segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Cantiga para Ânima


David Galstyan


Os dias que não te vejo a cama arde.
Os dias dos aflitos, dos famintos, dos mortos
são os meus dias de pertencer.
Eu me embriago de luas.
Quando tudo é o entorno visto uma saia de dedos,
refém do que em mim obscenas.
Quem sabe...
Sou esse cão ao teu lado.
E ainda ardo febril.
Sou a que coleta os ossos
e à tarde sou caminho.
Viajo trilhas cansando do amor,
debruçada nos troncos,
esquecendo meus companheiros.
A pedra é minha amiga,
nela encosto minha alma,
minha dispersão.
Sem lar, anônima,
me abasteço de histórias outras,
me alimento de antigos,
dou voz aos lobos,
minha língua aos morcegos.
E minha cama arde.


Patrícia Porto