domingo, 30 de março de 2014

Sobre mergulhos e escafandros: quando acordei ao lado de Frida.


Frida Khalo

        Frida Kahlo um dia disse sobre si mesma: "'Algum tempo atrás, talvez uns dias, eu era uma moça caminhando por um mundo de cores, com formas claras e tangíveis. Tudo era misterioso e havia algo oculto; adivinhar-lhe a natureza era um jogo para mim. Se você soubesse como é terrível obter o conhecimento de repente - como um relâmpago iluminando a Terra! Agora, vivo num planeta dolorido, transparente como gelo. É como se houvesse aprendido tudo de uma vez, numa questão de segundos. Minhas amigas e colegas tornaram-se mulheres lentamente. Eu envelheci em instantes e agora tudo está embotado e plano. Sei que não há nada escondido; se houvesse, eu veria.'' 
        Algumas pessoas nascem tão somente para os mergulhos e os abandonos podem causar vazios abissais. A dor é imensa porque parece que estão realmente levando as nossas pernas, os nossos pés, o nosso chão. E se pode sentir num primeiro momento, pela falta de território, que será uma via crucis longa e dolorosa conseguir de novo: levantar, caminhar, encarar o mundo; o mesmo mundo que nem sempre foi e será receptivo e tolerante às suas perdas, às suas dores. E Frida Kahlo perguntava algo assim: "para que pés se posso voar?" 
           Sim, o luto pode insistir demais ou precisar demorar e suas asas e pés podem parecer engessados por dias, meses, anos até... Por isso a Paciência é a ciência dos que nascem para os mergulhos. Porque alguns mergulhos podem ter como único instrumento de sobrevivência o escafandro. E para se continuar vivendo será preciso aprender a respirar através de uma armadura. Uma tarefa complexa. Porque se ficou pesado demais ou porque podemos nos tornar a nossa própria arma-dura. 
           Quando eu era criança, por incrível que pareça, a dor do abandono, da perda - eu a sentia menor, talvez porque o caminho a frente fosse feito do largo, de um mundo enorme, desconhecido. Medo? Havia, mas ele se dissolvia facilmente em bolhas de fantasia e sabão. A diferença na forma de lidar com os abandonos de agora, o abandono do Estado, o abandono dos seus direitos, da sua dignidade humana num país que violenta a educação popular de crianças e mestres, que violenta a mulher e as minorias, me causa mais angustia. E hoje tudo dói mais. A alma é como o corpo, aprendi que ela envelhece - de pro-pó-si-to - para viver determinadas dores. Se você sofre uma lesão sendo mais velho, tudo é mais difícil. É... E para curar leva mais tempo - caramba!, mas aí você já não tem tanto tempo! É bem capaz de querer sofrer duas vezes, por antecipação e determinação. Precisa então de mais pomada para os machucados, de maior atenção com a cura, de mais carinho consigo mesmo e com sua nova lentidão de curar a si mesmo. A cicatriz, essa, certamente vai ficar mais feia, até porque sua pele já não tem ou terá mais a mesma elasticidade. E será seu espírito que precisará reaprender a negociar dia a dia com a vida e com a criança de dentro, a que guarda o segredo silencioso da elasticidade. Para quê? Para poder perdoar, para poder seguir em frente. A boa esperança, a notícia bem-vinda, é saber que vai passar - e que passa mesmo! Com ou sem o meu, o seu, o nosso consentimento. Mas haja mergulho para as correntezas!

Patricia Porto

sexta-feira, 28 de março de 2014

Todas as estações com Portinari



O verão
O verão, uma incógnita.
Um barulho de mar, de concha, de areia nas mãos,
abrigo de castelos temporários.
No céu uns Vermelhos, Laranjas, Amarelos...
Uma sede de gastar o tempo,
uma vontade do inútil no corpo.
Quando tudo é corpo aberto a alma pede passagem,
"deixa eu transpassar essa verdade", diz a alma querendo o corpo.
Mas se o corpo quer só a dança, olhos circulam sem paradeiro.
São lentes ampliadas, ampliando o Sol, ainda maior na sua grandeza.
As crianças veem o mundo, doce a sensação, ácida a estação.
O verão se ausenta antes que se compreenda o todo.
Vai de férias viver profundamente a si mesmo,
pulando corpo desengonçado por sobre a linguagem.

Outono para papagaios
O poste, a ponte, o fio
A vida e o fio.
O filho quer ciranda
e o menino vem correndo
atrás das figuras geométricas,
hemisféricas, planetárias.
Metradas raias em raios de cores,
petrificados os homens crescem
abandonando o menino, não por coragem.
Saudades do menino. Um fio de memória.
Por onde, por onde o rio, onde a sede,
o viço sem dentes se foi?
Tantos papagaios saúdam o novo menino!
Chegou mais um papagaio! E vem o mundo de voltas
e gira o tempo de dentro em flor cedendo.
O tempo escorrido... o tempo acalmado,
branda luz que abraça a correnteza
e a atravessa.

A primavera dos Palhaços
Paisagens ancoradas
nas janelas do mundo:
fruta boa, furta a sorte do apego, o ferrugem.
Desapego palavras: livro, estante, música,
Física das palavras, de óculos olhando pra nós.
Sou capaz de voar pela palavra,
somos todos, todos centelhas, imagens,
origem e germinação constante de frutos.
Jardim onde os poetas deixam mensagens,
os poetas jardineiros,
os disfarçados de pássaros,
alimentando as boquinhas dos pequenos filhotes,
tão frágeis, tão frágil a Poesia, a vida, a criancice,
que a palavra soluço acena sem dar chance de adeus
ou de saudade.

Inverno para garatujas
Eis que invento um novo modelo de espera.
O da chuva. Chuva de inverno, geladinha.
Quando eu era criança. Faz muito, muito tempo.
Mesmo que pareça ontem.
Eu tinha mania de adivinhações do tempo.
E eu me colocava em posição de contar os pingos da chuva.
Mas eram tantos, como estrelas aos milhares
que os meus dedos se perdiam na contagem.
Dava verrugas, verrugas que nascem de tanto contar,
de tanto a gente se contar.
Então eu desenhava a chuva por dentro,
pingos imensos em garatujas,
pingos felizes como meninos plantando bananeiras.

Patricia Porto

quarta-feira, 26 de março de 2014

O verão

Portinari

O verão, uma incógnita.
Um barulho de mar, de concha, de areia nas mãos,
abrigo de castelos temporários.
No céu uns Vermelhos, Laranjas, Amarelos...
Uma sede de gastar o tempo,
uma vontade do inútil no corpo.
Quando tudo é corpo aberto a alma pede passagem,
"deixa eu transpassar essa verdade", diz a alma querendo o corpo.
Mas se o corpo quer só a dança, olhos circulam sem paradeiro.
São lentes ampliadas, ampliando o Sol, ainda maior na sua grandeza.
As crianças veem o mundo, doce a sensação, ácida a estação.
O verão se ausenta antes que se compreenda o todo.  
Vai de férias viver profundamente a si mesmo,
pulando corpo desengonçado por sobre a linguagem.

Patrícia Porto     

terça-feira, 25 de março de 2014

A primavera dos Palhaços

Portinari


Paisagens ancoradas
nas janelas do mundo:
fruta boa, furta a sorte do apego, o ferrugem.
Desapego palavras: livro, estante, música,
Física das palavras, de óculos olhando pra nós.
Sou capaz de voar pela palavra,
somos todos, todos centelhas, imagens,
origem e germinação constante de frutos.
Jardim onde os poetas deixam mensagens,
os poetas jardineiros,
os disfarçados de pássaros,
alimentando as boquinhas dos pequenos filhotes,
tão frágeis, tão frágil a Poesia, a vida, a criancice, 
que a palavra soluço acena sem dar chance de adeus
ou de saudade.


Patrícia Porto   

segunda-feira, 24 de março de 2014

Inverno para garatujas


Cândido Portinari

Eis que invento um novo modelo de espera.
O da chuva. Chuva de inverno, geladinha.
Quando eu era criança. Faz muito, muito tempo.
Mesmo que pareça ontem.
Eu tinha mania de adivinhações do tempo.
E eu me colocava em posição de contar os pingos da chuva.
Mas eram tantos, como estrelas aos milhares
que os meus dedos se perdiam na contagem.
Dava verrugas, verrugas que nascem de tanto contar,
de tanto a gente se contar. 
Então eu desenhava a chuva por dentro,
pingos imensos em garatujas,
pingos felizes como meninos plantando bananeiras.

Patrícia Porto

sexta-feira, 21 de março de 2014

Outono para papagaios

Cândido Portinari

O poste, a ponte, o fio
A vida e o fio.
O filho quer ciranda
e o menino vem correndo
atrás das figuras geométricas,
hemisféricas, planetárias.
Metradas raias em raios de cores,
petrificados  os homens crescem
abandonando o menino, não por coragem.
Saudades do menino.  Um fio de memória.
Por onde, por onde o rio, onde a sede,
o viço sem dentes se foi?
Tantos papagaios saúdam o novo menino!
Chegou mais um papagaio! E vem o mundo de voltas
e gira o tempo de dentro em flor cedendo.
O tempo escorrido... o tempo acalmado,
branda luz que abraça a correnteza
e a atravessa.

Patrícia Porto

quarta-feira, 19 de março de 2014

Todos somos Cláudia.

Cláudia, Marcelo Mesquita 

Por que o céu é azul e a notícia nos trai?
  
Por que há o lobo do homem? O lobo na porta de trás?

Eu tive um sonho. Um sonho de pão.

E por qual fatia de abandono se reinventa esse sonho?

Nosso sonho vivo está nesta cabeceira da mesa?

Um sopro na nunca, um soco no peito, um sonho arrastado,

um dia de trevas, sinistros.

"Eu também sou vítima de sonhos adiados, de esperanças dilaceradas..."

Mas meu Anjo da guarda caiu, vítima de objeto perfurante.

Sonhos adiados, morte dilacerada, pão e corpo,
vida estendida no asfalto, no chão das esperanças adiadas.

Um sonho, um sonho de criança. Um sonho de identidade. 

     E o pão, mamãe, por que demora? 


"O Haiti é aqui."
Caetano e Gil  

sexta-feira, 14 de março de 2014

FORA DE ÂNGULO

Ozias Filho

aonde o amor espera
eu ponho um ponto
- uma exclamação de dúvida
inesperada.
Carrego feito a vida
a dor da morte prenhe.
E solto aonde o amor desperta
a minha demora.


Patrícia Porto

quinta-feira, 13 de março de 2014

Visceral?

Guernica, Pablo Picasso


Olhe bem pra mim. Assim é bem melhor.
Não pulo. Veja.
O escuro não dura tanto. Eu juro. Mas eu minto.
Enquanto penduram Estrelas no céu
eu me escondo de ombros.
Não durmo. Não acordo.
O verde das ruas são de cor de oliva.
Eu morava numa vila militar.
Você sabe como é viver nas ruas dos quartéis?
Era com pá-pá-pá-pá-pá-pá.
Minhas vísceras sabem. Tremiam.
Com o tempo se aprende a usar coturnos para se defender das paredes.
As dunas e os corpos são grãos de poeira. Visceral não é cósmico.
E eu faço poesia para não morrer de Metáforas e Meteoros.
Minha palavra não é curta, mas sempre um esboço de desejo pétreo,
procuro bandeiras em mastros de dor nua para me autoflagelar. Mas sofro de cinismos.
Não grito e não amordaço. Não podemos gritar as crianças desse campo.
O dia perdura, coloco meu manto no mastro
com medo da santa de farda, ela é a força da rua  sempre por um fio.
E tudo começa e tudo termina sem risos. Papai não deixa cuspir no chão.
Tudo rompeia silêncios, trancadas as vísceras num caixote,
sol dados tão rasos
esperando na curva uma pedra úmida de amolar.


Patrícia Porto

quarta-feira, 12 de março de 2014

COMOSE


Olhos de David

A poesia 
entre a maior e a menor redondilha,
entre o axioma e o enigma,
entre a esgrima e a falta de pão.
O nada vestido de oblíqua coesão
de tudo - comoção.
Bendita, oh, maldita!
Maquinista de um trem
assombrado de outros, anacronista.
Comose. Como ser?

Patrícia Porto 

  

terça-feira, 11 de março de 2014

RESGUARDO

 


O ar silencia infinitos
e os olhos não se definem
da dor que os absorve -  tão dentro de si.
Resguardo corações que calam,
buscando palavras
necessariamente proveitosas
para continuarem unidos
nessa amizade
de flores e pedras,
de medos e esperas,
de caminhada
e fins inexistentes.

Patrícia Porto

segunda-feira, 10 de março de 2014

aNas janelas...

Hanna Seweryn

AnaFlor
Florvioleta
Rosa cor
Rosa som
Rosa simplex
Vida dor
Dó e nó
Vida não
Se assemelha
A sementeira
Daninha

Terra sim
Florvideira
Rosa com
Via-láctea
Rosa sem
Arma-duras
Ama sim

Nanaflor
violetas
Rompe
enfim
Violenta
Represa
em palavras

Livre sim
AnaFlor
Vi-as-letras
Nas janelas
Que me olhei
escrevendo
Lilases


Patrícia Porto

Maria Judite


Jussara Almstadter


MARIA JUDITE

Nó...
Trago os teus chinelos
como Cândida.
Não sei se apago a luz.
Não sei se acendo a vela.
Talvez eu deixe o corpo
dessa língua dura, rude, grossa
à cruz
à queima.

Pega cá, os teus chinelos!


Patricia Porto

Sem Ar


Ozias Filho

Se de dia
em mim morres,
uma vontade seca, surda de palavra,
tranco no quarto
a mil chaves
o traço mal feito
no papel que sobra
da rigidez do espaço.
É tempo?
Escorre, me sangra, se desata.

Colo mosaicos anêmicos,
soltos na arte
sempre menor, minúscula,
a previsível e reveladora
do meu sem-lugar.



Patrícia Porto

quinta-feira, 6 de março de 2014

Patrícia Porto, em 12 de fevereiro de 2014, em apresentação no evento "Um Brinde à Poesia Nit" de Lucília Dowslley.


Publicação by Espetacular.



Vou escrevendo
no lugar do amor as nódoas,
selecionando reticências,
às vezes abreviando as horas em hi-atos quase perfeitos.
Se me dessem novamente a chance de nascer,
certamente eu voltaria em forma de onda
ou vento
sem mais véus entre mim e o sagrado futuro
das quedas.

Seria então a verdade refluxa nos mares,
desceria os montes para
as águas pacíficas,
os mares de Açores,
mares mediterrâneos,
mares de trânsito em São Mateus
um porto insólito...

E seria do vento a voz
a correr sem ordem,
a dar de comer 
o corpo da vida
pelos corredores frios
das cidades acesas .

E vento e mar
ao me sentir, enfim, o chegado estrangeiro
perceberia ele então minha mensagem
E ao me adentrar
perceberia ele então minha miragem
E ao me deixar
ou molhar as pontas visíveis
ou o invisível do mergulho
ou me calar
– e me colocar sempre muda –
nas pedras – quiçá -
de tão estranhos enigmas,
eu me quebrando,
quebrando toda na areia
...
perceberia então o encanto do vosso silêncio
e a candura da vossa passagem
sentindo a fundo a solidão comungada dos pássaros.

Assim quebrante
de alma e viagem
lá onde reina
a vossa insemelhante beleza,
vosso amor de encarnados
de naturezas,
eu, vento e mar, onda e areia,
tomada do corpo estrangeiro
diria:

só lamento a incompletude
na inabilidade de criar-vos, meu próprio Deus.

Patrícia Porto