domingo, 16 de fevereiro de 2014

O amor nos tempos do Face.

             

           

             Gabriel García Márquez, o escritor colombiano reconhecido nos quatro cantos do mundo por “Cem Anos de Solidão", e também premiado com o prêmio Nobel de Literatura (1982), é, sem dúvida, uma unanimidade quando o tema a ser tratado é o “amor visceral”. “O amor nos tempos do cólera”, mesmo sem perder de vista o gosto pela perene Solidão, é o livro-testemunho do talento absurdo desse autor para as coisas do amor e suas intensidades. O livro de 1985 é uma narrativa feita de alma desperta, no profundo do que vai se forjando no cunho do indescritível, já quando se tiram as cascas da linguagem e se  pode contemplar a intimidade com a escritura, limpa de ornamentos. Este livro, além de um dos mais lidos no mundo, teve também sua adaptação para o cinema em 2007. E para a nossa "quase" alegria conta com a participação de um dos ícones da atuação brasileira, a atriz Fernanda Montenegro. E tem no elenco o magistral ator Javier Bardem. Os dois grandes atores são mãe e filho e Bardem protagoniza o filme como o romântico incurável "do tempo do cólera", Florentino Ariza. É uma estranha dose de doçura amarga que este encontro nos traz - ou trai. Mas o cinema tem dessas coisas, pode ir da grande expectativa à frustração total. Pois teria sido um encontro realmente mágico e belo se o filme não tivesse se mostrado fraco em vários pontos, desde da caracterização dos personagens até chegar, ou melhor, não chegar a um bom desenvolvimento da narrativa. Foi um mergulho tortuoso na leitura adaptada do livro. Uma pena não ter dado certo. O desenrolar da trama é enfadonho e vai de tropeço em tropeço sem alcançar nem nos diálogos e nem as atuações o estupendo impacto das palavras e a profundidade dos personagens de Gabriel García Márquez.
                  Resumida aqui,  a história de Gabriel García Márquez traça o destino de  Florentino e Fermina Daza que se encontram ainda na juventude, se apaixonam e se perdem um do outro pelos desvios, extravios do destino. Florentino Ariza trabalha justamente nos correios, uma metáfora que traça o paralelo entre encontro e despedida, amor e distância, ausência e presença. E haja distância e haja a permanência da ausência! E haja perseverança! Gabriel García Márquez nos comove e nos convence a espera - numa cumplicidade que vamos aos poucos adquirindo ao longo da leitura da história, de um drama que narra a trajetória de um amor que não se abotoa, e que tampouco se fecha, mas ao contrário; se abre ao tempo largo e nos abre, leitores, feito peixes, expondo nossas vísceras, nossas espinhas, nossos espinhos dolorosos se já tivemos ou sonhamos ter um amor tão intenso.  Heróico, épico é o percurso do amor de Florentino e Fermina, separados pela diferença de classes, separados por culturas distintas, ambos seguem suas vidas nas acomodações dos vãos, pois é preciso seguir o curso do rio, da história, da sociedade de então, início do Século XIX, onde são os pais a escolher os pretendentes e maridos de suas filhas. Não que isso tenha mudado, apenas outras são as acomodações de agora, as novas pseudo-escolhas.
                Na história de amor de Florentino e , ou mais do amor platônico de Florentino por Fermina, é  Ele, o tempo, que precisa seguir sua viagem pelo amor estendido,  que se dilata pacientemente, numa completa e quase insuportável tolerância de existir, indo, indo, de volta, buscando a água do poço original. E haja espera! Separados por 53 anos, quatro meses e 11 dias, feito um registro de um ser, como uma flor murcha de aniversários perdidos no bolor do livro da vida. Mas ali, viva na sua cicatriz de existência. 
                Florentino faz de sua vida a própria espera enquanto Fermina se casa com um médico que luta para enfrentar a epidemia de cólera, doença e cura seguem num duplo sentido de profusão de acontecimentos e sentimentos, numa completude que não exclui os desejos dos contrários. E é com este marido que Fermina tem filhos e é com ele que permanece por toda uma jornada até ficar viúva. Só após a morte do marido é que Florentino e Fermina se reencontram, já no tempo indiscreto da velhice; complexo sim, e permeado por dúvidas. Ficar juntos é dizer pouco diante do fluxo da narrativa que também nos aguarda, naquilo que a nós, leitores; prediz ser final.             
                Dito isso, justifico o título deste texto com uma nova angústia; a angústia do tempo moído, capitalizado, calculado, com juros e correções. O tempo que anda abreviando mais que palavras, mais que pronomes que antes eram de tratamento. O tempo que anda abreviando a narrativa, espatifando em cortes afiados, cortantes, o vidro falso que se pensou como o diamante das novas relações. Opacas, confundidas com super projeções do ego, com doses de exibicionismo vazio, as personas se apresentam, se multiplicam e até morrem às vezes, por sorte. E a vida é a do tempo das celebrações sucessivas, das celebridades espontâneas, das confraternizações fantásticas de seres não mais comuns, mas totalmente extraordinários. Todos extraordinários! Todos lindos, corpos maravilhosos, bocas fazendo beicinhos... Tudo o que parece ser do ordinário, do simples, do lento é tratado como “sem sentido” e rapidamente vira notícia velha - em questão de segundos. É o tempo veloz das ansiedades generalizadas, dos ansiosos de plantão a espera não mais de um amor humano que perdure; mas da última informação desnecessária sobre alguém ou ninguém. Não faz diferença.
                Novas estatísticas e velhas intuições alertam para a exposição daquilo que nas relações amorosas não deveria jamais ser colocado feito carne na vitrine; mas que deveria sim ser de fato vivido, discutido e até terminado sem as vias do Face. Que feio! O amor nos tempos do Face significa mais e mais descartes e ainda o abuso de ridicularizar o outro sem nenhum respeito ou qualquer piedade. Parece que  foi aberta a temporada de se enveredar por um desleixo coletivo na relação com o outro. O outro mesmo, aquele amigo de fato, o amor de fato. Muitos vão – sem saber - se tornando peças “de ocasião”: “então bloqueio”, “oculto suas fotos”, “mudo meu status três vezes.”  Muda-se o projeto do enredo, colocam-se os personagens todos numa corrida desenfreada que não dá conta da narrativa. O sujeito fragmentado  passa então a peregrinar por uma coleção de romances de gestos e atitudes duvidosas ou ainda a perseguir um universo reduzido de ilusões repetitivas. Parece que a preguiça de pensar e ficar andou contaminando tudo. O amor nos tempos do Face angustia, pois afinal, como lidar com tanta superficialidade, com a fugacidade despretensiosa que finge inocência? Como lidar com a ignorância daqueles que não sabem o que é ser responsável por ferir ou abusar do outro, que não aprenderam ainda do bom senso o respeito ou não souberam - na nova dinâmica da ansiedade - o que é da gentileza amorosa, a mansidão dos que amam legitimamente, sem badulaques, penduricalhos, sem pieguices neuróticas do "te quero hoje", mas amanhã é uma nova temporada de caça. O amor nos tempos do Face é Bruto e escorrega na própria lambança, talvez por conta do excesso de antolhos, do exagero criado pela expectativa de encontrar uma  novidade a cada perfil, de encontrar a outra e melhor mulher do lado ou homem do lado - e numa rede que é sem laços, o lado é sempre um vazio improvisado disfarçado de cheio, o cheio de diversão, cheio de aventuras rápidas e rasteiras. 
                Mas há esperança para os novos amantes. Fora e Dentro, claro. Vejo casais bem jovens que já se afastam da geração dos caçadores de encontros casuais e instantâneos. E quando o desejo se encontra nos olhos desses jovens amantes, nos olhos de um Florentino e de uma Fermina renascidos de agora, eles se tocam sem nenhuma pressa de viver o que sentem, e aconchegados num tempo que vem e os carrega de volta para o despertar de uma vida dentro de outra, de um despertar de um amor que se faz de qualquer tempo - vivem o que há nele de inteiro sem disfarces. Assim são novamente feitos de Amor e delicadezas.

Patrícia Porto                             
                   

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

Google+ Followers

Com-partilhados...

Pesquisar neste blog