segunda-feira, 16 de junho de 2014

Minha casa, meu reino, minha alma de brechó.



         
                     Como boa leonina que sou gosto de zelar pelo território, por isso minha casa, essa transitória, por pequena que seja, modesta que seja, entulhada que seja - ou de livros  ou de lembranças de todos os lugares por onde andei a fazer amigos, é o meu reino. E só um felino muito indistinto sabe o valor que isso tem na hierarquia dos desejos. Por isso cuido do meu canto, gotejo nas plantas minha sorte, arrumo gavetas de esquecimentos, brinco de abrir e fechar janelas e solto meu pensamento, flutuante, misturado ao odor de café, cheiro de minha natureza sempre mais para o dentro que para fora. Não reclamo, embora reclamem bastante de mim. Gosto da minha natureza reservada, do meu canto de leitura e meditação, de construções enigmáticas de poemas que ainda vão surgir daqui a dias, meses ou que simplesmente vão desaparecer esfregando e soltando letras sem sentido algum que dê sentido a eles. Gosto da solidão moderada, gosto de estar comigo e conversar comigo mesma e isso talvez me torne essa pessoa muito estranha. Difícil não explicar a liberdade que mora na minha necessidade de solidão. Gosto de escolher tecidos e pendurar roupas, mas não me sinto oprimida por isso. Quando ando borboletando pela minha sala, pouso na estante e sempre arranco sorrisos dos livros: pedaços, corpos inteiros, novos romances pra ler... 
                   Espero que ninguém, nenhuma fada madrinha tente algum dia me salvar ou me anular da minha tão íntima rotina. Por isso meus companheiros são meus filhos e um cachorro. O meu cachorro até senta para tomar café comigo, olha a lua da varanda e me ajuda a criar loucas elucubrações com latidos e afagos arabescos. Nesse instante somos os dois a própria falta de eternidade, aquele instante breve de ser nada. Adultos humanos são os mais difíceis de lidar, querem sempre explicar ou exigem explicação para tudo, para a mais mísera das bobagens. Não se conformam com "não sei", "esqueci" e "não me interessa". Minta, meu filho, é o que costumo dizer. Humanos adultos preferem os mentirosos aos autênticos, ou porque abandonam suas infâncias na primeira esquina de arrogância ou por conta da soberana soberba. 
            Então, sinto muito, mas não me explico mais e falo cada vez menos o desnecessário. Tem um vizinho que sempre me pergunta: por que seu cachorro late tão pouco? Eu minto: "ele é tímido".

Patricia Porto