patricia Porto


Nessa condição de ser mulher
de ser mulher
a mãe é pelo outro
um avesso de nós
Quem foi o puto que inventou a condição?
A mãe é o avesso!
Devolução de costela é o verso!

Agora

Maya Barkai

Apenas esse cansaço nos pés
que a Terra não haverá de comer
Há de comer a Terra
meus dias, horas,
a infância, minha feminice,
todos, todos os en-cantos
ex-cantos, as bordas,
os cantinhos
o canto
canto

Patrícia Porto

sábado, 3 de maio de 2014

Vida insone na madrugada.


           Mais uma noite em claro por aqui, lendo as bizarrices dos jornais. Folha. Estadão. Globo. Posso de imediato concluir que mãe Dináh conseguiu um evento único. Trazer toda aquela ambientação, atmosfera Trash da TV dos anos noventa de volta pra cena midiática. Foi embora em grande estilo! A morte podem ter previsto pra ela. Confesso que eu já a tinha matado há alguns bons anos atrás (peguei essa mania da minha mãe) e fiquei foi surpresa de saber que ela estava viva. Agora não mais. A mãe Dináh era figurinha fácil nos programas da Luciana Gimenez, no Gugu e similares. Lembro que ela previu que o Plaza, em Niterói, ia cair, explodir, algum coisa assim... Todo mundo ficava desconfiado. É, "vimos duendes", santas que choravam sangue etc etc. A TV brasileira era mesmo aquela fábrica de fazer doido que Sérgio Porto (o jornalista) previa. Tia Zulmira bem sabe dessa história. 
            Outra notícia bizarra foi a de que o ator mexicano que interpretava o Chaves, que tem o apelido de Roberto Bolaños, foi declarado morto por um jornal, site, e teve que vir a público dizer que estava vivo e bem. “Gente, eu não morri.” Aí eu me senti como no filme italiano neo-realista do Maurizio Nichetti, passeando na "grade" da programação do SBT. "Não contavam com nossa astúcia..." 
             A terceira notícia seria trágica se não fosse mais trágica ainda. Às vésperas da Copa. “Eu te disse, eu te disse...” Uma privada matou um torcedor na saída de um estádio em Pernambuco. “Vai fazer merda assim lá no Brasil!” disse São Pedro naquela piada estúpida da criação do mundo.
             A quarta e última pra encerrar esse retorno aos sensacionalismos de ocasião. Sequestraram o Leão! O que é isso, companheiro?! Bem que podia ter sido com o do Imposto de Renda, o do meu digo – que não sonego e só tenho moedinhas de restituição. Mas não!, o bicho, meu Deus, não era um gatinho, era um tremendo de um gatão de 300 quilos que como 5 quilos de carne por dia. Saída pela direita?
              Não!!! Aécio Never. Vejam o exemplo de Niterói com Jorge Roberto Silveira. Cheirou o mandato inteiro e nós é que saímos esfolados "nesse caso de amor". 
              Pois é. Campanhas eleitorais comendo nas ruas e a Rede Globo pedindo - pelo amor de Ronaaaaaldo, o fenômeno do FEBEAPÁ de 2014, que a turma tupiniquim enfeite as ruas das cidades onde os jogos vão acontecer. Será que vai ter copa? Ah, esquecemos de perguntar pra Mãe Dináh. Tia Zulmira, eu sei, iria mandar esses meninos “caçarem algo melhor pra fazer”, acontecendo ou não copa, cozinha, banheiro, privada, privada ao alvo. 
                Foi mais difícil dormir depois dessas notícias na madrugada. Tive que ouvir Eduardo Dusek com “Nostradamus” pra me exorcizar: 
Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei
Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei
Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"
De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!
O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"

Barbárie

John Coplans – Lucienne, 1980


O relógio deixou a cidade fria

 Dando cordas

Comeu nossos olhos pequenos

comeu nossas pernas de andar

Manchas no tapete

não se limpam só com as mãos

Poemas foram acusados de transgressão
por obviedades clandestinas, alucinações vibrantes 

Marchas

 vão a gatilho
obscurantismo de engrenagens
desse maquinário
e monstruário
húmus
 humano


Patrícia Porto

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Nascimento de Vênus

“O nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli (1845)
    
"Conversa estranha com gente esquisita, eu não tô legal..." Aconteceu por duas vezes seguidas. A primeira foi perto do anúncio do fim do mundo, quando estranhamente resolvi me dar de presente um novo mapa astral. Sabe aquela lista de coisas que você faria se o mundo acabasse? Eu estava exercendo a minha de fato e pedi a uma pessoa,  reconhecida na área, que fizesse o meu mapa astral. O resultado disso? Passei mais de vinte anos acreditando que meu ascendente era “virgem” e não era. Como assim?! Claro que isso gerou um inusitado desconforto entre mim e a astróloga em questão, por sinal, maravilhosa pessoa.  “Me dá cá meu ascendente de volta! Que negócio é esse? Não tenho mais idade pra mudar de time nem de ascendente.”
Descobri - dessa maneira, um tanto pitoresca - o quanto nos apegamos às coisas, as mais incrédulas, as menos questionadas, creio. E nos apegamos a tudo e a todos com afinco e orgulho, nos apegamos à história, à racionalidade, às crenças, às banalidades, às quinquilharias, às coleções. Síntese bacana essa, a do ser humano: “apegar-se”. O desapego é um exercício de luta. Uma luta feroz pra muitos. Pra maioria, digo. Os que nascem em outra cultura e crescem longe, bem longe da poluição mercadológica, podem se desapegar com facilidade. Eu acho. Também nunca fui de outra cultura e lugar pra afirmar isso. O certo é que me apeguei tanto ao tal ascendente em virgem que não queria desistir dele por nada. Virgem, o ordeiro, centrado, minimalista, meticuloso, crítico sim, mas ponderado... Por aí vai...  E isso (acreditem) me dava certo conforto. Porque minha bagunça interna já era tão grande, que só um ascendente em virgem poderia me salvar da loucura total e generalizada. Imagina se eu tivesse um ascendente em escorpião?! Sairia por aí mordendo gente na rua!  Já me sentia culpada por ter nascido no mesmo dia em que nasceram Napoleão e  Mussolini. Pra que mais?  O fato é que detestei a nova constatação astrológica e cheguei a duvidar do mapa, e óbvio, dos métodos usados...
Foram minutos de um debate esquisito. E depois de cair de vez no “aqui e agora”, quando enfim percebi minha atitude ridícula, tudo isso acompanhado de uma xícara enorme de chá com florais, só poderia mesmo, finalmente, me conformar. Uma pessoa com ascendente em virgem, pé no chão, não iria tentar dissuadir a astróloga de seu achado profissional com argumentos paradoxais de teimosia. Tudo bem, tudo bem... Havia uma nova combinação no meu céu. Meu ascendente era libra. Mas foi por pouco, bateu na trave.
                Nada contra o signo de libra. Acho câncer, peixes e libra os signos mais fofos do zodíaco. Tenho amigos maravilhosos desses signos. Justificável, pois são pessoas de afeto e  “colo” extraordinários. Mas como eu poderia ter um ascendente em libra se nem pinto minhas unhas? Odeio pintar as unhas. Até porque levo menos de uma hora para destruí-las. Tudo o que eu ouvia falar de libra, de forma muito leiga, estava ligado à beleza, à leveza, ao bom gosto, a certo refinamento. Muito esquisito... A astróloga - canceriana, me apontou então alguns caminhos que seriam os ligados à arte,  à estética literária... Contou-me a seu modo o mito de Afrodite, a deusa do Amor. Nascer da força que espuma da delicadeza e da potência... 
                Com quantas certezas se constrói um barco ou um castelo? Fiquei com essa pergunta rondando minha nossa face psico-astrológica. Respondia: com a mesma, com a mesma. Mas se for um sonho? Uma criação? Uma mudança? Com quantas certezas? Muitas? Algumas? Nenhuma? De quanto tempo precisamos para nos desapegar de uma falsa certeza ou de uma verdade de ocasião? O caminho da verdade é a dialética. Aprendi nos livros e na vida. Só não tinha parado para entender o quanto custa  jogar qualquer verdade, a mais banal delas, para fora da alma. Não, não é somente na cabeça que as verdades são forjadas. Elas vão lá na tua alma e te possuem, talvez para o sempre. Olhei ao redor com medo de estar falando sozinha, tamanho o caos que me incendiava.  Afrodite me guiando numa nova temporada de incertezas e indefinições. Que bela espuma!
                Vi o quanto podemos ser rudes e austeros para manter uma convicção de cabeceira.  Mas também refleti sobre o desprendimento, das dores que causa: as pequenas, as variadas, as enormes, as de todos os tipos e sentimentos contraditórios: e as que invadem à nossa mente querendo fazer moradia fixa quando precisamos deixar algo ou  alguém partir. Voltar pra si mesmo, conviver com sua própria solidão, recolher-se para se reencontrar, pra re-significar o vivido, não é tarefa das mais divertidas. Vai uma anestesia aí?  Ah, uma onda morna, por favor.
         É preciso voltar para dentro, mas não é fácil. Lembra a minha avó falando: “mas quem te disse que ia ser fácil! Quer moleza? Senta no pudim!”  Mas bem que um pouco de fantasia e  mágica não fazem mal a ninguém. Nem de pudim também. Ao contrário. A fantasia tantas vezes nos salva dos choques da realidade... Acho mesmo que a resiliência, essa palavra da moda, deve ser um portal, uma conexão direta com a fantasia, com a capacidade criativa de viver paralelos, outros mundos; e magicamente. As crianças sabem. Todas elas já nascem resilientes, fora os olhos abertos. 
                Arrumada de novo, a nova era astrológica me fazia rir, mas uma vez sozinha. Rir de mim mesma, da minha auto piedade diante da inevitável perda. Era preciso dizer adeus à virgem, à Terra... E dizer olá à Vênus. Olá, Afrodite! Enamorei-me de libra com suas delicadezas tão sutis. Quem sabe um novo ser surja da espuma, mais leve, menos dramático e arrogante, menos solar e mais autêntico na sua ambiguidade.
                A segunda conversa esquisita foi com a psiquiatra. Mas essa eu desisti de contar no caminho, conquista de uma recente ética e estética de balança.           
                             
Patrícia Porto
              

Peito Aberto


Jussara Almstadter


Viu pelo espelho RETRO VISOR um cão perdido e solitário.
Não o levou para casa.
Não lhe deu abrigo ou sequer gesto de amparo.
Dobrou a esquina do LADO ESQUERDO em estado de horror, aberração, nudeza.
O cão dentro borrou a imagem. EM SIMULACRO
EM LACRE
LACRADOS
qual LADO?
NENHUM. PEITO ABERTO
comendo estrelas feito arame farpado

Patricia Porto

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Contos de F...

A fim de desencanar
dormiu durante anos
esperando beijos encarnados.
Um dia, acordada,
descobriu que havia casado
com um dos anões da Branca de Neve
: o zangado.
Foram F para sempre.

Patrícia Porto

Mulheres de Maio.

           
             
                  Gosto das frases feitas e dos clichês do uso coloquial da linguagem. São pensamentos comuns que tem como critério de autonomia a espontaneidade e o anonimato. Vão sendo costurados ao longo de camadas e camadas de gerações até aparecerem assim – dos vários nadas – dentro da nossa voz. A nossa voz que carrega tantas marcas coletivas geradas ao longo das permanências e das mudanças da língua. Pois uma língua viva é feita de mudanças e resistências. Não há palavra feita de voz que já não tenha sido dita um dia. O inaugural se perde. Por isso admiro os adágios e os lugares comuns da linguagem, porque colocam à deriva a nossa pretensão de exclusividade de pensamento e linguagem. Por vezes formulamos ideias e formas de dizer. Algo que nos incomoda, que fere, prejudica e não conseguimos comunicar ou somos prolixos, inexatos. Daí os  verbetes, as expressões, frases feitas, aquelas velhas sentenças populares que aparecem e transpassam da nossa voz a tal carga de intenções, imagens, estereótipos... E essas expressões podem até mesmo romper tabus, sintetizando a língua sem freios, uma beleza quase matemática.
                Costumo sair às ruas sempre com os ouvidos bem atentos para não perder o volume de frases soltas, libertas, esses frouxos da linguagem. E coleciono e uso nas minhas bricolagens. Registro não como fóssil da língua, mas como uma narrativa possível da língua. E foi assim, numa garimpagem de passado e presente comum, que fui registrando algumas frases surgidas em conversas informais entre mulheres que se queixavam da vida, coisa mais comum: “pois é, porque a pessoa só dá valor quando perde...” ; “em terra de sapo de cócoras com ele”; “dizem que a panela velha é que faz comida boa”; “mas gado gosta é de pasto novo”; “o galo devia jantar onde canta”; “o galo enche o peito, mas é a galinha que põe os ovos...”; “uma pessoa sem sonhos é como um pássaro de asas quebradas...”, “ele bem quer voar, mas não tem asas...”, “em pequena hora Deus melhora.”
             Ouvindo as frases daquelas mulheres lembrei-me de um poema que li ainda no meu tempo de menina a aprender das pedras. Era um belo poema de Cora Coralina sobre as faces da vida.

(...)
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo.
Aprendi a viver.

             A poesia de Cora Coralina viveu em tempos rudes. Não me lembro de ser uma mulher comum sem o rude exercício de aprender as lições da vida - ali! - cotidianamente - como uma casca feita e posta. E assim como disse uma daquelas mulheres, também tive meus dias de horas pequenas. Dias efêmeros dentro de outros longos e limitadores dias de pouca estima. Aprendi a viver? Inevitável aprender a viver e fazer da vida algo transformador quando se tem a pedra como lição e companhia. Com o passar dos anos e da convivência aprende-se muito sobre as pedras. Aprende-se sobre o afeto que nos foi negado, sobre as falhas do trajeto, sobre as desigualdades dos caminhos mais do que das origens. Aprende-se sobre a condição de ser, a situação de ser, de ser quando se está realmente sendo. E ser mulher, a mulher do dia, a mulher, diria Cora Coralina: “a minha irmãzinha”, requer a sabedoria das pedras. Preparar a vida do amanhã, aninhar no braço sonhos destruídos, abraçar causas desperdiçadas, amar os retalhos, sem aviso prévio ou solidão que seja bonita, requer um desdobramento do corpo e da alma.
                Eu também sei o que é sentir-se como um ser de asas de sonho adiado. E não daquele tipo que se acostuma porque é ruim com a gaiola e pior sem ela... Mas daquele tipo que não chia nem canta. Isso talvez seja das violências a que mais nos atinja, a violência silenciosa das grades suspensas com ajuda de nossas próprias mãos, a do desperdício do raro, a do silêncio instalado entre o jantar e as coisas sujas que se amontoam na pia. Ali no universo dos pequenos detalhes e das sutis delicadezas a alma de desdobrada pode tornar-se um vulto, uma sombra mera do que se é. Desvalorizada, desqualificada na sua existência, a mulher pode ser tragada nesta armadilha do cotidiano. Pode ser confundida com uma das mobílias da casa, deixada ao escanteio do que um dia pensou ser belo. Presa na torre que a confunde entre a espera e o desejo de mudança, a mulher que entende das pedras, precisa ter a audácia de roubar a chave do seu fiel carcereiro para enfrentar o dilúvio de sua liberdade. Porque tanta liberdade pode matar. Devagar e sempre.
              Livre como as palavras comuns, a mulher liberta de ser um novo modelo, uma grande expectativa ou o plano perfeito criado pelas mentes de seus carcereiros, corre o risco de se tornar a flor sedenta de sol, a flor teimosa que nasce vertiginosamente entre as pedras, até porque belíssimas flores também nascem de solos difíceis. Zelar pelos novos fios que nascem da vida, tecer mitologicamente a sua própria natureza recém-descoberta, fará dessa mulher a vasta existência entre tudo o que lhe foi negado de história e tudo que virá a ser o futuro do si mesma. A mulher que nasce dela mesma, entre a peleja e a beleza de sua esperança, corre um risco imenso de despertar numa plena incompletude feliz.

Patricia Porto