segunda-feira, 14 de abril de 2014

UM DIA DE LOBA



UM DIA DE LOBA

          Quando é que alguém percebe que se tornou uma pessoa raivosa e ressentida? Quando é que dá o tal estalo? Logo aquela pessoa que também amava tanto os animais... Agora está ali, lidando com velhos almanaques do bom-mocismo ou com a nova patrulha dos que fazem marchas pelos bons costumes mentais. Quem são os verdadeiros doentes mentais? Ainda há tempos e templos históricos a nos dizer quem são os deuses. E infelizmente muitos “lucram” com isso, uma indústria inteira sustenta suas pernas na banalização do sintoma e do estigma. E ainda na falta de semelhança com o espelho habita o clichê que compara pessoas aos cães e aos lobos pela raiva. Todos conhecem bem as analogias que se fazem sobre o cão bom e o cão mau, o lobo bom e o lobo mau. Como se os cães, os lobos, os animais todos pudessem dominar o seu lado instintivamente mau ou como se - simplesmente, pudessem jogar para debaixo do chão, da terra, a desordem do mundo interno, o instinto, a sombra, o avesso. Um extinto?  
              Uma pessoa me falou numa consulta médica: “Você tem dois lobos dentro de você. Um é bom e o outro é mau. Você é quem escolhe qual deve e quer alimentar e qual você deve matar de fome.” Achei horrível toda aquela pílula de lugar comum, de veto surrado e hostil. Se alguém receita remédio tarja preta para ajudar a matar o lobo mau de fome – é porque, certamente, nunca entrou na sua própria floresta. Nunca esteve do outro lado de si mesmo e nunca atravessou sua própria fronteira para se olhar no espelho um enigma, o Lobo, a tal corda sobre o abismo de Nietzsche. Quem repete frases feitas sem pensar pode muito bem receitar sem pensar; e daí o pior: diagnosticar sem pensar. 
           Ouço numa entrevista que os novos pesquisadores da neurociência se esforçam dia-a-dia para desvendar um pouquinho mais do misterioso cérebro humano. Nosso cérebro e suas capacidades parecem assim - tão misteriosas quanto o que há de misterioso na descoberta das novas galáxias. O universo se expande e dilata, toma formas amolecidas, fragmentárias, enigmáticas e criam conexões, e fazem o antes inimaginável ou impossível -  imaginário e real. E bem à nossa frente o tempo se dilata, quantifica e qualifica. Há Quantidade. O Quanto. E o Quântico. E tudo aquilo que desconhecíamos passa a ter uma imensa oportunidade e flexibilidade de qualidade de expansão. E se expande. E para onde vai Dionisio? Matamos o corpo em prol do cérebro? Anulamos, interditamos, aniquilamos, maltratamos, esquartejamos o corpo em suplício em praça pública como aquilo que deve ser temido, destruído, escondido, inconfessado, acossado... Como o corpo de Polinices , banido, usurpado, símbolo de negação, exclusão, como os corpos desaparecidos dos filhos das Mães de Maio, das mães das favelas cariocas, as mães do México, as novas Antígonas.  
          Eu que também amo os animais e também amo a física do universo - não entendo nada da prática humana de matar de fome os lobos maus. Ou ainda não entendo nada de dizer que a pior raiva humana é a raiva de um cão. Olho o meu cão, nunca vi ser mais bondoso e carinhoso. Domesticamos os nossos cães que latem e se comunicam o tempo todo conosco. Boris Cyrulnik diz que um cão selvagem ou um cão que acompanha um caçador quase nunca late, pois não há comunicação necessária no ofício de caçar outros animais ou no exercício de ser presa e predador na floresta. Apenas o silêncio e o odor da morte.
             No belíssimo livro de Clarissa Pinkola Estés, “Mulheres que correm com os lobos”, somos instigados pela leitura densa do texto, a desvelar a nossa relação com a floresta, e dessa relação somos também instigados a refletir sobre os nossos medos, as nossas angustias, as nossas fragilidades, nossas previsibilidades, precariedades. Impossível não se identificar. Num desses contos me vi perdida e achada na imagem da Mulher-lobo, da mulher que guardava ossos como relíquias da vida, como histórias, cicatrizes do mundo, registros da passagem da humanidade pela floresta. La Loba, a criatura. Há em “La Loba” um pouco de “Baú de Ossos” de Pedro Nava, os ossos dos mortos, o baú que evoca os desaparecidos, as casas mortas, numa arqueologia interminável, numa busca por desvendar-se pelas memórias, pelas reminiscências dos homens e das coisas naquilo que nos olha.      
                Gente muito “boazinha”, sempre boazinha, é gente que aprendeu a calar a sua tempestade antes que apareçam os ventos. Quando vejo alguém nessa categoria presumo que o ansiolítico raspou aquela natureza até o fim do tacho. E sinto que o insosso do vazio impera mais que pondera. Como não é nunca da minha conta, apenas penso um pouco entre tantos outros pensamentos e sigo adiante. É claro que já me perguntei por que não funcionou comigo. E até já invejei essa gente com sugestão de paisagem eterna, como uma televisão passando, estaticamente - campos floridos com criancinhas correndo feito anjinhos. E ainda admirei gente com expressão de aquário - peixinhos coloridos naquela pequena amostra de ambiente devidamente controlado. Mas com o tempo passou e eu já me conformei. Aprendi, numa surpresa inconveniente, a gostar de algumas das minhas rasuras, ranhuras, essas coisas de gente fraturada pela vida.  Não vou dar conta dos anjinhos correndo na estação das flores. Isso nunca. Já desisti.
           O que fica então para alimentar? Não, não, me recuso a matar meu lobo mau! E me entrego aqui mesmo - ao dizer para quem está lendo. Saiba. Saiba disso. Eu tenho um lobo mau. Mas se eu não estiver completamente errada, você também deve ter o seu, não sei se machucado ou morrendo de fome, mas tem. E uma sensação me diz que quanto mais tivermos essa noção, com maior zelo trataremos as delicadezas do outro, assim como também entenderemos melhor as falências humanas. E se a corda puir, sabe o abismo? É o misterioso. Uma casa enigmática cheia de ossos. Uma floresta com lobos, cães, meninas, meninos selvagens correndo entre sombras e árvores. É mais embaixo mesmo. E é sempre melhor descobrir, olhar por si mesmo, colocar as mãos nas camadas.    


Patrícia Porto
    


                     Amiga, senta aqui...puxe uma cadeira, vamos prosear, como se diz na minha terra.Quer um cafezinho? Fiz bolinho de chuva, ainda agora. Ou prefere uma cervejinha...você gosta? Talvez um bom vinho e queijos. Mas, se acomode. Vamos falar desta beleza de crônica que você escreveu. Estou aqui, cismando, como a vida, a despeito de tantos desencantos, pode ser generosa. Você é um verdadeiro presente que a existência nos oferta. Sua escrita grandiosa nos leva a viagens e mergulhos ao mais profundo do nosso ser. Sua inspiração sem paralelo desconhece territórios inabitáveis. Sua escrita é Amplidão. Sua alma vasculha, esmiúça e nos apresenta vastas possibilidades de entender a vida. Seu profundo conhecimento da psiquê humana revela o espírito analítico, preciso em desnudar os vãos, os escuros da nossa alma. E com que excelência você vai discorrendo sobre as complicações do viver. Contraventora, nada contra a corrente, não aceita atalhos, desdenha da resignação...Você Conclama! Também estou aqui cismando se seus leitores não acabarão se tornando seguidores...consequência inevitável na trajetória dos notáveis.Você se coloca no alto do trapézio, indiferente se tem uma rede segura a amparar sua queda. Você busca a queda, pois que ressurge melhor , mais forte e mais sábia de cada uma. Nesta belíssima e rica crônica, percebo a escritora, a professora, a mulher...a criança que ainda não desistiu de entender. Sua alma tem sede, seus passos são mais largos, seu olhar é o infinito. Você questiona questões cruciais que todos carregam no peito. Não se lê Patricia Porto impunemente. Falemos da raiva, do ressentimento que inauguram seu texto. Hipocrisia quem nega não ter seus silêncios magoados, um (talvez mais) ressentimento inundando os olhos de sombras. E estes sentimentos vão se incorporando à nossa história, à medida que avançamos, na existência. A vida molda, fere, rasga,ruge, as pessoas são imperfeitas, contraditórias (daí a beleza de cada um) e as colisões são inevitáveis. Mas, quando nos percebemos também falhos e passíveis de errar, nosso olhar, para com o outro, é mais generoso. Os tempos modernos nos ofertam fórmulas garantidoras da Vida doer menos...basta tomar aquela pílula, aquele remédio direitinho....Aí, fica fácil. Basta desistir de viver e ligar o piloto automático. Perfeito. Tudo muito clean, asséptico, sem quaisquer emoções, uma vida sem paixão, nem dor. Mas, isto é vida? Ou sobrevida? Ora, mas onde a beleza da caminhada? A existência dói, e muito...há que se ser valente! Existe sempre a opção de deixar a amargura esquentar lugar...ou buscar viver com paixão, intensa paixão. O caminho, porém, que resgata o sentido é o da Coragem. As respostas chegam, as coisas acontecem. No tempo que tem que ser. Voltando ao ressentimento, exigimos tanto do outro, lamentamos a decepção, o descuido, o silêncio. Aí, a coisa fica meio complicada. Tudo sempre vai depender do grau evolutivo de cada um. Mas, isto não significa fim de linha...se estivermos abertos a aprender. Enquanto digito, este imponente e belíssimo lobo que você colocou para ilustrar seu texto, não tira os olhos de mim. Seus olhos falam de Poder. Este, que nos permite alterar posturas e mudar trajetórias. Falam, também, que a salvação está na Liberdade. Mesmo com o coração sangrando, a lágrima morrendo salgada nos lábios, a alma precisa correr, livre, pelas campinas, sinalizando que as respostas estão ao longo do caminho. Que não calemos a Loba que habita em nós. Ela é a nossa maior verdade, nosso brilho nos olhos, nossa capacidade de amar. Perdoe-me o texto extenso, Patricia Porto. Sou prolixa, sem remédio. Consigo a concisão, mas sob tortura. Show, minha amiga. Como sempre. Beijos.



Jussara Marinho



Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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