sábado, 22 de novembro de 2014

A rinha

Lana Šlezić



Eu tenho uma memória,
mas ela é natimorta.
Uma memória esvaziada
do quintal de meu pai, uma talvez
de não tão verídica, se morta.
Mas lembro da rinha de galos
e de como aqueles bichos se sangravam até a morte,
invisíveis na noite dos cativos.
Meus dez anos eram ralos e estranhos.
Eu era a estrangeira andando de infância
pelo quintal de meu pai médico, de jaleco branco...
Os bichos sangrando até a morte:
Era rinha para muito eco no peito,
nos apagamentos de minhas ruínas.
Essa rosa despedaçada.

Patrícia Porto