quarta-feira, 2 de abril de 2014

A do espelho.


Este ser que me habita
é quase um estranho.
Um animal de carnes,
paixões em extinção.
Calcula,
multiplica,
dá veneno do seu batom
e se crucifica
na própria vida
diminuindo, auto-engolida.
Pouco imprecisa
se avalia.
Ronda espaços,
quartos, famílias,
sempre indecisa.
Não conhece os diâmetros
de seu tempo,
ou as circunferências
da sua solidão.
Pouco sentida,
segue alimentando espinhos
em vastidão.
E eu já nem me conheço
no espelho e no eco
que ela me reconhece.
E eu desejo
A do espelho.

Patrícia Porto

Desejo



Não sabia que a alegria tinha um nome
até aprender pronunciá-la na língua...
A língua que me alimenta as imagens,
que me preserva e magoa quando não me quer.
Não sabia que a alegria tinha esse rosto, uma face,
até vislumbrar no seus olhos
a beleza caótica e poética
das ruas e das estrelas: Isso era então Poesia! Maior!
Ah, não quero ornamentos, apenas o inescapável, a antes lógica!
Aquilo que é do sentimento da linguagem. Densa, bruta, dinâmica,
perdido o hímen do lácio.
Nua em riste. Absurda.


Patrícia Porto

domingo, 30 de março de 2014

Sobre mergulhos e escafandros: quando acordei ao lado de Frida.


Frida Khalo

        Frida Kahlo um dia disse sobre si mesma: "'Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.'' 
        Algumas pessoas nascem tão somente para os mergulhos. E os abandonos podem causar vazios abissais. A dor é imensa porque parece que estão realmente levando as nossas pernas, os nossos pés, o nosso chão. E se pode sentir num primeiro momento, pela falta de território, que será uma via crucis longa e dolorosa conseguir de novo: levantar, caminhar, encarar o mundo; o mesmo mundo que nem sempre foi e será receptivo e tolerante às suas perdas, às suas dores. E Frida Kahlo perguntava algo assim: "para que pés se posso voar?" 
           Sim, o luto pode insistir ou precisar demorar e suas asas e pés podem parecer engessados por dias, meses, anos até... Por isso a Paciência é a ciência dos que nascem para os mergulhos. Porque alguns mergulhos podem ter como único instrumento de sobrevivência o escafandro. E para se continuar vivendo será preciso aprender a respirar através de uma armadura. Uma tarefa complexa. Porque se ficou pesado demais ou porque podemos nos tornar a nossa própria arma-dura. 
           Quando eu era criança, por incrível que pareça, a dor do abandono, da perda - eu a sentia menor, talvez porque o caminho a frente fosse feito do largo, de um mundo enorme, desconhecido. Medo? Havia, mas ele se dissolvia facilmente em bolhas de fantasia e sabão. A diferença na forma de lidar com os abandonos de agora, o abandono do Estado, o abandono dos seus direitos, da sua dignidade humana num país que violenta a educação popular de crianças e mestres, que violenta a mulher e as minorias, me causa mais angustia. E hoje tudo dói mais. A alma é como o corpo, aprendi que ela envelhece - de pro-pó-si-to - para viver determinadas dores. Se você sofre uma lesão sendo mais velho, tudo é mais difícil. É... E para curar leva mais tempo - caramba!, mas aí você já não tem tanto tempo! É bem capaz de querer sofrer duas vezes, por antecipação e determinação. Precisa então de mais pomada para os machucados, de maior atenção com a cura, de mais carinho consigo mesmo e com sua nova lentidão de curar a si mesmo. A cicatriz, essa, certamente vai ficar mais feia, até porque sua pele já não tem ou terá mais a mesma elasticidade. E será seu espírito que precisará reaprender a negociar dia a dia com a vida e com a criança de dentro, a que guarda o segredo silencioso da elasticidade. Para quê? Para poder perdoar, para poder seguir em frente. A boa esperança, a notícia bem-vinda, é saber que vai passar - e que passa mesmo! Com ou sem o meu, o seu, o nosso consentimento. Mas haja mergulho para as correntezas!

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog