quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

MARIA FUMAÇA

Vaga-lumes que roubei pra mim.


(Homenagem ao dia que deixei de me levar a sério)

Quem tem medo de assombração
pega trem não.
Quem tem medo de assombração
não pega bonde nem avião,
porque Maria se é fumaça
trem moderno não tem coração.
Melhor que se cante a outra, 
se dance a próxima estação,
porque eu, benzinho, não tenho mais,
não prezo mais medo de assombração.


P.Porto

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O espantalho, a mágica e o drama.



Em seus olhos as inscrições de uma nova urdidura,
uma partitura de enigmas, desejos sôfregos que olham de soslaio.
Notas finas, cortantes, corte de corpos estrelados numa onda cinética,
onda helicoidal, hemisférica, íntima de ondas de destino, larvas celestes e centelhas oníricas.  
Nada, o nada alimenta e cura o sonho manco do espantalho de seus próprios madrigais.
No tempo de Eclesiastes ele já não podia mover-se entre margens, era um solo de crenças.
Toda solidão lhe era o som dos pássaros que o cobrem com o manto dos sujos de vida, os que tem chagas pelo corpo.
Por favor, não o toquem o sentimento duas vezes com o som dos que não ouvem
essa música de tamanha diversidade digital!
Sonhos de espantalho é ter sempre fugas e rugas transversais, uma vista de pirata pro oceano em dobras, viver noites dedicadas às ondas bacanais.
Mas ao invés do Amor e o fruto, a esterilização do filtro, o corpo no poste, no tronco, a boca na tranca, a utopia travada na cinta, a atrofia do beijo, o dia morto, o morno da estação, quase uma náusea.
Artefatos sãos mãos de memórias inventadas... moles como as de um ventrículo.
O Espantalho quer apenas um coração.
Ah, mas é tão triste sua verdade, tão triste que mal pode morrer de si mesmo na boca que lhe diz promessas.
Ou sequer pode atirar-se no incrédulo de sua condição de espantos feios.
Apenas a esfera, o giratório das máquinas. E a espera é o que ele tem de mais profano e sagrado. De mais fino e dramático.

Patrícia Porto


Nave e Gado.

Erol Ayyildiz-


Meu passo é
ante passo
Antes passa
passa aqui
Passarim?
Antes pesa
gramas
Antes pulSo

Sol
de Mi
Sou
Vestido
de Asas
Meu 
Futuro
Antes
Nunca
Dantes
Dentes
Doravante
E sempre
Nave e
Gado

Minha terra
um país
e tudo umbiga


Patricia Porto

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

um anil



Vou deixar pra amanhã esse riso
Esse gole no escuro
Todos os riscos de ruptura
Vou deixar pra depois
O engasgo, esse atropelo de verso
Sangrando nas mãos

Vou deixar pra viver
Dias de chuva fresca
Na goteira
dO tempo, e um feito flor anil
amanhã deixo vir

Patrícia Porto   

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O amor nos tempos do Face.

             

           

             Gabriel García Márquez, o escritor colombiano reconhecido nos quatro cantos do mundo por “Cem Anos de Solidão", e também premiado com o prêmio Nobel de Literatura (1982), é, sem dúvida, uma unanimidade quando o tema a ser tratado é o “amor visceral”. “O amor nos tempos do cólera”, mesmo sem perder de vista o gosto pela perene Solidão, é o livro-testemunho do talento absurdo desse autor para as coisas do amor e suas intensidades. O livro de 1985 é uma narrativa feita de alma desperta, no profundo do que vai se forjando no cunho do indescritível, já quando se tiram as cascas da linguagem e se  pode contemplar a intimidade com a escritura, limpa de ornamentos. Este livro, além de um dos mais lidos no mundo, teve também sua adaptação para o cinema em 2007. E para a nossa "quase" alegria conta com a participação de um dos ícones da atuação brasileira, a atriz Fernanda Montenegro. E tem no elenco o magistral ator Javier Bardem. Os dois grandes atores são mãe e filho e Bardem protagoniza o filme como o romântico incurável "do tempo do cólera", Florentino Ariza. É uma estranha dose de doçura amarga que este encontro nos traz - ou trai. Mas o cinema tem dessas coisas, pode ir da grande expectativa à frustração total. Pois teria sido um encontro realmente mágico e belo se o filme não tivesse se mostrado fraco em vários pontos, desde da caracterização dos personagens até chegar, ou melhor, não chegar a um bom desenvolvimento da narrativa. Foi um mergulho tortuoso na leitura adaptada do livro. Uma pena não ter dado certo. O desenrolar da trama é enfadonho e vai de tropeço em tropeço sem alcançar nem nos diálogos e nem as atuações o estupendo impacto das palavras e a profundidade dos personagens de Gabriel García Márquez.
                  Resumida aqui,  a história de Gabriel García Márquez traça o destino de  Florentino e Fermina Daza que se encontram ainda na juventude, se apaixonam e se perdem um do outro pelos desvios, extravios do destino. Florentino Ariza trabalha justamente nos correios, uma metáfora que traça o paralelo entre encontro e despedida, amor e distância, ausência e presença. E haja distância e haja a permanência da ausência! E haja perseverança! Gabriel García Márquez nos comove e nos convence a espera - numa cumplicidade que vamos aos poucos adquirindo ao longo da leitura da história, de um drama que narra a trajetória de um amor que não se abotoa, e que tampouco se fecha, mas ao contrário; se abre ao tempo largo e nos abre, leitores, feito peixes, expondo nossas vísceras, nossas espinhas, nossos espinhos dolorosos se já tivemos ou sonhamos ter um amor tão intenso.  Heróico, épico é o percurso do amor de Florentino e Fermina, separados pela diferença de classes, separados por culturas distintas, ambos seguem suas vidas nas acomodações dos vãos, pois é preciso seguir o curso do rio, da história, da sociedade de então, início do Século XIX, onde são os pais a escolher os pretendentes e maridos de suas filhas. Não que isso tenha mudado, apenas outras são as acomodações de agora, as novas pseudo-escolhas.
                Na história de amor de Florentino e , ou mais do amor platônico de Florentino por Fermina, é  Ele, o tempo, que precisa seguir sua viagem pelo amor estendido,  que se dilata pacientemente, numa completa e quase insuportável tolerância de existir, indo, indo, de volta, buscando a água do poço original. E haja espera! Separados por 53 anos, quatro meses e 11 dias, feito um registro de um ser, como uma flor murcha de aniversários perdidos no bolor do livro da vida. Mas ali, viva na sua cicatriz de existência. 
                Florentino faz de sua vida a própria espera enquanto Fermina se casa com um médico que luta para enfrentar a epidemia de cólera, doença e cura seguem num duplo sentido de profusão de acontecimentos e sentimentos, numa completude que não exclui os desejos dos contrários. E é com este marido que Fermina tem filhos e é com ele que permanece por toda uma jornada até ficar viúva. Só após a morte do marido é que Florentino e Fermina se reencontram, já no tempo indiscreto da velhice; complexo sim, e permeado por dúvidas. Ficar juntos é dizer pouco diante do fluxo da narrativa que também nos aguarda, naquilo que a nós, leitores; prediz ser final.             
                Dito isso, justifico o título deste texto com uma nova angústia; a angústia do tempo moído, capitalizado, calculado, com juros e correções. O tempo que anda abreviando mais que palavras, mais que pronomes que antes eram de tratamento. O tempo que anda abreviando a narrativa, espatifando em cortes afiados, cortantes, o vidro falso que se pensou como o diamante das novas relações. Opacas, confundidas com super projeções do ego, com doses de exibicionismo vazio, as personas se apresentam, se multiplicam e até morrem às vezes, por sorte. E a vida é a do tempo das celebrações sucessivas, das celebridades espontâneas, das confraternizações fantásticas de seres não mais comuns, mas totalmente extraordinários. Todos extraordinários! Todos lindos, corpos maravilhosos, bocas fazendo beicinhos... Tudo o que parece ser do ordinário, do simples, do lento é tratado como “sem sentido” e rapidamente vira notícia velha - em questão de segundos. É o tempo veloz das ansiedades generalizadas, dos ansiosos de plantão a espera não mais de um amor humano que perdure; mas da última informação desnecessária sobre alguém ou ninguém. Não faz diferença.
                Novas estatísticas e velhas intuições alertam para a exposição daquilo que nas relações amorosas não deveria jamais ser colocado feito carne na vitrine; mas que deveria sim ser de fato vivido, discutido e até terminado sem as vias do Face. Que feio! O amor nos tempos do Face significa mais e mais descartes e ainda o abuso de ridicularizar o outro sem nenhum respeito ou qualquer piedade. Parece que  foi aberta a temporada de se enveredar por um desleixo coletivo na relação com o outro. O outro mesmo, aquele amigo de fato, o amor de fato. Muitos vão – sem saber - se tornando peças “de ocasião”: “então bloqueio”, “oculto suas fotos”, “mudo meu status três vezes.”  Muda-se o projeto do enredo, colocam-se os personagens todos numa corrida desenfreada que não dá conta da narrativa. O sujeito fragmentado  passa então a peregrinar por uma coleção de romances de gestos e atitudes duvidosas ou ainda a perseguir um universo reduzido de ilusões repetitivas. Parece que a preguiça de pensar e ficar andou contaminando tudo. O amor nos tempos do Face angustia, pois afinal, como lidar com tanta superficialidade, com a fugacidade despretensiosa que finge inocência? Como lidar com a ignorância daqueles que não sabem o que é ser responsável por ferir ou abusar do outro, que não aprenderam ainda do bom senso o respeito ou não souberam - na nova dinâmica da ansiedade - o que é da gentileza amorosa, a mansidão dos que amam legitimamente, sem badulaques, penduricalhos, sem pieguices neuróticas do "te quero hoje", mas amanhã é uma nova temporada de caça. O amor nos tempos do Face é Bruto e escorrega na própria lambança, talvez por conta do excesso de antolhos, do exagero criado pela expectativa de encontrar uma  novidade a cada perfil, de encontrar a outra e melhor mulher do lado ou homem do lado - e numa rede que é sem laços, o lado é sempre um vazio improvisado disfarçado de cheio, o cheio de diversão, cheio de aventuras rápidas e rasteiras. 
                Mas há esperança para os novos amantes. Fora e Dentro, claro. Vejo casais bem jovens que já se afastam da geração dos caçadores de encontros casuais e instantâneos. E quando o desejo se encontra nos olhos desses jovens amantes, nos olhos de um Florentino e de uma Fermina renascidos de agora, eles se tocam sem nenhuma pressa de viver o que sentem, e aconchegados num tempo que vem e os carrega de volta para o despertar de uma vida dentro de outra, de um despertar de um amor que se faz de qualquer tempo - vivem o que há nele de inteiro sem disfarces. Assim são novamente feitos de Amor e delicadezas.

Patrícia Porto                             
                   

Sem Sinal

Lutz Dille, Transfixed, 1959

Procuro sinais
do tempo
onde o sangue acabou
e escorreu por meus lençóis e trapos.
Onde está você que nunca ficou para fora das margens?
Beira de abismo esfriou. Beira de abismo esquentou.   
A lua não apareceu, o sol não apareceu.
Bandeiras tremulam.
onde estranho sinais que chegam do teu dito avisam.
Minha vontade se antecipa ao abrigo morto,
o  morto dia de teu breve retorno ao Mundo de cá.
E Ampulheta chora e é seca.

Patrícia Porto



segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

LANÇAMENTO DO LIVRO: "SOBRE PÉTALAS E PRECES" DA AUTORA PATRICIA PORTO

LANÇAMENTO DO LIVRO: "SOBRE PÉTALAS E PRECES" DA AUTORA PATRICIA PORTO

***O lançamento será no dia 13 de fevereiro, na Editora Multifoco, Avenida Mem de Sá, 126, Centro, Rio de Janeiro, às 18 horas. Esperando todos lá!



domingo, 9 de fevereiro de 2014

noite anciã

António Paixão, Roupa a secar, Terreiro, Portugal, 1950s


Esperando os violinos, a música de hoje,
Envelhecendo nas madeixas do tempo velho.
Dia velho que nasce em meus belos pelos brancos, que susto!
A noite velha, a anciã das minhas horas me servindo chá.
O passa tempo, o realejo me traz essa nova sorte. Ou não será?
Vou deitar vovó. E acordar sei lá. Na nuvem. 
Na nuvem? Única?
Única


Patrícia Porto

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Estrangeira.



Françoise de Felice, Musetouch


Só conheço o amor pelas beiradas,
e só aprendi do amor o verso o largo, o sótão...

Por onde mora, porventura, o cessar de espantos ao teu lado?
Pois serei tua amiga nas coisas velhas: coisas de baú, mistérios amarrotados. 

Farei do meu corpo tua rede de velas e marinheiro
para que me reles o sonho ou me vele a calmaria.

Tua existência me é anima e vontade.
Eu pressinto bonanças, 
de binóculo vejo os incertos dias de nossas distâncias,
um sorriso depois do tempo fluído, margens, desassossegos sóbrios.

Andei tantas voltas e retornos. 
Atravessei a vida duas vezes e dei tantos soluços aos retratos!
E tu, por onde andaste? Foste para tuas regiões próprias?
De certo. Posso ouvir tua voz ao dentro, pernoitando.
É doce a solidão dos barcos,
eu que só desteci fantasmas sei.

Mas hoje quando eu abri meus olhos pela manhã clara
olhei para o tempo e entendi que o sorrir é de aguardo.
Sem agravos danço indefesa da pressa de errar.

Patrícia Porto

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Quem vem para o jantar?

Ana Teresa Fernandez



A vertigem de uma paixão ou o aconchego de um amor?
Os dois. Apaixonar-se continuamente pela mesma pessoa.
A razão e as cicatrizes dizem o amor?
O meu amor é lúdico, adora dar risadas.
Disse a cigana a alguém que acabara de sair arranhada: "Uma nova paixão!"
Ela protestou assustada!
Quero um amor com gosto de café com leite!
Café com leite? Acho que essa sou eu. Simples como um largo de igreja, diria o Oswald de Andrade.
Usará perfumes para aguardar notícias? Eu sim. Gole a gole...
Talvez com alguma sensualidade.

Patricia Porto

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

de pedra e moinho

Alain Laboile


Eu coleciono pedras
de todos os tamanhos, texturas, aparências.
Aos faróis! Oremos pela chegada do vencedor!
Ele virá pelo Mar trazendo as boas novas!
Levarei em minha pele essas novas inscrições,
séculos de pedras, uma montanha, uma saga inteira
que me alimenta e move. 
Devo atirar? 


Patrícia Porto

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

GAIA



As mãos sobre o ventre quente, ardendo
Até quando? Até quando Gaia?
Na batida do verso o mais pleno
No todo nada no tudo nada no vosso nada
Ele me deixou molhada a Terra, sou vossa,
sou vossa, são tantas dentro de mim
São minhas também, e dançam borboletas
Tenho vozes brancas e noturnas pra dentro
Elas são frutas da Terra, doces, doçuras da Terra
Elas todas eu, eu e elas, perfumadas, cheirando a palmas
damas da noite, copos de leite, magnólias
minhas mãos sobre o ventre quente, nasci de novo,
nasci de novo contigo, amparada, deixada suja, limpa,
gasta, pura, deixada viva, velha, morta, viva, viva, vida, alma...  
(palmas)

Patricia Porto



segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sexta-feira

Quint Buchholz

Um eterno, um instante
Vir-a-ser ser-a-vir
Corpos de naufrágio
em meio a um gole de tempestade.
Tantos os delírios de indeléveis sons
de concha, o mar ao mar ao mar...
Ouvidos para ouvir,
sentidos para viver o imenso: A ilha
E o poema atravessa o espelho
o tempo o verso tatuado
Abismos de mim, os afogados de minhas precipitações
E o poeta ensaia uma nova cartografia em meus seios,
alimenta seus versos de voos e leite bom,
dança diminuto e abraça o espantalho
sonhando com horas de Sexta-feira, livre, selvagem.
Mas sempre acorda Crusoé.

Patrícia Porto