quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

"A Mulher do Porto" & "Basta de Poesia!"



A MULHER DO PORTO.
(Para o Mesac)

Sou uma mulher à toa
À toa das carnes que salgam o mistério da Islândia
de meia calça na luz de abajur brincando de escrevinhações,
bebendo doses de sereno sem medir a culpa dos avisos de não entre,
escavando abismos, fendas e os vácuos entre o meu e o seu.
Uma mulher à toa, rasgando vestidos e versos de lua,
escrevendo na areia o segredo do mar:
o nome do marinheiro que esteve aqui em meus quartos
de dormir acesa no terceiro tempo: nós.  
À toda atuo como a velha soberana dos sonhos,
ouvindo o meu amor me chamar...  
Vai que o amor sossegue qualquer projeto de extinção
da espécie da dez-razão.
Se esse amor me chamar  
vai que desconcretizo a estrutura,
folgada, mulher à toa de vez,
nele abastecida de mim, me encontrando às avessas,
versando incredulidades.
Amando mais - que mereço.

Patricia Porto


BASTA JÁ DE POESIA!
(Para a Patrícia)

Basta já de poesia!
Careço sua mão em mim,
Sua mão comigo,
Sua mão na minha.
Os dedos bem juntinhos,
Doloridos de tanto entrelaço,
Suados de tanto querer.
Por isso, basta de poesia!
Careço suas pernas nas minhas,
Suas pernas abertas às minhas,
Suas pernas abraçadas às minhas,
Os músculos quentes colados,
Aderidos, misturados,
Esvaindo-se de tanta exaustão.
Basta já de poesia!
Careço seus pés,
Seu tornozelo,
O espaço macio detrás do joelho,
E... o bico dos seios.
O pescoço, o colo, os cabelos miúdos da nuca, a saliva, a língua, a boca.
Careço aquela que quando se abre em charco, em vida, em mar,
A poesia se cala,
Nem precisa mandar.

Mesac Silveira