quarta-feira, 30 de abril de 2014

Verso nenhum!

            Não se engane. Por trás dessa delicadeza mora um bicho selvagem que escreve com as unhas nas pedras e vai rompendo, se fartando das palavras como uma esfaimada suja do que diz - sem piedade, nenhuma decência.

Meninos não choram.

       

Emily L. Williams, artista autista.

                   

                        Por que faz tanto frio lá fora? Fora do círculo o fogo dissolve a aspereza das mãos. Perto do fogo o veto é desumano em degelo. Hoje me sentei ao lado de um menino, um menino negro, um menino que estava preso, mas que podia ir à escola, seu nome Maicon como o de um Rei que desvaneceu.  “Tráfico e roubo, mas tenho bom comportamento.” A professora deprimida mal conseguia lhe estender o olhar, presa no frio da sua própria navalha. Tudo é tão corte e a abate na esfera da educação pública no país. Os dois, lado a lado,  juntos aqueciam seus corpos num latão de lixo imaginário. Juntando melodramas de cinzas ao fogo. “Depressão, Síndrome do Pânico, Mania de perseguição, Raiva, mas me readapto bem.” "Pô, você é loucona!" (risos) 
         Como espíritos avulsos e sem reconhecimento, errantes nas sobras das ruas marginais. É possível ser marginal para além do marginal. Um preso. Uma louca. Somos tantos que até nos esquecemos de ser o outro.  Na sala de espera, preso e louca, ficamos por mais de quatro horas sem controle remoto para estancar o tempo, doía. A professora readaptada, o menino do reformatório, quatro horas e meia de espera. Mas somos loucos e presos... 
           Ela já vem. Ele já vem. A Polícia. A ambulância. A cura. A morte.   A máquina de  ocultar  nossos desaparecimentos, nossos cadáveres apolíticos.  Ninguém chegará para nos alimentar de sorte a solidão compartilhada. Mas um  ponto cego nos incomodava: _ se eu ficar, prometo cuidar de você. Um ponto cego nos animava o tédio: _ se eu ficar, prometo ser bom pra você. As mãos de Maicon eram longas demais para um menino. “Sabe, eu quero mudar de vida.” A frase se consolava na língua alheia, o sujeito no reflexo do borrado alheio. “Eu tenho medo que você fique, você é parte da minha doença. Mas eu também já não quero que você saia. Não consigo curar a dor que há em mim nem elevar a minha alma.”
           Quatro horas de séculos de fortuita tragédia nos unia em torno do fogo da boca do lixo. Tanto frio lá fora na imensidão dos homens adultos em torno de um punhado de poder. Homens pequenos como os de Papai Noel, homens e mulheres escrotas com capa de juridição para uso de pequeno e podre poder... 
Pude sentir a tristeza da espera do menino: “Acho que não vão me aceitar”. Ele pressentiu a minha: “Acho que não não vão me readaptar.”  Sentados ao avesso, vagando invisíveis pelas celas, salas, corredores de pedra. Tantas pedras nas mãos para atirar. Tanta raiva. Tanta dor de raiva pra tirar, crostas nas mãos, calos de ódio.
           “Vocês ficam e podem ir!” Uma voz avisava do alto de nossas deficiências privadas. "Segunda-feira!" Mais um berro e o corpo da professora se assustou no corpo do menino preso. 
Atravessamos o corredor. Dizem que há uma luz para todos que atravessam. Não a vi, talvez tenham desligado, falha de interruptor. Meu casaco era pouco para o frio da rua daquela nova saída. Apenas a mão de Maicon sobre meu ombro parecia acesa, quente, humana. Sem palavras, sem corpo de signo, apenas a mão dos nossos flagelos.
             Sem sal de olhar sigo o caminho em outra vasta direção. Um cachorro magro me acompanha, posso sentir sua fome quente queimando o osso do meu calcanhar. E já me sinto de novo amparada, um gesto quente. Presos, loucos e cachorros de rua se assemelham. 


Patrícia Porto

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Rádio de pilha.

             
                 Eu precisava comprar pilhas, mas havia muita pressa nas ruas... E o asfalto queimava a minha sola de pé. Muita pressa nos olhos, e nenhuma lágrima indiscreta. Muita pressa no sangue, escaldando no solo de asfalto, um sangue pardo... Corpos empilhados na horizontal e minhas pilhas do outro lado da rua no meu consumo diário de energia. Muita pressa nos autos, nos baixos, nos sinais eletrizados, muita pressa de sentir, muita pressa de matar a hora matinal... a hora marginal. Na margem do asfalto fervendo o solo para bailarinos loucos que vivem de lentidão como as frágeis margaridas, o incunábulo.  Os viadutos com pressa, a vida chapada, o teto escuro com pressa... Pressa de dizer que o melhor é partir, pressa de escrever nomes novos nos corpos e trocar os nomes e os corpos por outros corpos e nomes. Pressa de comer. Tudo so fast. Pressa de festa, festa de viver no instantâneo, no miojo da vida o calabouço, a cloaca, o colapso, o conluio, a cocaína, a trapaça, a cidadela desconstruída... A traça, o troço, a masturbação, o ego, o universo, o rádio, um rádio de pilha sem pilhas porque agora jazz é morto, jazz está estirado no asfalto queimando em ondas de ferver meus pés. 

Pat Porto


quarta-feira, 23 de abril de 2014

LIVRO DE POEMAS E CRÔNICAS: "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos" da Poeta, Cronista e Ensaísta Patrícia Porto


Neste "Diário de Viagens para Espantalhos e Andarilhos", a autora apresenta Poemas e Crônicas escritas ativamente no seu weblog desde 2007. Patricia Porto, poeta, professora, cronista e ensaísta, mais uma vez nos leva a questionar a vida, a nossa cultura, o cotidiano, as relações humanas, os enfrentamentos sociais e existenciais.

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domingo, 20 de abril de 2014

Animatopia

 Ekaterina Panikanova 

Porque era um corpo de imagens,
uma ciência fugaz, como a vida,
carregava sonhos e sopros que não cabiam fora de si
Do si mesmo inventou a solidão,
Do si mesmo deu para falar
e entender uma nova linguagem,
a dos corpos não-domesticáveis
no corpo nu da poesia, uma cicatriz propositada. 
Um corpo que se dobra à curvatura do espaço e tempo
que deu para saltar com os pés
as dobras do tempo, um labirinto.
Deu para ser o tempo dobrado sobre seu corpo.
Na solidão fabricada de novas memórias, seu desafio:
conhecer a anatomia desse novo animal
curvando-se ao espaço.
Amar esse animal
e deixar-se avistar por Ele.


Patrícia Porto



Estou seduzido.
As pernas bobas e inseguras , seguram o meu desequilíbrio e ousadia.
Morrer desse amor impensado ou viver em plena agonia.
Gosto da tua coragem na espera.
Da tua fé em mudanças, bem me faz.
Gosto, mais ainda, dessa meta metamorfose.
Uma espera não resignada.
Uma certeza impossível
Um ''q'' de verdade nesse lúdico espelho.
Aparelho do disfarce.
Daria minha morte para vê-lo.


EDUARDOCAETANO


            Esta espetacular capacidade que o ser humano tem de se reinventar, torna infinitos os caminhos buscados. A vida vai nos burilando, moldando, desfazendo..A vida é cruel. Aí, aprendemos o truque. Não podemos com o inimigo...então, nos unimos a ele. E é esta unidade, este sair de si que permite renascermos em tantas, conforme a toada do caminho. Alma desdobrável, que ninguém se engane...encerra a fera tediosa de uma existência banal. Pombinha indefesa e a pantera indomável coexistem no coração de cada mulher.Por que, frágeis, somos fortes em tudo que nos propusermos a realizar. Não tememos os abismos, espantamos a tristeza e afugentamos a vassouradas, se preciso for, o que não nos faz feliz, o que engessa sentimento, a feroz solidão. Repelimos tudo que tenta calar nossa voz. Nossa voz é amor...isto incomoda. E aí, quando conseguimos colocar em versos em quantas nos desdobramos, sempre buscando o sentido de todas as coisas,é tudo uma festa. Esta festa, Patricia Porto, para a qual seu verso sempre nos convida, nos permitindo o fascínio de nos reconhecermos em muitos e diferentes espelhos.É quando resgatamos o sentido. Belo, intimista, inquietante poema...por isto mesmo, sedutor....você, Patricia. Beijos, querida amiga.

JUSSARA MARINHO

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Querido papai.

Ekaterina Panikanova


É brincadeira de esconde e esconde? O coelho assopra.
Dizem que foi papai que não fechou a janela direito,
por isso o frio entrou tão fundo, estranho em mim.
Sou criança ainda, não sei dizer que não quero, papai,
essas suas bombas no meu jardim... 
Vou atrasar esse trem como ordenou. Atrasar o destino.
Meia volta e volver. Papai não é tão veloz!
Mas é tão feroz!
Vou compor esta canção de esqueletos,
de versos encabulados de despedidas,
bonecos encapuzados no armário...
Vou de asas alongadas nessa viagem que cruzo, e faço sozinha,
tão solzinho nesta folha solta de me descolorir.


Patrícia Porto

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Encantadora de Vestígios.



sal, areia, saudade inunda de amor a bacia de óleos quentes,
saudade de ser pedra, vigília de sono ao teu lado.
Então abro essas asas de poeira
e me envio tão extraviada pelo céu e mar de meu sonho secular,
essa serpente no dorso.
Um cheiro bom de gerânios, a malva-de-cheiros,
taça de vinho um seco, pão de cortar com as mãos...
Corpo em exercícios de encantarias, se abastecendo de desertos.
Mundo cheio de sumo e seiva de vida que se aquece no peito, o desnudo,
e acende um pavio. Acesa ilumino a estrada e a pausa por onde passas,
sem ter notícias minhas.
Condenada a amanhecer
colho os ventos de areia,
atravessada de cravos.
Retrato. Mulher dos cravos.
Medusa da alma.
A Pedra e o amor.

Patrícia Porto



segunda-feira, 14 de abril de 2014

UM DIA DE LOBA



UM DIA DE LOBA

          Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o tal estalo? Logo aquela pessoa que também amava tanto os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes mentais. Quem são os verdadeiros doentes mentais? Ainda há tempos e templos históricos a nos dizer quem são os deuses. E infelizmente muitos “lucram” com isso, uma indústria inteira sustenta suas pernas na banalização do sintoma e do estigma. E ainda na falta de semelhança com o espelho habita o clichê que compara pessoas aos cães e aos lobos pela raiva. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra, o avesso. Um extinto?  
              Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta. Nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho um enigma, o Lobo, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 
           Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível -  imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande. E para onde vai Dionisio? Matamos o corpo em prol do cérebro? Anulamos, interditamos, aniquilamos, maltratamos, esquartejamos o corpo em suplício em praça pública como aquilo que deve ser temido, destruído, escondido, inconfessado, acossado... Como o corpo de Polinices , banido, usurpado, símbolo de negação, exclusão, como os corpos desaparecidos dos filhos das Mães de Maio, das mães das favelas cariocas, as mães do México, as novas Antígonas.  
          Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta. Apenas o silêncio e o odor da morte.
             No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, as nossas angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha.      
                Gente muito “boazinha”, sempre boazinha, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida.  Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.
           O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo, colocar as mãos nas camadas.    


Patrícia Porto
    


                     Amiga, senta aqui...puxe uma cadeira, vamos prosear, como se diz na minha terra.Quer um cafezinho? Fiz bolinho de chuva, ainda agora. Ou prefere uma cervejinha...você gosta? Talvez um bom vinho e queijos. Mas, se acomode. Vamos falar desta beleza de crônica que você escreveu. Estou aqui, cismando, como a vida, a despeito de tantos desencantos, pode ser generosa. Você é um verdadeiro presente que a existência nos oferta. Sua escrita grandiosa nos leva a viagens e mergulhos ao mais profundo do nosso ser. Sua inspiração sem paralelo desconhece territórios inabitáveis. Sua escrita é Amplidão. Sua alma vasculha, esmiúça e nos apresenta vastas possibilidades de entender a vida. Seu profundo conhecimento da psiquê humana revela o espírito analítico, preciso em desnudar os vãos, os escuros da nossa alma. E com que excelência você vai discorrendo sobre as complicações do viver. Contraventora, nada contra a corrente, não aceita atalhos, desdenha da resignação...Você Conclama! Também estou aqui cismando se seus leitores não acabarão se tornando seguidores...consequência inevitável na trajetória dos notáveis.Você se coloca no alto do trapézio, indiferente se tem uma rede segura a amparar sua queda. Você busca a queda, pois que ressurge melhor , mais forte e mais sábia de cada uma. Nesta belíssima e rica crônica, percebo a escritora, a professora, a mulher...a criança que ainda não desistiu de entender. Sua alma tem sede, seus passos são mais largos, seu olhar é o infinito. Você questiona questões cruciais que todos carregam no peito. Não se lê Patricia Porto impunemente. Falemos da raiva, do ressentimento que inauguram seu texto. Hipocrisia quem nega não ter seus silêncios magoados, um (talvez mais) ressentimento inundando os olhos de sombras. E estes sentimentos vão se incorporando à nossa história, à medida que avançamos, na existência. A vida molda, fere, rasga,ruge, as pessoas são imperfeitas, contraditórias (daí a beleza de cada um) e as colisões são inevitáveis. Mas, quando nos percebemos também falhos e passíveis de errar, nosso olhar, para com o outro, é mais generoso. Os tempos modernos nos ofertam fórmulas garantidoras da Vida doer menos...basta tomar aquela pílula, aquele remédio direitinho....Aí, fica fácil. Basta desistir de viver e ligar o piloto automático. Perfeito. Tudo muito clean, asséptico, sem quaisquer emoções, uma vida sem paixão, nem dor. Mas, isto é vida? Ou sobrevida? Ora, mas onde a beleza da caminhada? A existência dói, e muito...há que se ser valente! Existe sempre a opção de deixar a amargura esquentar lugar...ou buscar viver com paixão, intensa paixão. O caminho, porém, que resgata o sentido é o da Coragem. As respostas chegam, as coisas acontecem. No tempo que tem que ser. Voltando ao ressentimento, exigimos tanto do outro, lamentamos a decepção, o descuido, o silêncio. Aí, a coisa fica meio complicada. Tudo sempre vai depender do grau evolutivo de cada um. Mas, isto não significa fim de linha...se estivermos abertos a aprender. Enquanto digito, este imponente e belíssimo lobo que você colocou para ilustrar seu texto, não tira os olhos de mim. Seus olhos falam de Poder. Este, que nos permite alterar posturas e mudar trajetórias. Falam, também, que a salvação está na Liberdade. Mesmo com o coração sangrando, a lágrima morrendo salgada nos lábios, a alma precisa correr, livre, pelas campinas, sinalizando que as respostas estão ao longo do caminho. Que não calemos a Loba que habita em nós. Ela é a nossa maior verdade, nosso brilho nos olhos, nossa capacidade de amar. Perdoe-me o texto extenso, Patricia Porto. Sou prolixa, sem remédio. Consigo a concisão, mas sob tortura. Show, minha amiga. Como sempre. Beijos.



Jussara Marinho



terça-feira, 8 de abril de 2014

Tempo de desarmar as minas



O tempo passa e é passarada.
Os poros,a nova pele,
não dorme a derme.
O tempo é e são meus pelos crescidos.
Tenho pelos brancos que me crescem em novidade,
mas minha natureza é velha.

Água mole em pedra dura
o tempo é o medonho e o poroso.
A pororoca dos dedos,
só toca em gente antiga
e não dá conta do Amor todo encharcado.
Sem echarpe, meu Amor só sabe do charco, é tempo sujinho.
Tem chagas no corpo de punções da Alma  
Deu pra beber águas de chá balsâmico.
Dizem que endoidece de leve, morosamente,
                                       mas se me lembro

ele já era doidinho o errado. 
Tempo doído lá fora.
Aqui dentro? Só desarmamos as minas.

Patrícia Porto

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A do espelho.


Este ser que me habita
é quase um estranho.
Um animal de carnes,
paixões em extinção.
Calcula,
multiplica,
dá veneno do seu batom
e se crucifica
na própria vida
diminuindo, auto-engolida.
Pouco imprecisa
se avalia.
Ronda espaços,
quartos, famílias,
sempre indecisa.
Não conhece os diâmetros
de seu tempo,
ou as circunferências
da sua solidão.
Pouco sentida,
segue alimentando espinhos
em vastidão.
E eu já nem me conheço
no espelho e no eco
que ela me reconhece.
E eu desejo
A do espelho.

Patrícia Porto

Desejo



Não sabia que a alegria tinha um nome
até aprender pronunciá-la na língua...
A língua que me alimenta as imagens,
que me preserva e magoa quando não me quer.
Não sabia que a alegria tinha esse rosto, uma face,
até vislumbrar no seus olhos
a beleza caótica e poética
das ruas e das estrelas: Isso era então Poesia! Maior!
Ah, não quero ornamentos, apenas o inescapável, a antes lógica!
Aquilo que é do sentimento da linguagem. Densa, bruta, dinâmica,
perdido o hímen do lácio.
Nua em riste. Absurda.


Patrícia Porto