terça-feira, 5 de agosto de 2014

Num quarto dela

Mirjam Appelhof

Após a tempestade,
entre espaços
e esquadros de lugares imperfeitos,
a bailarina se despiu, trocou de roupa
desejando
bonanças,
calmarias,
mensagens silenciosas.

Após a dança das ondas,
observando o que ficou
e o que deixou de lixo, dejetos na praia
sob seus frágeis pés de vento:
a vida ainda ousava naufragar tranquilamente.


Ele perguntou se era mesmo doce morrer no mar.
Ela sorveu a pergunta e imergiu num salto.

Águas de seu ventre rompiam,

sua bolsa de água rompia,
a água toda de seu corpo dolorido
rompia.
Era ela o próprio rodopio e o escape.

Em alívios
- sobra de seus dilúvios –
entendeu que não era o fim,
era um começo.

Rogou num absurdo gesto
de quem se resgata do Mar.
Não me amordace mais os pés
com sua salga.

Homem, seca meus dedos?

Patrícia Porto