quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

voraz se me desnuda




Se todas as noites escrevo meu nome no reverso 
então me pergunto se é amor.
Mas como se pode amar assim ao entardecer
quando a solidão já é cortês?
De longe desejei que o estrangeiro voltasse,
tirasse suas botas pesadas,
deitasse suas armas fora.  
De longe me fantasiei de noiva,
entrei perpetuada, cheirando a flor,
na história que me contei amanciada.
O barco não regressou.
Cartas não chegaram ao destino do Himalaia.
O cão ladrou de medo na Argentina.
E o espanto rugiu apertando de sede
a garganta na Austrália.
Dizem que o estrangeiro vive no Mar como um velho lobo,
pouco visita o firme.
Fluída de minhas águas sem ter deságuo
águo minhas vestes de baixo
e faço de meu corpo minha atração única, em pelo, em fêmea,
efêmera.

Patrícia Porto

Henri Cartier Bresson