sexta-feira, 26 de setembro de 2014

a muda






Uma poesia ingrata reside aqui. É minha pátria e minha ilha. As duas numa serpente, numa serpente que se move labirintica em busca de sua cabeça, a segunda. Os que têm dentes para podar seu domínio não conseguem morder sua calda ou arrancar seu miolo na flor.
Mastigam vazios, suponho, sem praticar da beleza um narciso sequer. Há flores de comer como ilhas de viver em trãnsito.
A ilha me devora os caules e eu ainda sou do gargalho, pois gordas são essas horas de êxtase com minha pátria travestida de poesia. Tenho alma e vivo trasmutações. E mais nela, alma, tenho corpo de território. Tenho corpo que goza solenemente feito um animal em seu estado natural. Sou do improviso, gozo e não maculo. Tenho sempre essa fome de direitos. E essa poesia vestida com minha rosa, sangrada na pele, nesse gargalho, a que me oferta de leite bom, me lambe os peitos, me atravessa os tombos, me água a pele, molha, cansa o bruto, golpeia a derme, me repatria com agulhas afiadas, uma cicatriz que pulsa, coça, corta, dói quando o tempo a muda. De rosa para púrpura. De rosa para serpente. Sem cura. A levo. muda.

Patícia Porto