segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

"Sobre Pétalas e Preces", Patricia Porto


Eis o livro,este ser que toma a própria ou imprópria vida nas mãos,
castelos desfeitos, areias são agora palavras de tinta
me sujando as naus.

  
Patricia Porto




***O lançamento será no dia 13 de fevereiro, na Editora Multifoco, Avenida Mem de Sá, 126, Centro, Rio de Janeiro, às 18 horas.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Ode ao Cão.

Alessio Ortu

Se a cidade é cão,
urina nas paredes de aço.
A cidade no fluído feixe, tão chuva a ácida.
Tão doce o desespero,
tão fechada a saída de emergência.
Procurem, por favor, a saída de emergência!
A cidade geme, o concreto geme, o teto sem teto,
a mãe sem filho, o filho sem pai, o pai sem teto,
as meninas, os meninos, os nossos filhos descansando na esquina,
um feixe, uma cratera aberta no peito, pontilhados, pontos,
pecinhas desse jogo sem fim sem começo sem tintas na cor.
Perdida a chave, nos cruzem com seus olhos, seus braços,
suas mãos para queimar a maçaneta da porta,
descruzando dedos.


Patricia Porto

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"A Mulher do Porto" & "Basta de Poesia!"



A MULHER DO PORTO.
(Para o Mesac)

Sou uma mulher à toa
À toa das carnes que salgam o mistério da Islândia
de meia calça na luz de abajur brincando de escrevinhações,
bebendo doses de sereno sem medir a culpa dos avisos de não entre,
escavando abismos, fendas e os vácuos entre o meu e o seu.
Uma mulher à toa, rasgando vestidos e versos de lua,
escrevendo na areia o segredo do mar:
o nome do marinheiro que esteve aqui em meus quartos
de dormir acesa no terceiro tempo: nós.  
À toda atuo como a velha soberana dos sonhos,
ouvindo o meu amor me chamar...  
Vai que o amor sossegue qualquer projeto de extinção
da espécie da dez-razão.
Se esse amor me chamar  
vai que desconcretizo a estrutura,
folgada, mulher à toa de vez,
nele abastecida de mim, me encontrando às avessas,
versando incredulidades.
Amando mais - que mereço.

Patricia Porto


BASTA JÁ DE POESIA!
(Para a Patrícia)

Basta já de poesia!
Careço sua mão em mim,
Sua mão comigo,
Sua mão na minha.
Os dedos bem juntinhos,
Doloridos de tanto entrelaço,
Suados de tanto querer.
Por isso, basta de poesia!
Careço suas pernas nas minhas,
Suas pernas abertas às minhas,
Suas pernas abraçadas às minhas,
Os músculos quentes colados,
Aderidos, misturados,
Esvaindo-se de tanta exaustão.
Basta já de poesia!
Careço seus pés,
Seu tornozelo,
O espaço macio detrás do joelho,
E... o bico dos seios.
O pescoço, o colo, os cabelos miúdos da nuca, a saliva, a língua, a boca.
Careço aquela que quando se abre em charco, em vida, em mar,
A poesia se cala,
Nem precisa mandar.

Mesac Silveira 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

E Rio.



E aí o rio corre,
o Rio corre e eu também vou pensando...
Não sei como saber, então imagino um rosto, um sorriso,
a outra metade do pão com manteiga que comeremos na esquina num dia de semana,
o subúrbio fervendo.
Atravessando a ponte a janeiros.
E eu rio como se conhecesse o Mar,
como se coubesse inteira a travessia ou travessura por dentro.


Patrícia Porto

domingo, 19 de janeiro de 2014

danza

Fotógrafa: Silvia Machado, Dança Contemporânea.


Todo amor um arremesso,
um suspense, ar suspenso,
um dedilhado,
um beijo que ficou por vir assombrado
a casa velha em demolição
um verso nos pés avulsos da bailarina
que dança a dor entre dentes 
e é feliz

Patricia Porto

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

em tuas mãos

© Victoria Baraga

Homem,
melhor botar sua barba de molho
antes que escorra da fruta a toda
linguagem da minha fome, a suculenta,   
em fruta de pão, fruta solar, a que me farta o sonho,
a meio partida, aberta aos gomos,
dividida aos pedaços para ser  
- a devorada, a desfeita, fruta da sexta,  
transformada em água doce e sal
na boca do mundo, a cheia.
Trans borda.
Transberra.
E esses meus cabelos
de despedida... 

Patrícia Porto

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

voraz se me desnuda




Se todas as noites escrevo meu nome no reverso 
então me pergunto se é amor.
Mas como se pode amar assim ao entardecer
quando a solidão já é cortês?
De longe desejei que o estrangeiro voltasse,
tirasse suas botas pesadas,
deitasse suas armas fora.  
De longe me fantasiei de noiva,
entrei perpetuada, cheirando a flor,
na história que me contei amanciada.
O barco não regressou.
Cartas não chegaram ao destino do Himalaia.
O cão ladrou de medo na Argentina.
E o espanto rugiu apertando de sede
a garganta na Austrália.
Dizem que o estrangeiro vive no Mar como um velho lobo,
pouco visita o firme.
Fluída de minhas águas sem ter deságuo
águo minhas vestes de baixo
e faço de meu corpo minha atração única, em pelo, em fêmea,
efêmera.

Patrícia Porto

Henri Cartier Bresson

cosas eternas


SARA SAUDKOVA

Eu já estive com ele nas nuvens e nas idiossincrasias do tempo, 
velhas antenas de TV, 
rádio de pilha,
coisas que ocultamos no baú como sentenças de um cadáver,
uma língua morta, extinta no achado de tua boca aberta que beijo.

Eu que esperei tanto nessa janela de tempo?
Ainda espero como quem não espera - para não dar azar.

E ele me responde: "e eu que esperei tanto... pela sua espera (e, enquanto esperava, naveguei e colhi estrelas. Trago-lhe uma entre as mãos - a estrela da sorte -, feita da poeira dos tempos, dos tempos da espera)"

E eu que já estive com ele em todas as vidas e esperas me abasteço de sorte,
poeira do tempo,
estrelas...

Patrícia Porto

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A memória e seus tentáculos

Walter Schnackenberg



Sempre que se demora demais
Em gastar tantos minutos com reminiscências
Acorda enjaulado, conversando com Kafka,
Brincando de beijar a própria morte.  

Patrícia Porto

sábado, 11 de janeiro de 2014

Um Gato

Regina Gulla


Um Gato (Para todos os Poetas e Amigos do Brinde à Poesia)

Todo mundo que é poeta tem um coração e uma ilha, um vácuo,
os sentidos vem da passagem, um e outro beco, outro e um vasto que não acaba de sentir
e se acaba de sentir, bebe magia, se assusta, se espreguiça no verso dodecafônico.
O Poeta  tem esses abraços infinitos para as dores, as chagas, os medos, os imprecisos
e carrega sempre uma palavra acesa por onde lanternas são precisas, deixadas em posição de tempo.
É alguém que se esqueceu de não-ser sendo vários e isso é o definitivamente.
Ele fala coisas, pensa coisas, diz coisas que inventa...
Inventa, reinventando-se de inventos, inventa que o vento nos sobra
e inunda a restinga, abarca a baía.
Faz a alma girar no campo, o mundo cantar no mar, alimenta os grãos,
é um abençoado por tudo o que vive, por tudo que cria, que soma, nele multiplica.
Depois cai em seus planos solitários de escritas imaginárias, homem, mulher, criança, cirandeiro,
masca um verso aqui, respira fundo ali e até se arrisca a dançar no telhado.
Feito um gato
comete milagres.

Patrícia Porto



sábado, 4 de janeiro de 2014

o trem das coisas.


A gente perde o ônibus,
os óculos,
o trem das coisas.
Não o amor.
O amor se vai,
se es vai,
des via,
        O coração é que abisma.

Patricia Porto