quinta-feira, 13 de março de 2014

Visceral?

Guernica, Pablo Picasso


Olhe bem pra mim. Assim é bem melhor.
Não pulo. Veja.
O escuro não dura tanto. Eu juro. Mas eu minto.
Enquanto penduram Estrelas no céu
eu me escondo de ombros.
Não durmo. Não acordo.
O verde das ruas são de cor de oliva.
Eu morava numa vila militar.
Você sabe como é viver nas ruas dos quartéis?
Era com pá-pá-pá-pá-pá-pá.
Minhas vísceras sabem. Tremiam.
Com o tempo se aprende a usar coturnos para se defender das paredes.
As dunas e os corpos são grãos de poeira. Visceral não é cósmico.
E eu faço poesia para não morrer de Metáforas e Meteoros.
Minha palavra não é curta, mas sempre um esboço de desejo pétreo,
procuro bandeiras em mastros de dor nua para me autoflagelar. Mas sofro de cinismos.
Não grito e não amordaço. Não podemos gritar as crianças desse campo.
O dia perdura, coloco meu manto no mastro
com medo da santa de farda, ela é a força da rua  sempre por um fio.
E tudo começa e tudo termina sem risos. Papai não deixa cuspir no chão.
Tudo rompeia silêncios, trancadas as vísceras num caixote,
sol dados tão rasos
esperando na curva uma pedra úmida de amolar.


Patrícia Porto