sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O espantalho, a mágica e o drama.



Em seus olhos as inscrições de uma nova urdidura,
uma partitura de enigmas, desejos sôfregos que olham de soslaio.
Notas finas, cortantes, corte de corpos estrelados numa onda cinética,
onda helicoidal, hemisférica, íntima de ondas de destino, larvas celestes e centelhas oníricas.  
Nada, o nada alimenta e cura o sonho manco do espantalho de seus próprios madrigais.
No tempo de Eclesiastes ele já não podia mover-se entre margens, era um solo de crenças.
Toda solidão lhe era o som dos pássaros que o cobrem com o manto dos sujos de vida, os que tem chagas pelo corpo.
Por favor, não o toquem o sentimento duas vezes com o som dos que não ouvem
essa música de tamanha diversidade digital!
Sonhos de espantalho é ter sempre fugas e rugas transversais, uma vista de pirata pro oceano em dobras, viver noites dedicadas às ondas bacanais.
Mas ao invés do Amor e o fruto, a esterilização do filtro, o corpo no poste, no tronco, a boca na tranca, a utopia travada na cinta, a atrofia do beijo, o dia morto, o morno da estação, quase uma náusea.
Artefatos sãos mãos de memórias inventadas... moles como as de um ventrículo.
O Espantalho quer apenas um coração.
Ah, mas é tão triste sua verdade, tão triste que mal pode morrer de si mesmo na boca que lhe diz promessas.
Ou sequer pode atirar-se no incrédulo de sua condição de espantos feios.
Apenas a esfera, o giratório das máquinas. E a espera é o que ele tem de mais profano e sagrado. De mais fino e dramático.

Patrícia Porto