quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Aquário


Osiris by Ken Wong


o amor amadurece lentamente
entre muitas distrações

sua natureza é lentidão pacífica,
hora derramada na porta
de entrar,

uma fotografia de outro século,
um espinho guardado na pele,
as pajelanças todas
entre todos os ritos,
rituais, ressonâncias dos dedos
engatinhando no tempo

tem um gosto de figo,
estranhamento de sabor diverso,
e amadurece no escuro, semeando:

se me amas, se me amas
amadureço flores de estação,
vidros de aquário,
chuva ácida

se tua mente me ama,
se tua escolha me ama,
eu me disperso balão
e me arremesso de sopro
ao ar

sem pensar.
sou peixe

e o amor envidraçando
tanta beleza
amadurece


Patrícia Porto

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

no talo

John Brockington 


o meu corpo avulso
já não dá conta das tuas viagens

encerro nele o meu desejo de partir

dê-me asas e um punhado de paz,
dê-me pés e um passo à deriva

a frente do pelotão por onde voas
é passado, planando
sossega desanuviado,
abre o verso com as mãos
e come o que é teu por pedaço

partidas, não me segues

dê-me asas
para qualquer cartilha de não-entrega

Patrícia Porto

domingo, 28 de dezembro de 2014

A Balada


Monica Barengo



O meu olhar te embala.
Estou tão consumida.
As cenas se desfazem
e a chuva agora é má.
Molhou o meu desenho,
desfez o construído.
Lembranças do arco-íris
no doce - minha íris que embala.


Patrícia Porto

Velocino

Yuko Rabbit


O poema que espere!
As roupas estão no varal.
O poema que se espera
fica assim na garganta: fiodevoz
se afunilando.

Quer é língua,
descer no fio,
morrer, viver nessa: voz

Ser o fio
equilibrista de dorso.
O menino que espere!
Tem essa dor pra ninar.
Essa pedra batendo
uma sonata de rio.
Uma convergência de som
no meio fio.
Via medo de ser
não foi, não quis,
ficou.
Era mulher

(que espere)

.
  
Patrícia Porto


segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Vista de perto





Minha ilha tem duas serpentes,
por isso tenho um pacto incomunicável com as horas.
O tempo é sempre vantajoso,
se regala feito um Dionisio
e me abre as coxas em fruta
ao me deixar mulher cíclica,
transformada agora em material estético de jardim
- essa jardinagem secreta de território.
O tempo vagaroso lambe meus botões
e eu os esmago.


Patrícia Porto 

domingo, 21 de dezembro de 2014

Florez





Não perder a ternura é um método.
O método ainda é viver e se não há imagem
o imaginário inventa a flor, cria seu cheiro,
absorve seu nome como um plural.
Simultânea é sempre a invenção.


Patrícia Porto


sábado, 20 de dezembro de 2014

Mais pesado que o ar

Alina Sibera 


Um cão late para o meu silêncio.
Nenhuma aventura extrema antecede o que vejo do espelho,
nenhum volume é tão alto, tão extremoso
que o de confundir a própria identidade
e ao confundir-se com o algoz,
amar o bruto do sentido
e tentar alcançar as folhas  
à revoada.

Patrícia Porto

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

O outro ouvido





O corpo,
um elástico que se equilibra
fantasmagoricamente
numa alegoria
dentro da dança embalada.

Nesses sons
há poemas sobre palavras rudes,
poemas sobre uma noite em Abacã.
Alguns denotam ruídos
contra a esfera do conciso,
os versos calculados a pauladas,
cortados em mil pedaços,
repartidos na mesa entre porcelanas,
amarrados feito bem casados,
monticulados na prensa,
apertados na cabeça
ou feito amarras nos testículos
da máquina de torcer um touro.

Dali o poema sem tormentas,
sem barulho do bicho na água fervente
não geme entre as paredes
não pisca não coa,
não atrapalha o curso firme
das mãos de corte do tempo da fábrica.

O poema desparafusado,
torto na sua proposta,
estrangula-se com o cinto do perdão
e atravessa os opacos na lentidão sôfrega
da mais absurda, bárbara, mais descarada,
mais barulhenta vontade de mar
cortando os barcos, atracados,
com seus lábios grandes.

Patrícia Porto






quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Por que afirmas?


Rudolf Ronvie.



Passou horas subtraindo as casas anteriores:
Bem me quer, mal me quer, coisas de azar...

O veludo lhe conforta os dedos.
Mal me quer também é a da ordem do desejo.
Fecha as escotilhas, deixa o arpão escapar...
Acena ao marinheiro uma vontade de terra firme:

O sal desce a garganta, tão íntimo,
em outras palavras piratas.

Adeus, uma das mais bonitas para a bandeira.



Patrícia Porto

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

A menina que comeu estrelas




Declinei-me a escrever um poema
sobre a palavra LUNETA.
Se eu fosse aquela menina da varanda...
O poema poderia começar assim.
Eu desejaria ter uma luneta.
Não. Eu desejaria ser uma luneta.
Através do meu corpo engoliria estrelas
e me uniria ampliada ao universo
- transfigurada.

Melhor:
Comeu estrelas.
Fim.

Patrícia Porto

das horas quietas

Michael Reedy 


Hoje lembrei de meu amigo morto,
chamei seu nome para me certificar de sua vida
ainda em chama, acesa, um farol na lua deserta,
uma saudade de mar,
essa salina que me habita
quando jogo flores em mim.

Patrícia Porto

O tempo da casa

by Vo Anh Kiet

Havia o tempo do guardado.
Pó virando notícia,
memória de relógio quebrado.
O tempo dentro do maquinário
corroendo as engrenagens,
colocando seus ovos,
fazendo de ninho o inusitado.
Acervo das horas que nascem
entre o ponteiro parado
e a dança silenciosa
que nunca cessa
nem descansa.


Patrícia Porto 

Pra rasgar.


Acho interessante esse estado da escrita,
a estranheza de se levantar em punho
rasgando um espaço
sem permissão.

E vou morrer sem entender a concepção do poema
por encomenda,
aquele que parede de dizer tudo
e no vazio da casa nos deixa
com uma pílula que nos acomete de previsibilidades e raspões.

Patrícia Porto

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Pausa para atonais

Cidade Verde,  Bernard Caelen

Ele disse que vinha.
Arrumei a desordem da vida,
coloquei flores na varanda,
varri velhos fantasmas,
forrei retratos antigos.

Com um pouco de sorte
ele perceberá meu simbolismo,
minha presença
- no perfume do simples
que guardei em vidrinhos.

Com um pouco de sorte
ele vai me sentir
com todas as dissonâncias
em liberdade.

Para esperá-lo
vou tomar um chá com canela
- delicadamente,
gole a gole.

Não tenho mais rima para apressar...
Sou dona do meu nariz,
essa peça de riso cênico.

Vou colocar açúcar na janela,
a janela dentro da xícara
que bebo bem devagar.

Com um pouco sorte
ele pausa (...) aqui.

Patrícia Porto

Um Brinde à Poesia: Patrícia Porto


Diversos e Afins

Meus poemas na Revista "Diversos e Afins". Segue o link:


http://diversosafins.com.br/?p=8622

domingo, 7 de dezembro de 2014

"O Ciúme" e Sobre o tempo de perder.






Sobre o tempo de perder. Quando os silêncios do abandono dialogam.
 (Fragmento do meu livro "Narrativas Memorialísticas...")

 The art of losing isn't hard to master; 
so many things seem filled with the intent to be lost that their loss is no disaster.
  (“One Art”, Elizabeth Bishop)

David Allan Brandt

          As pessoas perdem diariamente: neurônios, células, cabelos, unhas, papéis, bilhetes, máscaras, memórias... Perdas banalizadas no amontoar das agendas que remontam tão pouco o contar dos danos absolvidos. Um dia perdemos as chaves de casa e nos pegamos com aquela sensação estranha de ter inaugurado, sem querer ou esperar, uma avalanche ininterrupta de perdas cotidianas: lá se vão os documentos, a hora do almoço e a hora de dormir, a hora de brincar com os filhos, de ligar pra amiga que está de cama com febre, de escrever um bilhetinho de amor pra pendurar na geladeira. Com a geladeira vazia por fora e por dentro, perdemos a alquimia de preparar nosso alimento, perdendo também a mesa e a conversa na varanda, na sala, no quarto. Conversaremos com banheiros, apertados de preferência, solitárias testemunhas das nossas ansiedades claustrofóbicas. E a passos rápidos perderemos um dia a e-terna-idade do chá que nunca marcaremos. Porque teremos passado anos a fio, ferro, fogo e açoite, perdendo um tempo danado investindo toda quantia recebida no final do mês nos pagamentos do começo do mês: para os bancos, para os impostos, para as contas a penar. E quantas a-pesar! E paranóicos trataremos de fazer cópias das chaves, das fotos, dos documentos, dos corpos com os quais deitamos. E nos preocuparemos em ganhar mais dinheiro para não nos preocuparmos em perder tanto dinheiro. E esqueceremos tudo que for de constrangimento com o tempo futuro para repetirmos tudo de novo e não pensando em nada, nada criarmos a respeito... Pequenas perdas visíveis se atrelam a um tempo imediato: “aquele” que não se quer perder, mas já perdido está: estamos sem tempo! E é claro que nos denunciaremos de quando em quando, lembrando uma, duas perdas, ou melhor, esquecimentos...nossos. Uma humanidade inteira de esquecimentos. Uma História inteira.
             E é certo que perderemos ao longo da vida bens de um mundo concreto e excessivamente real, perdendo objetos, coisas que se gastam pelo uso e até pelo bom ou mau abuso: brinquedos, cartões, cartas (se os enviarmos e recebermos algum dia, é claro), perderemos bugigangas, bibelôs, meias, livros, luvas, guarda-chuvas... Guarda-chuvas... Em algum lugar, no mundo do excessivamente imaginado, deverá existir um reino de afeto para os guarda-chuvas perdidos, esquecidos nos bancos das praças, nos lugares a ermo, nas calçadas, nos chafariz tomando banho, nos sinais equilibrando malabares.
          Um dia acordaremos velhos e teremos perdido o primeiro amor... E como será difícil perder! Dor no peito, sofreguidão que parece eternizar as horas, os minutos longe do ser adorado. E logo aprenderemos que doer não é somente parte do crescimento. Doer é o próprio crescimento e aprenderemos – às vezes no susto - que dói mais perder pessoas que coisas e que pessoas não são coisas. Não servem para qualquer tipo de uso ou abuso. Uma aprendizagem que para alguns começará muito cedo, até mesmo antes do nascer da vida ou do dia. Mas que para outros começará tão assustadoramente tarde que mal haverá tempo desprendido para a descoberta de uma compreensão mais profunda de mundo.
            Dizem os mais antigos que algumas pessoas nasceriam com maior propensão a perdas que outras. Seria uma questão de destino, estrela, sorte ou devaneio de quem diz: nasceu “voltado” pra lua. O certo mesmo é que ninguém, nenhuma pessoa humana passará pela própria vida sem nunca perder algo ou alguém – seja por destino, livre arbítrio, resignação ou desejo. A gravidade, bem, a gravidade só saberá quem viver e quem viver viverá. Existem conjunturas as mais diversas e até algumas esquizofrênicas. Às vezes se chega ao auge, ao topo da montanha, da colina ou de uma escada, quando, de repente, sem que se noticie, lá no esconderijo do sótão se encontra em estado escondido uma perda imensa que se aloja na mente e no coração sem qualquer justificativa, ocupando espaço demais. É um imprevisto de existir. Vive-se então o conflito de uma felicidade vazia. Como quando entramos nos casarões antigos, bem mobiliados, limpos e nos cantos nos deparamos com ratoeiras à espreita querendo ferir a frágil existência do rato, o rato de Clarice.
            E não será também o rato que se espera prender e amordaçar com medo e vingança parte de uma perda ulterior? Tanto ódio sangrará o rato? Matará o rato? O cadáver do rato quebrará nossos espelhos? Ou serão nossos os dedos presos e decepados pelas ratoeiras? Mas dizem também os antigos que quando se vão os anéis, os dedos, esses ficam. Os dedos que vamos perdendo das mãos. Para que mãos se elas não nos servem para o artesanato de afagos, preces e acenos?
            Assim como é dito no belo poema de Elisabeth Bishop há uma arte de perder: perderemos cidades, rios, continentes inteiros. Perderemos o sotaque e a gente que morava com a gente, a gente que reconhecia a gente na rua, a gente que abraçava a gente por nada, de graça: nas brincadeiras de roda, nos encontros entre amigos. Perderemos e não daremos conta do risco e do riso. Se uma alegria é uma ação única e irrecuperável, a memória, mesmo a dessa esfumaçada alegria, é nada mais que o vestígio, a pétala seca do que um dia foi vivido.
           Não precisamos de tantos acúmulos. Imprecisamos. E as perdas fazem parte do que somos. Há perdas precisas e até preciosas – como lágrimas, sorrisos, a separação decorrente da liberdade de quem se ama, o crescimento absurdo dos filhos, os frutos que amadurecem e as nossas raízes, que quase sempre tortas, depois de viverem todas as suas estações se vão para o dentro delas. São perdas, partos, despedidas que trazem à tona o nosso departamento interno de “perdidos e achados”.
            Perdemos chaves, óculos, carteira, o trem fantasmagórico das coisas, um porão de lembranças e urgências para as traças. E se o mundo for mesmo acabar pelo aviltamento dos corações como professou Baudelaire, talvez possamos ainda nos empenhar um pouco mais no zelo de nossas mãos para além da arquitetura das lutas e das ratoeiras. Dedilhar os dedos de outras mãos, quem sabe... atravessando a rua e o tempo.

Patrícia Porto

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Sátira

SHI Yuling 

Que pai seria este:
macho e branco... O meu?
Um pai que pune o corpo,
que bate e tudo queima?
Sim, um deus que me assusta
com sua barba de homem e sua cinta na mão.
Ralhando do alto de sua majestade:
não herdarás, não comerás, não matarás...
(eco de maçãs)

Por isso me esforço para sair desse antagonismo
e do fio que desejo cortado.
E sigo me esforçando para não acreditar
que a vida não passa de uma piada de mau gosto
que me deixará sem graça ao final.

Patrícia Porto

domingo, 30 de novembro de 2014

Casa de águas


Esse inseto na flor
na água-de-flor-de-laranjeira-azeda,
na flor de pimenta de cheiro
é pele, pluma leve,
levo no peito um deserto, um respiro
e
certezas de beber nas fendas, nas ranhuras
das pedras pelas manhãs,
um novo espaço inteiro.

Na dose da flor mais fruto,
mais fluída verte líquida,
molhando a boca do tempo em espiral.

Saudade é um vulto misterioso
que no corpo - transmuta e deseja
ser apenas o-que-é:
- breve ou longa,
cedo ou tarde,
o fundo e o raso,
o ser imensa
Andar perdida de aventuras...
Nesse reverso morar.

E o amor
na casa de passarinheiro
é um quintal de açucenas
livres.

Na intensidade acesa:
é água marinha,
água brotando
fluxo pro mar
- espuma é espanto.

Em brincadeira de riso
lama de rio é alma de gente
que tudo inventa.

No dentro um arrepio,
uma terra que não cessa
de ser esse doído de delicados na renda.

Vou pro tambor ver o fogo.
Vou dançar todas as dores
até o sempre. Até esgotar a morte na saia -
- porque sou vento. E rodopio...

O amor,
minha casa de águas,
me acena e vai...
E sempre retorna brincante
-  pra me contar sobre esse giro,
a poeira celeste...
o menino correndo na temperança da vida
no tempo da flor...na flor aberta...em flor-senti(n)do

Patrícia Porto

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Decantada


Joan Miró, Blue III


A noite caiu como um beijo.
A razão? Pro brejo do sossego.
Da minha janela
um Largo Azul, um desejo:
atravessar o Mar
a nado, por nada.
Por nada?
Que nada!
Está tudo dentro,
basta você acessar.

Patrícia Porto

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Das impermanências.




Partituras no asfalto - Bel Pedrosa  



Umbigo de ambíguo
é o diverso.
Se o plural de inefável
faz um barulho imenso,
escutar a voz do mundo
nos tímpanos.

Patricia Porto

sábado, 22 de novembro de 2014

A rinha

Lana Šlezić



Eu tenho uma memória,
mas ela é natimorta.
Uma memória esvaziada
do quintal de meu pai, uma talvez
de não tão verídica, se morta.
Mas lembro da rinha de galos
e de como aqueles bichos se sangravam até a morte,
invisíveis na noite dos cativos.
Meus dez anos eram ralos e estranhos.
Eu era a estrangeira andando de infância
pelo quintal de meu pai médico, de jaleco branco...
Os bichos sangrando até a morte:
Era rinha para muito eco no peito,
nos apagamentos de minhas ruínas.
Essa rosa despedaçada.

Patrícia Porto

domingo, 16 de novembro de 2014

Gatejando


Bernard Kliban

A gota
que brinca na queda,
quando cai ao chão
ao invés de fim e corte,
pousa de chuva malandra
afinada com a morte.

E um gato brincando na poça
sete vidas tem.


Patrícia Porto

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Como inventar um poeta

(Pensando em Manuel Bandeira)




Inventar um poeta é dose diária de loucura e de agonia.
Aos poetas menores, a maior sabedoria:
o tempo e o gosto. O gosto mascado da história. Ficando gasta a língua.
Ficando gasta de tanto uso.
Lá onde a vírgula faz o vento e a palavra poesia é uma menina vestida de chita
girando no quintal de suas paragens, sedenta de memórias...
Lá onde tudo: poesia, menina, memória - é puro delírio, imagem e invenção.

Patrícia Porto

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Uma palavra


Martin Dobes


Palavra pra mim é festa,
é folguedo na praça, sujinha de terra,
deitada no barro, se desfazendo toda,
se fazendo toda, rolando terreiro.
No corpo da alma palavra faz tempo, um som, sustenido que gira mole no ar.
Palavra no corpo que a gente recebe é a imagem da rua.
Uma casa, uma benção, a rezadeira na porta com seus unguentos.
Uma fonte, sina, sinal de milagreiros e coletivos passando...


Patrícia Porto

A gramática.

Matjaz Krivic



A língua, coitada, foi levada pro abate.
De lá a cortaram em mil, milhões de partículas,
subdividida, ficou lá acesa como centelhas e lanternas pelo mundo.
Em cada canto novo, agora pequena em fragmento,
a língua criava uma nova calda.
De lagartixa ou chocolate. Da preverência do falês. 
Mas não necessariamente nessa desordem.


Patrícia Porto

Um sério




Namoramos por quatro semanas ou mais. Todo dia a gente brincava. Ia pra rua. Dançava, dançava... A gente brincava de ser gente, de ser boneco. Ele dizia "estou muito feliz". E a gente brincava de ser criança. Era de novo, de novo de novo. A gente se perdia de risada, se escangalhava no corpo de rir, fazia tempo na cama, na rua, pelo mundo rodando. Mas num dia de muito siso, ele chegou de um repente e disse: "ah, não dá pra viver assim não, menina, com essa alegria sem hora, esse viver brincando junto o tempo todo. Não posso. Não dá. Amor não é isso não. Amor é coisa séria na vida". Final da história. Ele escolheu uma moça pra continuar batendo um sério. Soube que anda batendo um sério até hoje. Eu? Rindo.


Patricia Porto

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Texto




A aranha sabe.
A teia não faz cadeado.
A aranha na forma
diz forma
por uma lua que prateia
no sentido que a diz persa.

Tapete de texturas,
mandalas,
pele, língua,
significâncias
- signos, sílabas,
volume, dialetos,
muitas em uma,
uma em todas
- luxúrias do tecido.

Patrícia Porto

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

...



Esse corpo
de amor...
Desintegrado.

Dente de Leão
pego de surpresa - uma caça,
partido em mil pedaços.

Entregues ao vento,
ambos desorientados,
diminuto tormento.

Chorando quietinho
Cada qual, um caminho,
cada qual, sem lugar, um lugar.
Cada um, sem amar.


Felipe Machado

terça-feira, 4 de novembro de 2014

Lírica

Peter Przybille


Foi um simples poemeto de amor no papel, singelezas.
Eu que queria estrelas, luas, festas de luz...um amor.
Levei meus olhos e sim, lavei meu corpo, minhas coxas...
Inteira de meus sentidos partilhados, cacos e poentes deixei.
Passei ao lado dele, tão antecipada, perfumada de flores,
Esquecida, terra nômade, a nua despejando solos, itinerários. E era uma sinfonia. Não o vi.

Patrícia Porto

Agulhas

Mick Lindberg



Para o livre
a palavra é galope
na garganta desfixada.

Se o teto é pouco,
melhor a viagem,
o teto da estrela,
a boca do céu.

Hologramas e imagens
- ecos - de imaginação:
raros (restos) mortais
do ar(bítrio)
- são esses rumores mundanos
- mostrando nossa face-à- face
- gentilmente -
às margens.
.


Patrícia Porto

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Cantiga para Ânima


David Galstyan


Os dias que não te vejo a cama arde.
Os dias dos aflitos, dos famintos, dos mortos
são os meus dias de pertencer.
Eu me embriago de luas.
Quando tudo é o entorno visto uma saia de dedos,
refém do que em mim obscenas.
Quem sabe...
Sou esse cão ao teu lado.
E ainda ardo febril.
Sou a que coleta os ossos
e à tarde sou caminho.
Viajo trilhas cansando do amor,
debruçada nos troncos,
esquecendo meus companheiros.
A pedra é minha amiga,
nela encosto minha alma,
minha dispersão.
Sem lar, anônima,
me abasteço de histórias outras,
me alimento de antigos,
dou voz aos lobos,
minha língua aos morcegos.
E minha cama arde.


Patrícia Porto

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

de cashmere e sabre

© Francesca Woodman


de cashmere e sabre

Tecido de cor
- cashmere violeta.
Nas mãos um sabre
ao invés de flores.
A vida, essa desatenta
- não lhe deu pareia,
só tapera.
A noite, tacanha,
ganhou dela terço,
palavras ao vento:
“vou rezar por ti”.
Dobrou o tecido em dois,
jogou pedras na cruz
e desalinhou.
Por desbunde
vive a demérita.
Poindo coisas do não-coser.

Patricia Porto

de cashmere e sabre


© Diane Arbus

de cashmere e sabre

Tecido de cor
- cashmere violeta.
Nas mãos um sabre
ao invés de flores.
A vida, essa desatenta
- não lhe deu pareia,
só tapera.
A noite, tacanha,
ganhou dela terço,
palavras ao vento:
“vou rezar por ti”.
Dobrou o tecido em dois,
jogou pedras na cruz
e desalinhou.
Por desbunde
vive a demérita.
Poindo coisas do não-coser. 

Patrícia Porto  

Moldura

Francesca Woodman



Por trás do espelho
No rascunho da casa
Uma nota silenciosa:



Patrícia Porto

domingo, 19 de outubro de 2014

É o que temos para hoje.


Henri Cartier-Bresson



Há dias de delírio e dias de tumulto no coração
- uma luxúria impiedosa: viver.
Há esses dias de exílio e dias nanicos, de intenso marasmo
- essa vida atirando no ouvido esses dias de convulsão. 
Há essa mulher na rua pedindo abrigo,
tudo nela foi gastura, dias de poemas em eco insistente. Não vou. Estou indo.
Há dias de algodão e dias de chumbo.
Dias de quarto vago, de absurdos, vazio 
- uma tontura da existência: ter que partir.
Voltar e contornar a ilha
em dias inconstantes de suspense,
encontrar um cerco, cercar de muros a palavra, cercar-se de palavras.
Há dias de secar a palavra feito carne de sol.
Há os dias em que tudo é charco
e dias que só nos cabe renascer.


Patricia Porto


sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Funâmbula

Hengki Lee


Verso que sai do emaranhado e vai ao cintilante.
Uma aventura póstuma em exercício de luto.
Esse poema deitado de hojes, escasso
de não-me-toques
: um tête-à-tête
Do Navegante ao caminhante
(sem palavras presas)
uma cidade inteira,
um gesto inteiro, sem medir, sem cálculo.
Fiel ao que desnuda, ao que translinha,
se oculta na manga sem sabotagem.
Dança recusas, promessas, precipitações
de cordas bambas.
Aprecia quedas, lampeja saltos.


Patrícia Porto

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Terça Nobre no Teatro Municipal de Niterói: Patricia Porto convida Maria Helena Latini

Divulgação e convite aos amigos.


No dia 07 de outubro, 19 horas, eu estarei no Teatro Municipal de Niterói na "Terça Nobre" na Roda de Novos Poetas, convidando a amiga e poeta, uma referência pra mim, a querida Maria Helena Latini. O evento é gratuito com distribuição de 80 senhas 30 minutos antes. Será a primeira vez do Livro "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos", que já começa muito bem.


domingo, 28 de setembro de 2014

leitura do chá

Jeri Silverman 


sonhos de passagem,
folhas da matriz secular
preservam a beleza
da escuridão,

as luzes da escuridão
são como adagas no ar
- escritas no fundo da xícara
de camellia

(uma cerimônia)


Patricia Porto

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

a muda






Uma poesia ingrata reside aqui. É minha pátria e minha ilha. As duas numa serpente, numa serpente que se move labirintica em busca de sua cabeça, a segunda. Os que têm dentes para podar seu domínio não conseguem morder sua calda ou arrancar seu miolo na flor.
Mastigam vazios, suponho, sem praticar da beleza um narciso sequer. Há flores de comer como ilhas de viver em trãnsito.
A ilha me devora os caules e eu ainda sou do gargalho, pois gordas são essas horas de êxtase com minha pátria travestida de poesia. Tenho alma e vivo trasmutações. E mais nela, alma, tenho corpo de território. Tenho corpo que goza solenemente feito um animal em seu estado natural. Sou do improviso, gozo e não maculo. Tenho sempre essa fome de direitos. E essa poesia vestida com minha rosa, sangrada na pele, nesse gargalho, a que me oferta de leite bom, me lambe os peitos, me atravessa os tombos, me água a pele, molha, cansa o bruto, golpeia a derme, me repatria com agulhas afiadas, uma cicatriz que pulsa, coça, corta, dói quando o tempo a muda. De rosa para púrpura. De rosa para serpente. Sem cura. A levo. muda.

Patícia Porto

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

A cena


A cena

Era grave o volume, uma voz de volta escudo,
a voz do abismo que trago bom dentro por fuligem,
faço voltas no ar, contorno de fumaça, essa cortina oculta

são poemas rasgados,
tatuados votos com o desagravo de ser eu esse mesmo ser a mesma,
essa voz de outro nome, essa palavra riscada por cima, traçada ninha

sofro de excêntricos,
experimentos de voz
na curva assento

Patricia Porto

Banquete

As carnes
expostas extremadas nas finas calhas
cabem umas noutras nas bordas linhas
desfronteiriças
fagocitadas
germinam

Patricia Porto

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Poema Animatopia por Patricia Porto



Animatopia

Porque era um corpo de imagens,
uma ciência fugaz, como a vida,
carregava sonhos e sopros que não cabiam fora de si.
Do si mesmo inventou a solidão,
Do si mesmo deu para falar
e entender uma nova linguagem,
a dos corpos não-domesticáveis
no corpo nu da poesia, uma cicatriz propositada.
Um corpo que se dobra à curvatura do espaço e tempo
que deu para saltar com os pés
as dobras do tempo, um labirinto.
Deu para ser o tempo dobrado sobre seu corpo.
Na solidão fabricada de novas memórias, seu desafio:
conhecer a anatomia desse novo animal
curvando-se ao espaço.
Amar esse animal  
e deixar-se avistar por Ele.

Terça Nobre no Teatro Municipal de Niterói: Patricia Porto convida Maria Helena Latini

Divulgação e convite aos amigos.

No dia 07 de outubro, 19 horas, eu estarei no Teatro Municipal de Niterói na "Terça Nobre" na Roda de Novos Poetas, convidando a amiga e poeta, uma referência pra mim, a querida Maria Helena Latini. O evento é gratuito com distribuição de 80 senhas 30 minutos antes. Será a primeira vez do Livro "Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos", que já começa muito bem. 



domingo, 21 de setembro de 2014

Abrindo a primavera: Lucilia Dowslley e Antologia "Um Brinde à Poesia"

            A primeira vez que vi Lucilia Dowslley foi como atriz na peça "Crônicas Pantagruélicas do Infame Rabelais", de Annamaria Nunes. Fiquei tão encantada com a peça que retornei uma outra vez, logo em seguida. Texto, cenário e atores extraordinários.
        Será um grande prazer e uma grande alegria retornar ao Teatro Municipal para ver Lucilia. Evoé!



"Dentro de um porão, uma poetisa se vê obrigada a escrever para ser libertar. Poesia, realidade e loucura, se mesclam confundindo-se entre o real e o surreal no Teatro Municipal em Niterói, terça, 23, às 19h. Em virtude das comemorações dos 15 anos do projeto "Um Brinde à Poesia" completos no dia 11 de junho, projetos especiais foram desenvolvidos e estão sendo apresentados ao longo deste ano.

Escrito por Vinicius Soares e contendo poemas de Lucília Dowslley, "Milagravas" é um texto que diz a simples e contundente verdade: toda palavra é um milagre, algo mágico que transforma quem as lê e ouve. Todo poeta, portanto, é um mágico, um mago, uma entidade que faz chorar e rir faz amar e enamorar, um alquimista que transforma as letras em oceanos misteriosos e profundos.

O texto foi escrito por meio de pesquisas poéticas, tendo como referências o livro "Milagrário Pessoal" de José Eduardo Agualusa e poemas de Fernando Pessoa e, como vertente principal, o poema "Louco" da própria Lucília Dowslley.

Com cinquenta minutos de duração, "Milagravas" narra a história de Lucília, uma mulher que está encerrada há anos em um porão por ser uma das últimas poetas que ainda escrevem. O tempo presente enfrenta uma crise: ninguém mais consegue escrever poemas ou histórias. A poesia, por vezes desprezada, retirou-se de cena, fazendo com que organizações clandestinas sequestrassem poetas para que as palavras voltassem a serem escritas.

O porão onde está a protagonista, se mescla com a loucura da mesma, fazendo com que o público se encontre num emaranhado de histórias, um mundo ávido de poesia e loucura.


"Milagravas", o monólogo que será encenado por Lucília Dowslley é um dos projetos que nos brinda com mais poesia. Na verdade, tem algo mais especial ainda. A jornalista, fotógrafa, poeta e atriz se desafiou a pisar no palco do Teatro Municipal de Niterói por sentir falta de trabalhar como atriz. A peça mais recente que atuou foi "Cabaret Wild", Salomé, de Oscar Wild, dirigida por Marcelo Aquino e apresentada no Solar de Botafogo, em 2010.

Lucília fez o Anjo da Morte e teve a liberdade de inserir poemas de sua autoria no espetáculo, incentivada pelo diretor. Mas Lucília tem história no histórico teatro de Niterói. Em 1997, no início de sua carreira, ela atuou com cinco personagens na peça "Crônicas Pantagruélicas do Infame Rabelais", de Annamaria Nunes. Com um inusitado personagem ela tirou gargalhadas da plateia e foi aplaudida em cena aberta várias vezes.

No fim da noite, haverá uma apresentação dos músicos e compositores parceiros de Lucília Dowslley Cayê Milfont e Sergio Octaviano, com a participação da atriz Carla Soares interpretando Fernando Pessoa."

Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Vinicius Soares
Poesia: Lucília Dowslley
Atuação: Lucília Dowslley
Cenário e Figurino: Camila Scorcelli
Iluminação: Farley Mattos
Música: André Regal
Produção: Carla Soares Roteiro

Serviço
Lucília Dowslley | "Milagravas"
Data: Terça-feira, 23 de setembro de 2014
Horário: 19h

Duração mínima: 120 minutos
Entrada: Entrada franca (Colabore com o Abrigo ADONAI, trazendo 1kg de alimento não-perecível no dia da apresentação)
Classificação etária: 12 anos
Teatro Municipal de Niterói
Rua XV de Novembro 35, Centro
Tel: (21) 2620-1624

sábado, 20 de setembro de 2014

"Histórias do Mar" por Maria Helena Latini.


Imperdível! No Museu De Arqueologia de Itaipu (Mai)

Estarei lá para prestigiar mais uma obra da minha querida amiga Maria Helena Latini: "Histórias do Mar" (embaladas por músicas de Dorival Caymmi). Dia 24 de setembro, 17h30. Não deixem de ir. Esse espetáculo e essa primavera prometem.

*Recomendamos que o público chegue com meia hora de antecedência, pois só poderemos disponibilizar 50 lugares para a apresentação.



quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Sabático


Las manos de Louise Bourgeois 1911- 2010,
escultora y artista, nacida en Francia. Fotografía de Alex van Gelder, 2010.



Obsequioso desentranho
desentranho essa diligência
que é o decifra-me
e quando não socorro-me
espeto meu dedo mínimo com uma agulha.
Sim, estou vivo!
Atravesso minhas colheitas
com meus tempos amostra,
devo parecer ou padecer
de meu léxico amedrontado.
Sim, estou vivo!
Acumulo valores,
bestialmente acumulo valores
para girar ao redor desse homem,
clone de minha raça,
esse homem que come da minha mesma ração,
primo-irmão de meu paradoxo,
esse que me enfia a faca nas costas
quando me afasto para cochichar: "te amo".

Patricia Porto

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

De infinitos e fecundos




De infinitos e fecundos

  
Com quem dialogas?  
Teu vulto? Tua silhueta?
Com teu rosto nos olhos de uma outra?
Com a tua estátua? Com a tua escrita paralisada?
Com a tua mística?
Com as tuas pedras?
Com quem dialogas?
Com teus orixás? Teus símbolos?
Com teus arquétipos?
Com o teu Cristo na parede?
Com a casa de teus mistérios?
Com quem dialogas?
Com a tua fecundidade?
Com a tua escassez?
Com teu estranhamento?
Com a tua cultura?
Com o teu phatos?
Com o teu sexo?
Com a tua visão?
Com quem além de tu mesmo, em silêncio,
além do enfrentamento contigo mesmo, no barulho,
nu, cru, aberto às vísceras, visto fantasma
na tua incapacidade de ser para além-de-ti-com?
Como dialogas?

PatriciaPorto



terça-feira, 16 de setembro de 2014

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos




Dezembro, 31


Tem saída?

viu o tempo mudando, dançando,
rodando por dentro em serpente,
crescendo no ventre: serpente,
seu corpo: sentido e serpente
bem pressentiu presságios:
há alguma metafísica
no tempo da infecção?

escutou: ecos efêmeros
contra a própria vontade de ficar:
"toda a gente aqui é só, não sabia?"
e se o abraço da vida crescida é pouco
o corpo se fecha
o tempo é cozido
o corpo quer se assegurar:
“já posso dormir?”

escuto que há vozes por todos os lados
e há salvação e grandeza na arte
sussurros no ouvido, sonoros no tímpano...
“sim, meu bem, agora é tarde”,
 recarregue logo o seu amor.
A arte que salva...
é a que nos salva?
Onde então, por favor, fica a saída?
Alguma saída? Onde fica?

 Patricia Porto