quinta-feira, 12 de junho de 2014

Por que somos Polianas?

           
     
Cabeça de Criança,  Gottfried Helnwein

                     Dia desses minha amiga Elaine me contou duas cenas que me impressionaram muito. Ela estava numa sorveteria de iogurtes numa esquina badalada da nossa cidade. Sorveteria de iogurte natural?  Sim, com muitas pessoas consumindo "o natural"... E na esquina, bem na curva, tem uma belíssima banca de flores. E mais bela seria se não fosse a logomarca gigante de uma operadora de cartão de crédito piscando para todos. O cenário é fácil e faz parte de muitas outras cidades onde as pessoas transitam e compram, compram e transitam, principalmente nas datas comercias. Dia disso, dia daquilo...
             E enquanto Elaine prosseguia tomando seu sorvete de iogurte muito calmamente, repito: calmamente... Porque Elaine é dessas raras pessoas calmas e risonhas, e das últimas que conheci nos últimos tempos. Para falar a verdade conheço poucas pessoas hoje que não saem de suas casas sem que comecem o dia berrando com o leiteiro, o sapateiro e o vendedor de bananas. E olha que essas profissões nem existem mais. São de um Rio Antigo, um tempo antigo. Mas eis que Elaine e o sorvete se derretiam com a paisagem da cidade quando uma loura Fausto-Fawcett,  uma“louraça belzebu provocante” entrou na sorveteria toda empinada. Nariz em pé, bunda em pé, tudo em pé dentro de sua roupa de ginástica da última moda. Lá onde eu nasci, lá no Tirirical, diríamos, arrochada, “arrochadinha” com sotaque. A moça entre 20 e 40 anos em suas roupas colantes de mulher gato pediu um sorvete por trás dos seus óculos escuros. Parecia irritada, impaciente com a demora de dois minutos do atendente: “que absurdo!” Olhou para o sorvete com cara de quem não lambeu e não gostou. E para o atendente com cara de “quem você pensa que é”, “veja com quem está falando”, “já se olhou no espelho hoje...” Esnobou a todos sem exceção e saiu apressada esvoaçando os cabelos, sorvete numa das mãos, na outra a chave de sua camionete estacionada na esquina. Entrou “roboticamente” no seu possante e olhou mais uma vez com ar de desprezo ou Botox (nunca saberemos) para a sorveteria.
            Não sendo nativa, Elaine, claro, estranhou. Tentou mudar de olhar e se fixou na banca de flores, afinal uma das belas paisagens poéticas do cotidiano das cidades. Sempre achei que os floristas deveriam ser isentos de impostos já que traziam a alegria das cores e o perfume da vida em meio ao concreto bruto, em meio a tanta gente embrutecida. Mas a máquina de cartão de crédito acabou de vez com esse meu pensamento pueril.
               Na cena descrita por minha amiga, a florista lançava espirros delicados de água nas flores... Tudo parecia singelo e delicado até que um rapaz saiu de seu “carrão” e se aproximou da florista como se quisesse contar um segredo. Era um rapagão forte, músculos bem definidos, a silhueta dizia o quanto ele tinha se esforçado para chegar àquela forma ou fôrma. E Elaine o observava enquanto terminava seu sorvete. Achou que ele parecia confuso, nervoso, roendo as unhas... Falou com a florista e depressa voltou para perto do carro... A florista fez suas escolhas e se concentrava no arranjo com os egípcios, aquelas pequenas florzinhas brancas. Não tinha pressa qualquer. O rapaz deu uma volta ao redor do carro, assoviou uma musiquinha, olhou o crescimento dos bíceps e tríceps no espelho retrovisor... E quando a florista mal terminava de enlaçar as flores, novamente se aproximou e fez uma "transação rápida": “passa pra cá.” Entregou o dinheiro também rapidamente e a florista ficou no ar... “O cartão!” Gritou. O rapaz já tinha corrido apressado para o outro lado da rua, aberto a porta do carro e jogado as flores  pra dentro em tempo recorde. “O cartão!” Gritava a florista. Ele acenou: “Esquece!” Sim, podemos nos consolar pensando: “Ah, talvez ele não soubesse escrever...” Simples assim.
                    Complexo do cotidiano. As cenas me interessaram e por isso resolvi registrá-las, não porque sejamos, eu e minha amiga as duas últimas Polianas do pacote, mas porque somos humanas, somos seres "humanas" que amam e que se preocupam com outros seres humanos, que se interessam por outros seres humanos e se entristecem, ficam desconcertadas, estarrecidas e até mesmo sofrem com outros seres humanos. E nós os humanos ainda somos seres gregários, biologicamente, culturalmente e todo o isolamento apenas comprova o quanto o individualismo nos faz mal, muito mal, esteticamente mal, eticamente mal. Assim como a pressa nos faz mal e como a fome de viver no shopping da adrenalina acelera não só o nosso bio-ritmo, mas também o nosso modo de viver as experiências, podendo até mesmo “apagá-las”, queimando etapas significativas de nossas vidas. As crianças querem ser adultas e os velhos não querem envelhecer.
           E parece mesmo que o consumo se tornou a mola mestra, a peça chave e a nossa paisagem mais bela. A nossa Garota de Ipanema só pensa em malhar e consumir albumina. E o corpo entra “nessa” montanha russa contraditória entre o culto e a saúde para virar objeto do desejo e do dejeto. O corpo é hoje explicitamente usado como fetiche, mercadoria. E olha que eu nem sou marxista. Mas me parece que Marx explica. Que Freud explica. Pois eles não só anteviram esse estado de coisas como também podem explicar o nosso tremendo mal estar, pelo menos explicam o meu e o de Elaine. E eu incluiria Baudelaire nessa lista da minha perplex-idade. Até porque os poetas conhecem muito do homem. E ser poético não exclui o ser político. 
             E se tudo é consumo e se tudo precisa ser consumido, devorado rapidamente, instantaneamente, o que nos sobra é a falta. Falta tempo, falta amor, falta alegria e falta porque se não estamos consumindo não estamos existindo e se não existimos não há tempo, não há amor, não há alegria. Talvez por isso o consumo de droga também tenha mudado e a juventude consuma cada vez mais e mais a cocaína da vida, pra ficar tudo cada vez mais rápido – e agressivo de preferência. Da mesma forma que desejam o mercado. E o consumo. E o mercado... Corpos abrutalhados e carros potentes que mascaram o nosso vazio e a nossa impotência diante da liquidez das relações. É preciso estar bombado, maquiado, botoxado, maquinificado, padronizado, fazer cara de mal, assustar os passantes com os símbolos da nova era. Antes falávamos até em “boa foda”, hoje é o “food se”, “eat me” e “fast”, please. O descartável. 
               Poéticas e patéticas, eu e Elaine suspiramos ao pensar nas flores...  E deu aquela nostalgia fora de época. Mas se hoje é uma vergonha comprar flores, se a pessoa se sente constrangida por fazer um elogio, por dar um abraço, por expressar um afeto que seja, o que esperar do amanhã? O florista será em breve como o leiteiro e o vendedor de bananas. E ainda gritarão com ele: “Saia do nosso caminho, precisamos passar com pressa com nossos carros e as nossas marcas!”
                 Diante dessas cenas cotidianas decidi não só escrever, mas decretar “pateticamente” que hoje será “o dia da flor”, como temos “o dia do abraço”, “o dia do beijo”, “ o dia do respeito”... Vou sair para "consumir" uma flor para mim mesma e também vou tirar um foto para guardar de lembrança, porque sei que ela não resistirá ao tempo fugaz. Comprarei uma para Elaine também em agradecimento pela nossa partilha e amizade, que é dessas coisas lentas... E vou torcer para que reencontremos na esquina da vida de um futuro-próximo aquele ser humano bem humorado, demorado na sua existência, evoluindo com novas texturas e com seus tolos encantamentos.



Patrícia Porto