sábado, 28 de junho de 2014

Céu de vespeiro


Casamento Coletivo, Marcel Gautherot, Nordeste do Brasil,1941


Nordestino num destino novo
NOvo de outro Colombo
No destino dele
O Itá a pé-mirim 

No meio dessa história
Tinha uma estrada reta
Um destino torto no meu sangue
no meu sangue negro
no meu sangue índio
no sangue de colonizador,
esse pai feito de meu avô

De Novas Américas caminhos
Dentro da América de sentinelas
Parindo essa menina,
menina América da barriga do mundo

São Gabriel, minha Ave Maria!
Era tanta a água de parto que se fez açude
Que a terra do escravo tanto inundou!
Quantos grãos dessas areias
se fizeram lágrimas de minhas mães secas?

Nordestino viu, era visionário
Teve tino e tento 
Tinhoso o destino apontava o forte
Fez a terra tenra, roxa, terra de costumes,
bonita de corpo onde o que se planta come

Fez de pedra a casa
Fez da sorte a pedra
E a Vida de pedra, a analfabeta,
Na cidade selva fez do bicho um aprende dor

Nordestino vive
Cinza, atrás de um balcão de portaria,
mais forte que nunca geme suas paredes, 
Traz vida à força
No corte se fia
pra iludir a morte,
pra iludir o senhor

No destino reza
Aponta pro norte
Onde foi parar essas minhas velas?
Norte que me deste
No destino prova no açúcar branco
Que a terra é de transe 
E que o transe é da Rocha

No destino apruma
Corre contra o fel da endemoninhada
Já que a espera cansa

Faz chover do céu
Caos de canivete
Renascendo tonto, profeta da sanha
Dançando no saibro, puxa a navalha
Chapéu de aprumado

No destino aponta
E até com a curra 
Cruza e faz pareia
Pula e dá risada

Vence da moléstia
Praga, peste é piula

No destino acha
que Vida é clã que se destina
Passagem divina de passarinheiros
É Flor de aroeira, versos de passagem
E só pra ganhar essa benção em dobra
na dobra do tempo
esse natimorto

Dá uma de besta
Na rede da alma comete indolências de sobreviver: 
"Alma, alma, essa me é boa de deita!"


Patrícia Porto