segunda-feira, 24 de março de 2014

Inverno para garatujas


Cândido Portinari

Eis que invento um novo modelo de espera.
O da chuva. Chuva de inverno, geladinha.
Quando eu era criança. Faz muito, muito tempo.
Mesmo que pareça ontem.
Eu tinha mania de adivinhações do tempo.
E eu me colocava em posição de contar os pingos da chuva.
Mas eram tantos, como estrelas aos milhares
que os meus dedos se perdiam na contagem.
Dava verrugas, verrugas que nascem de tanto contar,
de tanto a gente se contar. 
Então eu desenhava a chuva por dentro,
pingos imensos em garatujas,
pingos felizes como meninos plantando bananeiras.

Patrícia Porto