segunda-feira, 26 de maio de 2014

Presente

Sara Facio 1963

Levanto da cama, poesia me chama.
Não sei onde enfiei o raio dos óculos de direção.
Poesia se é o presente é um inferno, se troco letras, vai,
por inverno - parece mais bonitinho. Parecer não é ser.
Mas poesia me dança no umbigo, me gera insônia, fome,
assalto à geladeira. Quanto vazio!
Sim o da geladeira é sempre o existencial
e todo poeta tem a geladeira que merece.
Vai estudar, menina! Não estudou, viu?!
Geladeira, vida, vazio existencial e o presente pra burro!
Onde estão os óculos? O poema já se quer como fim passado à goma.
Chega de presente! Presente é o cão! O grito diabólico de dentro,
do rascunho sempre se borrando de medo.
Ah, os vencedores, esses não têm tempo para o medo,
medo é coisa de menininha descendo a ladeira.
É pesadelo de urina, terror de criança, floresta encantada de bruxas.
Pois sim, levanto, poesia me chama e eu sem saber onde colocar
esses olhos aqui, se vejo, me enxergo, não gosto. Prefiro vitrines.
Vitrines sim sabem anunciar as coisas que eu não sei do mundo.
São de vidro, parecem vistosas para sempre, carregam os transeuntes.
Eu por invalidez prefiro olhar de fora, meu dentro não dá conta do ausente
Presente. Com esse ar de blasé.  Essa estampa de vitrine.

Patrícia Porto