quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

MARIA FUMAÇA

Vaga-lumes que roubei pra mim.


(Homenagem ao dia que deixei de me levar a sério)

Quem tem medo de assombração
pega trem não.
Quem tem medo de assombração
não pega bonde nem avião,
porque Maria se é fumaça
trem moderno não tem coração.
Melhor que se cante a outra, 
se dance a próxima estação,
porque eu, benzinho, não tenho mais,
não prezo mais medo de assombração.


P.Porto

A Ditadura da Felicidade por Patricia Porto

"Sinal". Fotografia ganhadora do World Press Photo 
Autor: John Stanmayer.


Crônica escrita em 2010, mas bem poderia ter sido ontem.

            Hoje o difícil é encontrar alguém que tenha tempo para viver uma tristezinha qualquer. Se você a tiver, melhor esconder para não dar uma de bobo ou de sujeito desatualizado. “Nunca fomos tão felizes” era uma chamada de uma revista na banca desses últimos dias. E em sintonia com a revista, o novo censo concordava: realmente “nunca fomos tão felizes”, sorrisos e mais sorrisos fazem parte agora de uma nova contabilidade. O seu Moacir é feliz porque conseguiu um emprego, a dona Judite conseguiu enfim comprar a sua tão sonhada máquina de lavar, a dentista Cristina conseguiu montar seu próprio consultório; e outros tantos exemplos seguindo a mesma fórmula: conseguiu comprar o carro, a casa, eletrodomésticos, reformar o escritório... E se torna então interessante tentar compreender como é que se dá essa difícil ou fácil equação capaz de mensurar a felicidade de e no “indivíduo” , já que ela muda radicalmente de pessoa a pessoa. Como comparar a geladeira com o emprego? Tenho até uma hipótese: a felicidade é a materialização de um desejo concreto, por mais que ele pareça estúpido. Não digo que a geladeira e o fogão não sejam desejos legítimos, mas puxando a sardinha para a pergunta que não quer calar: o que é então essa tal felicidade? Onde a encontramos? Pode a felicidade ser traduzida em meia dúzia de eletrodomésticos comprados no Geraldão Eletros? O que o consumo tem a ver com essa onda de felicidade do “nunca fomos tão felizes”?
                Outra revelação. Segundo o novo censo, nunca fomos tão sozinhos. É outra questão a ser pensada. Sozinhos e mais felizes, vocês entendem? Será esse o elixir da felicidade? Segundo o mesmo censo também nunca fomos tão gordos e nunca tivemos tantas chances de desenvolver doenças cardiovasculares, as que mais matam no mundo. Na sequencia, as análises apontam que nunca estivemos tão estressados e que atualmente tomamos bem mais ansiolíticos e antidepressivos que em todos os tempos. Sozinhos, felizes – e fofos! Estressados - com doenças psicossomáticas, dependências químicas e emocionais! Mas felizes, pô!

E somos felizes porque consumimos mais: carros, celulares – que só faltam dar tapinhas nas costas, roupas de marca, bugigangas, penduricalhos, móveis de design moderno, comida, gordura, muita gordura. Estamos gordos de tanto consumir, porque consumimos pela endorfina, pra ficarmos bem ligadões. Academia e comida, comida e distúrbio alimentar. Depois, vem a ansiedade, a abstinência, o suor noturno, o medo noturno, a paranóia. E só mesmo um shopping, daquele tipo cidade na redoma, pra dar sossego ao clamor visceral da felicidade viciante. Não à toa consumimos mais bebidas alcoólicas, mais energéticos e mais drogas. Consumimos por consumir, e se é pra comprar - que se compre da boa - que é pra mostrar pros amigos, pros manos - que a felicidade é de responsa! Nunca estivemos tão chapados, mas não naquela nostalgia de paz e amor, todos numa mesma utopia... O nosso novo consumo é daqueles pra cada um ficar na sua, trancado no seu pequeno mundo com o nariz pra cima; é droga pra individuo curtir na dele. E se rolar uma agressividade o lance pode até ficar melhor. A agressividade - essa pode ser dividida com os outros em novas formas de relação: bater nuns mendigos, nuns moleques afeminados, botar fogo nuns otários. Cara, maior felicidade!
            Felizes, sozinhos, gordos, estressados, violentos... Nunca fomos tão vazios. Nossa felicidade mesma é de um vazio avassalador. E a felicidade sem ser clandestina é ansiosa, competitiva, autoritária, castradora... Outro dia testemunhei o diálogo entre duas amigas:

“__ Você precisa parar de sofrer. Sua mãe se foi, está melhor que todos nós. (Adoro essa.) Levanta essa cabeça e vamos reagir! Bola pra frente! O Jogo continua!”

           Perguntei a moça chorosa há quanto tempo sua mãe tinha morrido, ela tentando engolir as lágrimas disse: “ __ dois meses...” 
          Pobre moça que não pode sequer sofrer em paz, não pode chorar nem esgotar seu luto no tempo que é seu. Precisa seguir em frente, jogando a bola pra cima e a dor da perda pra debaixo do tapete. Nossos tapetes são hoje uma nação misturada entre ácaros e todas as tristezas que não nos permitem revelar. Tristeza, luto, dor, perda é coisa de gente pra baixo, baixíssimo astral. “Nem convida a Maria porque ela acabou de se separar, vai estragar nosso momento light.” “A Jane também não, tem aquele filho doente...” “Ah, o Jaime é depressão pura, poeta, cheio das sensibilidades, cruzes! Não chama, não chama!”
        A academia de ginástica é o paraíso da nova era de glamour à felicidade. Corpos felizes, presumo, mesmo que os aparelhos de produzir beleza lembrem mais instrumentos de tortura medieval. Vem aquele sujeito fortão e diz “ponha mais peso nisso”! Quanto mais peso melhor, “desce tudo pras pernas” como dizia a minha avó. De frente vemos um deus grego, e falando, ouvimos os grunhidos de um parente próximo ao Neardenthal. Tenho uma teoria sobre excesso de peso e falta de neurônios, mas fica para a próxima. Não sei se alguém reparou, mas nas academias têm sempre aquela música bem agitada e uns vídeos com aquelas cantoras americanas peladas que cantam músicas sem o menor nexo sobre sexo. Felicidade da pura!
      E claro, não deixaremos de citar as pessoas célebres da nossa atual e contagiante felicidade. As celebridades!, de preferência as instantâneas, que povoam manchetes e mentes com seus sorrisos e bundas – não necessariamente nessa ordem. Felizes, elas e eles, todos “fofíssimos” aparecem em festas de debutantes, chá de velhinhas, desfile de moda B, inauguração de churrascaria e farmácia, despedida de solteiro... E podemos perguntar: por que tão interessantes? Porque é a máxima do nosso tempo. Do mundo do botox, da não expressão - ao mundo da vida privada ou da privada da vida.
         Uma pessoa recebe a triste notícia que a mãe está doente, câncer de mama, doença delicada. Fica paralisada de dor e resolve ligar então para algumas pessoas, tentando se consolar. Respostas: “querida, hoje câncer tem cura, tudo tem tratamento, até calvície.” “ela vai ficar bem, não vê a Hebe Camargo?” “Nossa, você é muito deprê, só pensa no pior. Positividade entendeu! Vou te ensinar um mantra fantástico.” “Doença é coisa que a nossa mente cria, sua mãe deve ser uma pessoa muito triste, precisa agora buscar a resposta dentro dela, relaxar e aí toda doença vai embora. Xô doença!” "Você tem um remedinho em casa? Então toma o dobro e dorme, amanhã é outro dia." "Nem começa, por favor, você sabe que eu sou hipocondríaco, não posso nem começar a ouvir essas coisas." Ai que saudade do tempo em que os amigos diziam: "Estou indo agora mesmo te dar um abraço."
          E se um dia criarem um reality show só com pessoas doentes, de preferência casos terminais?Talvez esse povo do prozac gratuito e do alto astral – e que impõe aos outros a ditadura da felicidade, começasse a entender que somos realmente finitos e que cada pessoa humana tem um valor único, e que um ser que é nada ainda assim é insubstituível. E que todos tem direito ao sentimento da perda, de viver até a exaustão a sua dor, curando a alma de empecilhos futuros, de fantasmas mal resolvidos.
         Ai que saudade da boemia de um Noel Rosa, saudade daquele tempo de dor de cotovelo e boa solidão. “Naquela mesa está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim...” E doer era bom.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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