sábado, 3 de maio de 2014

Vida insone na madrugada.


           Mais uma noite em claro por aqui, lendo as bizarrices dos jornais. Folha. Estadão. Globo. Posso de imediato concluir que mãe Dináh conseguiu um evento único. Trazer toda aquela ambientação, atmosfera Trash da TV dos anos noventa de volta pra cena midiática. Foi embora em grande estilo! A morte podem ter previsto pra ela. Confesso que eu já a tinha matado há alguns bons anos atrás (peguei essa mania da minha mãe) e fiquei foi surpresa de saber que ela estava viva. Agora não mais. A mãe Dináh era figurinha fácil nos programas da Luciana Gimenez, no Gugu e similares. Lembro que ela previu que o Plaza, em Niterói, ia cair, explodir, algum coisa assim... Todo mundo ficava desconfiado. É, "vimos duendes", santas que choravam sangue etc etc. A TV brasileira era mesmo aquela fábrica de fazer doido que Sérgio Porto (o jornalista) previa. Tia Zulmira bem sabe dessa história. 
            Outra notícia bizarra foi a de que o ator mexicano que interpretava o Chaves, que tem o apelido de Roberto Bolaños, foi declarado morto por um jornal, site, e teve que vir a público dizer que estava vivo e bem. “Gente, eu não morri.” Aí eu me senti como no filme italiano neo-realista do Maurizio Nichetti, passeando na "grade" da programação do SBT. "Não contavam com nossa astúcia..." 
             A terceira notícia seria trágica se não fosse mais trágica ainda. Às vésperas da Copa. “Eu te disse, eu te disse...” Uma privada matou um torcedor na saída de um estádio em Pernambuco. “Vai fazer merda assim lá no Brasil!” disse São Pedro naquela piada estúpida da criação do mundo.
             A quarta e última pra encerrar esse retorno aos sensacionalismos de ocasião. Sequestraram o Leão! O que é isso, companheiro?! Bem que podia ter sido com o do Imposto de Renda, o do meu digo – que não sonego e só tenho moedinhas de restituição. Mas não!, o bicho, meu Deus, não era um gatinho, era um tremendo de um gatão de 300 quilos que como 5 quilos de carne por dia. Saída pela direita?
              Não!!! Aécio Never. Vejam o exemplo de Niterói com Jorge Roberto Silveira. Cheirou o mandato inteiro e nós é que saímos esfolados "nesse caso de amor". 
              Pois é. Campanhas eleitorais comendo nas ruas e a Rede Globo pedindo - pelo amor de Ronaaaaaldo, o fenômeno do FEBEAPÁ de 2014, que a turma tupiniquim enfeite as ruas das cidades onde os jogos vão acontecer. Será que vai ter copa? Ah, esquecemos de perguntar pra Mãe Dináh. Tia Zulmira, eu sei, iria mandar esses meninos “caçarem algo melhor pra fazer”, acontecendo ou não copa, cozinha, banheiro, privada, privada ao alvo. 
                Foi mais difícil dormir depois dessas notícias na madrugada. Tive que ouvir Eduardo Dusek com “Nostradamus” pra me exorcizar: 
Naquela manhã
Eu acordei tarde, de bode
Com tudo que sei
Acendi uma vela
Abri a janela
E pasmei
Alguns edifícios explodiam
Pessoas corriam
Eu disse bom dia
E ignorei
Telefonei
Pr'um toque tenha qualquer
E não tinha
Ninguém respondeu
Eu disse: "Deus, Nostradamus
Forças do bem e da maldade
Vudoo, calamidade, juízo final
Então és tu?"
De repente na minha frente
A esquadria de alumínio caiu
Junto com vidro fumê
O que fazer? Tudo ruiu
Começou tudo a carcomer
Gritei, ninguém ouviu
E olha que eu ainda fiz psiu!
O dia ficou noite
O sol foi pro além
Eu preciso de alguém
Vou até a cozinha
Encontro Carlota, a cozinheira, morta
Diante do meu pé, Zé
Eu falei, eu gritei, eu implorei:
"Levanta e serve um café
Que o mundo acabou!"

Barbárie

John Coplans – Lucienne, 1980


O relógio deixou a cidade fria

 Dando cordas

Comeu nossos olhos pequenos

comeu nossas pernas de andar

Manchas no tapete

não se limpam só com as mãos

Poemas foram acusados de transgressão
por obviedades clandestinas, alucinações vibrantes 

Marchas

 vão a gatilho
obscurantismo de engrenagens
desse maquinário
e monstruário
húmus
 humano


Patrícia Porto

sexta-feira, 2 de maio de 2014

O Nascimento de Vênus

“O nascimento da Vênus”, de Sandro Boticelli (1845)
    
"Conversa estranha com gente esquisita, eu não tô legal..." Aconteceu por duas vezes seguidas. A primeira foi perto do anúncio do fim do mundo, quando estranhamente resolvi me dar de presente um novo mapa astral. Sabe aquela lista de coisas que você faria se o mundo acabasse? Eu estava exercendo a minha de fato e pedi a uma pessoa,  reconhecida na área, que fizesse o meu mapa astral. O resultado disso? Passei mais de vinte anos acreditando que meu ascendente era “virgem” e não era. Como assim?! Claro que isso gerou um inusitado desconforto entre mim e a astróloga em questão, por sinal, maravilhosa pessoa.  “Me dá cá meu ascendente de volta! Que negócio é esse? Não tenho mais idade pra mudar de time nem de ascendente.”
Descobri - dessa maneira, um tanto pitoresca - o quanto nos apegamos às coisas, as mais incrédulas, as menos questionadas, creio. E nos apegamos a tudo e a todos com afinco e orgulho, nos apegamos à história, à racionalidade, às crenças, às banalidades, às quinquilharias, às coleções. Síntese bacana essa, a do ser humano: “apegar-se”. O desapego é um exercício de luta. Uma luta feroz pra muitos. Pra maioria, digo. Os que nascem em outra cultura e crescem longe, bem longe da poluição mercadológica, podem se desapegar com facilidade. Eu acho. Também nunca fui de outra cultura e lugar pra afirmar isso. O certo é que me apeguei tanto ao tal ascendente em virgem que não queria desistir dele por nada. Virgem, o ordeiro, centrado, minimalista, meticuloso, crítico sim, mas ponderado... Por aí vai...  E isso (acreditem) me dava certo conforto. Porque minha bagunça interna já era tão grande, que só um ascendente em virgem poderia me salvar da loucura total e generalizada. Imagina se eu tivesse um ascendente em escorpião?! Sairia por aí mordendo gente na rua!  Já me sentia culpada por ter nascido no mesmo dia em que nasceram Napoleão e  Mussolini. Pra que mais?  O fato é que detestei a nova constatação astrológica e cheguei a duvidar do mapa, e óbvio, dos métodos usados...
Foram minutos de um debate esquisito. E depois de cair de vez no “aqui e agora”, quando enfim percebi minha atitude ridícula, tudo isso acompanhado de uma xícara enorme de chá com florais, só poderia mesmo, finalmente, me conformar. Uma pessoa com ascendente em virgem, pé no chão, não iria tentar dissuadir a astróloga de seu achado profissional com argumentos paradoxais de teimosia. Tudo bem, tudo bem... Havia uma nova combinação no meu céu. Meu ascendente era libra. Mas foi por pouco, bateu na trave.
                Nada contra o signo de libra. Acho câncer, peixes e libra os signos mais fofos do zodíaco. Tenho amigos maravilhosos desses signos. Justificável, pois são pessoas de afeto e  “colo” extraordinários. Mas como eu poderia ter um ascendente em libra se nem pinto minhas unhas? Odeio pintar as unhas. Até porque levo menos de uma hora para destruí-las. Tudo o que eu ouvia falar de libra, de forma muito leiga, estava ligado à beleza, à leveza, ao bom gosto, a certo refinamento. Muito esquisito... A astróloga - canceriana, me apontou então alguns caminhos que seriam os ligados à arte,  à estética literária... Contou-me a seu modo o mito de Afrodite, a deusa do Amor. Nascer da força que espuma da delicadeza e da potência... 
                Com quantas certezas se constrói um barco ou um castelo? Fiquei com essa pergunta rondando minha nossa face psico-astrológica. Respondia: com a mesma, com a mesma. Mas se for um sonho? Uma criação? Uma mudança? Com quantas certezas? Muitas? Algumas? Nenhuma? De quanto tempo precisamos para nos desapegar de uma falsa certeza ou de uma verdade de ocasião? O caminho da verdade é a dialética. Aprendi nos livros e na vida. Só não tinha parado para entender o quanto custa  jogar qualquer verdade, a mais banal delas, para fora da alma. Não, não é somente na cabeça que as verdades são forjadas. Elas vão lá na tua alma e te possuem, talvez para o sempre. Olhei ao redor com medo de estar falando sozinha, tamanho o caos que me incendiava.  Afrodite me guiando numa nova temporada de incertezas e indefinições. Que bela espuma!
                Vi o quanto podemos ser rudes e austeros para manter uma convicção de cabeceira.  Mas também refleti sobre o desprendimento, das dores que causa: as pequenas, as variadas, as enormes, as de todos os tipos e sentimentos contraditórios: e as que invadem à nossa mente querendo fazer moradia fixa quando precisamos deixar algo ou  alguém partir. Voltar pra si mesmo, conviver com sua própria solidão, recolher-se para se reencontrar, pra re-significar o vivido, não é tarefa das mais divertidas. Vai uma anestesia aí?  Ah, uma onda morna, por favor.
         É preciso voltar para dentro, mas não é fácil. Lembra a minha avó falando: “mas quem te disse que ia ser fácil! Quer moleza? Senta no pudim!”  Mas bem que um pouco de fantasia e  mágica não fazem mal a ninguém. Nem de pudim também. Ao contrário. A fantasia tantas vezes nos salva dos choques da realidade... Acho mesmo que a resiliência, essa palavra da moda, deve ser um portal, uma conexão direta com a fantasia, com a capacidade criativa de viver paralelos, outros mundos; e magicamente. As crianças sabem. Todas elas já nascem resilientes, fora os olhos abertos. 
                Arrumada de novo, a nova era astrológica me fazia rir, mas uma vez sozinha. Rir de mim mesma, da minha auto piedade diante da inevitável perda. Era preciso dizer adeus à virgem, à Terra... E dizer olá à Vênus. Olá, Afrodite! Enamorei-me de libra com suas delicadezas tão sutis. Quem sabe um novo ser surja da espuma, mais leve, menos dramático e arrogante, menos solar e mais autêntico na sua ambiguidade.
                A segunda conversa esquisita foi com a psiquiatra. Mas essa eu desisti de contar no caminho, conquista de uma recente ética e estética de balança.           
                             
Patrícia Porto
              

Peito Aberto


Jussara Almstadter


Viu pelo espelho RETRO VISOR um cão perdido e solitário.
Não o levou para casa.
Não lhe deu abrigo ou sequer gesto de amparo.
Dobrou a esquina do LADO ESQUERDO em estado de horror, aberração, nudeza.
O cão dentro borrou a imagem. EM SIMULACRO
EM LACRE
LACRADOS
qual LADO?
NENHUM. PEITO ABERTO
comendo estrelas feito arame farpado

Patricia Porto

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Contos de F...

A fim de desencanar
dormiu durante anos
esperando beijos encarnados.
Um dia, acordada,
descobriu que havia casado
com um dos anões da Branca de Neve
: o zangado.
Foram F para sempre.

Patrícia Porto

Mulheres de Maio.

           
             
                  Gosto das frases feitas e dos clichês do uso coloquial da linguagem. São pensamentos comuns que tem como critério de autonomia a espontaneidade e o anonimato. Vão sendo costurados ao longo de camadas e camadas de gerações até aparecerem assim – dos vários nadas – dentro da nossa voz. A nossa voz que carrega tantas marcas coletivas geradas ao longo das permanências e das mudanças da língua. Pois uma língua viva é feita de mudanças e resistências. Não há palavra feita de voz que já não tenha sido dita um dia. O inaugural se perde. Por isso admiro os adágios e os lugares comuns da linguagem, porque colocam à deriva a nossa pretensão de exclusividade de pensamento e linguagem. Por vezes formulamos ideias e formas de dizer. Algo que nos incomoda, que fere, prejudica e não conseguimos comunicar ou somos prolixos, inexatos. Daí os  verbetes, as expressões, frases feitas, aquelas velhas sentenças populares que aparecem e transpassam da nossa voz a tal carga de intenções, imagens, estereótipos... E essas expressões podem até mesmo romper tabus, sintetizando a língua sem freios, uma beleza quase matemática.
                Costumo sair às ruas sempre com os ouvidos bem atentos para não perder o volume de frases soltas, libertas, esses frouxos da linguagem. E coleciono e uso nas minhas bricolagens. Registro não como fóssil da língua, mas como uma narrativa possível da língua. E foi assim, numa garimpagem de passado e presente comum, que fui registrando algumas frases surgidas em conversas informais entre mulheres que se queixavam da vida, coisa mais comum: “pois é, porque a pessoa só dá valor quando perde...” ; “em terra de sapo de cócoras com ele”; “dizem que a panela velha é que faz comida boa”; “mas gado gosta é de pasto novo”; “o galo devia jantar onde canta”; “o galo enche o peito, mas é a galinha que põe os ovos...”; “uma pessoa sem sonhos é como um pássaro de asas quebradas...”, “ele bem quer voar, mas não tem asas...”, “em pequena hora Deus melhora.”
             Ouvindo as frases daquelas mulheres lembrei-me de um poema que li ainda no meu tempo de menina a aprender das pedras. Era um belo poema de Cora Coralina sobre as faces da vida.

(...)
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo.
Aprendi a viver.

             A poesia de Cora Coralina viveu em tempos rudes. Não me lembro de ser uma mulher comum sem o rude exercício de aprender as lições da vida - ali! - cotidianamente - como uma casca feita e posta. E assim como disse uma daquelas mulheres, também tive meus dias de horas pequenas. Dias efêmeros dentro de outros longos e limitadores dias de pouca estima. Aprendi a viver? Inevitável aprender a viver e fazer da vida algo transformador quando se tem a pedra como lição e companhia. Com o passar dos anos e da convivência aprende-se muito sobre as pedras. Aprende-se sobre o afeto que nos foi negado, sobre as falhas do trajeto, sobre as desigualdades dos caminhos mais do que das origens. Aprende-se sobre a condição de ser, a situação de ser, de ser quando se está realmente sendo. E ser mulher, a mulher do dia, a mulher, diria Cora Coralina: “a minha irmãzinha”, requer a sabedoria das pedras. Preparar a vida do amanhã, aninhar no braço sonhos destruídos, abraçar causas desperdiçadas, amar os retalhos, sem aviso prévio ou solidão que seja bonita, requer um desdobramento do corpo e da alma.
                Eu também sei o que é sentir-se como um ser de asas de sonho adiado. E não daquele tipo que se acostuma porque é ruim com a gaiola e pior sem ela... Mas daquele tipo que não chia nem canta. Isso talvez seja das violências a que mais nos atinja, a violência silenciosa das grades suspensas com ajuda de nossas próprias mãos, a do desperdício do raro, a do silêncio instalado entre o jantar e as coisas sujas que se amontoam na pia. Ali no universo dos pequenos detalhes e das sutis delicadezas a alma de desdobrada pode tornar-se um vulto, uma sombra mera do que se é. Desvalorizada, desqualificada na sua existência, a mulher pode ser tragada nesta armadilha do cotidiano. Pode ser confundida com uma das mobílias da casa, deixada ao escanteio do que um dia pensou ser belo. Presa na torre que a confunde entre a espera e o desejo de mudança, a mulher que entende das pedras, precisa ter a audácia de roubar a chave do seu fiel carcereiro para enfrentar o dilúvio de sua liberdade. Porque tanta liberdade pode matar. Devagar e sempre.
              Livre como as palavras comuns, a mulher liberta de ser um novo modelo, uma grande expectativa ou o plano perfeito criado pelas mentes de seus carcereiros, corre o risco de se tornar a flor sedenta de sol, a flor teimosa que nasce vertiginosamente entre as pedras, até porque belíssimas flores também nascem de solos difíceis. Zelar pelos novos fios que nascem da vida, tecer mitologicamente a sua própria natureza recém-descoberta, fará dessa mulher a vasta existência entre tudo o que lhe foi negado de história e tudo que virá a ser o futuro do si mesma. A mulher que nasce dela mesma, entre a peleja e a beleza de sua esperança, corre um risco imenso de despertar numa plena incompletude feliz.

Patricia Porto

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Verso nenhum!

            Não se engane. Por trás dessa delicadeza mora um bicho selvagem que escreve com as unhas nas pedras e vai rompendo, se fartando das palavras como uma esfaimada suja do que diz - sem piedade, nenhuma decência.

Meninos não choram.

       

Emily L. Williams, artista autista.

                   

                        Por que faz tanto frio lá fora? Fora do círculo o fogo dissolve a aspereza das mãos. Perto do fogo o veto é desumano em degelo. Hoje me sentei ao lado de um menino, um menino negro, um menino que estava preso, mas que podia ir à escola, seu nome Maicon como o de um Rei que desvaneceu.  “Tráfico e roubo, mas tenho bom comportamento.” A professora deprimida mal conseguia lhe estender o olhar, presa no frio da sua própria navalha. Tudo é tão corte e a abate na esfera da educação pública no país. Os dois, lado a lado,  juntos aqueciam seus corpos num latão de lixo imaginário. Juntando melodramas de cinzas ao fogo. “Depressão, Síndrome do Pânico, Mania de perseguição, Raiva, mas me readapto bem.” "Pô, você é loucona!" (risos) 
         Como espíritos avulsos e sem reconhecimento, errantes nas sobras das ruas marginais. É possível ser marginal para além do marginal. Um preso. Uma louca. Somos tantos que até nos esquecemos de ser o outro.  Na sala de espera, preso e louca, ficamos por mais de quatro horas sem controle remoto para estancar o tempo, doía. A professora readaptada, o menino do reformatório, quatro horas e meia de espera. Mas somos loucos e presos... 
           Ela já vem. Ele já vem. A Polícia. A ambulância. A cura. A morte.   A máquina de  ocultar  nossos desaparecimentos, nossos cadáveres apolíticos.  Ninguém chegará para nos alimentar de sorte a solidão compartilhada. Mas um  ponto cego nos incomodava: _ se eu ficar, prometo cuidar de você. Um ponto cego nos animava o tédio: _ se eu ficar, prometo ser bom pra você. As mãos de Maicon eram longas demais para um menino. “Sabe, eu quero mudar de vida.” A frase se consolava na língua alheia, o sujeito no reflexo do borrado alheio. “Eu tenho medo que você fique, você é parte da minha doença. Mas eu também já não quero que você saia. Não consigo curar a dor que há em mim nem elevar a minha alma.”
           Quatro horas de séculos de fortuita tragédia nos unia em torno do fogo da boca do lixo. Tanto frio lá fora na imensidão dos homens adultos em torno de um punhado de poder. Homens pequenos como os de Papai Noel, homens e mulheres escrotas com capa de juridição para uso de pequeno e podre poder... 
Pude sentir a tristeza da espera do menino: “Acho que não vão me aceitar”. Ele pressentiu a minha: “Acho que não não vão me readaptar.”  Sentados ao avesso, vagando invisíveis pelas celas, salas, corredores de pedra. Tantas pedras nas mãos para atirar. Tanta raiva. Tanta dor de raiva pra tirar, crostas nas mãos, calos de ódio.
           “Vocês ficam e podem ir!” Uma voz avisava do alto de nossas deficiências privadas. "Segunda-feira!" Mais um berro e o corpo da professora se assustou no corpo do menino preso. 
Atravessamos o corredor. Dizem que há uma luz para todos que atravessam. Não a vi, talvez tenham desligado, falha de interruptor. Meu casaco era pouco para o frio da rua daquela nova saída. Apenas a mão de Maicon sobre meu ombro parecia acesa, quente, humana. Sem palavras, sem corpo de signo, apenas a mão dos nossos flagelos.
             Sem sal de olhar sigo o caminho em outra vasta direção. Um cachorro magro me acompanha, posso sentir sua fome quente queimando o osso do meu calcanhar. E já me sinto de novo amparada, um gesto quente. Presos, loucos e cachorros de rua se assemelham. 


Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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