quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Janelas (II)


Mirjam Appelhof

A ventura do espantalho era viajar,
mas como pode o espantalho viajar?
Os pombos sobre seus ombros,
seu corpo preso ao chão,
empalado ao chão...
Misericórdia... Mísero... Córdia
Mitigando coragem de pombos,
pombos que cagam em seus ombros,
sua cabeça...
Ademais é um roto, um amor dissoluto
de ser mais, preso ao chão,
preso ao corpo, preso ao tempo,
preso aos pombos que lhe bicam os ombros,
que lhe cagam a cabeça.
Era preciso não mais ensilvar-se, sair do estado,
do chão, atravessar a fronteira, o madrigal...
Há pessoas que viajam por pessoas,
há pessoas que viajam por cabeças,
pessoas que viajam por países perdidos
nos olhos do ser amado,
viajam pela morte serena dos pássaros...
O espantalho viajava solene como uma harpagão,
sem perder nenhum pequeno imperceptível,
nenhum sentido de soleira. Mesmo os pombos,
mais os pombos, pousando sobre seus ombros,
comendo sentidos, trazendo dejetos, amados pombos...
Os viajantes secretos do espantalho. Suas janelas.

Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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