quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

amor de mais mistérios...

Martin Stranka


o Misterioso do amar que leva esse poema é para intentos.
As náuseas da mulher que chora o intenso desse parto,
eu as partilho, porque partilho do tempo a necessidade de escorrer!
Dê-me ampulhetas, mãos pra segurar areia...
Entre meus dedos finos, meu caminho de estrelas diz:
Eu te quero o muito desse verso...
Em dias de saudades
eu sonho é contigo uma nova linguagem.
Que sonho é esse, meu amigo?
Divide o pão e o sol comigo.
O misterioso da paixão que queira
me sopra o ouvido... Um sopro bom do teu sensível.
Desfaz esse teu medo de abismo.
Tem tanta brisa e tanto espaço aqui nesse quarto de hora,
descansa no meu tempo escorrido o Amor e seus mistérios tantos. 

Patrícia Porto

Or fel

Or
Fel


A verdade se vem é nua
Estou
No ar
Noir
Se a verdade
existe
É uma e meia
Crua, fel iz
In

Dói
Sóis
Ardendo
Queimando a pele
A derme
Adorna o dia
Morrendo
a Oeste
West
Du elo
Dor elo
Novelho
Nó velho
Velhas
as Escrituras
Duras sempre as palavras
Nuas, sem Entrega ou beijo: atesta 
a mão de ferro de um tabelião.

Patrícia
Porto
& Sally Mann

A MISSA DO GALO E O CANTO DO BRUXO.




Conto epistolar feito em homenagem a Machado de Assis. Nogueira, personagem dA Missa do Galo, escreve ao Bruxo do Cosme Velho.

A MISSA DO GALO E O CANTO DO BRUXO


Rio de janeiro, 26 de dezembro de 1882.

Caríssimo amigo Machado,

                Escrevo-te para noticiar minhas recentes conquistas. Antecipo-te que me encontro em ótimo estado de saúde, gozando os melhores dias de minha juventude.
                Deves estar achando um tanto estranho esta minha carta, já que há muito tempo não te escrevia; mas não podes calcular as pressões e desafios que venho enfrentando nesta minha curta estada por estas redondezas. Acontecimentos que muito me põem em angustia. Não sei se estou a te enfadar com essas minhas perturbações e inseguranças, mas és o único e melhor amigo com o qual posso contar nessas circunstâncias tão temidas. Bem sei que posso estar a exagerar em meu infortúnio passageiro, aumentando demasiadamente minha necessidade de um conforto emocional.
                Quando deixei Mangaratiba, minha cidade natal, tive sonhos e aspirações sobre meu futuro. Não habitava em minha consciência pensamentos que não fossem os justos a minha capacidade de guiar meu próprio destino voluntariamente. Sempre tirei proveito de minhas ajuizadas ações. E apesar da pouca idade posso constatar com provas reais o que afirmo. Desde já me considero um homem adulto, portador de sentimentos que crescem, amadurecem e não se esgotam facilmente. Com isso, estou predisposto a suportar os mais duros obstáculos com toda a minha persistência.
                Caro amigo, creio que chegamos ao ponto crucial de toda minha atual inquietação. Desculpe-me se não pareço explícito e faço rodeios inúteis em minhas elaborações verbais, mas é que se torna extremamente árdua essa tarefa de expor minha intimidade. Sabes que sempre fui tímido e meticuloso quanto às minhas particularidades, ainda quanto ao uso das palavras. Palavras essas que se interpõem entre a minha racionalidade e a minha emoção. Agora mesmo, quando escrevo, sinto que dentro de mim reside uma batalha, um golpe de ar comprime meu peito, inquietando-me, sufocando-me. Meus dedos apertam a caneta sobre o papel e a tinta esgota-se rápido. Meu nervosismo é tanto que acabo por derrubar o tinteiro sobre a mesa, tendo que refazer-me em novas linhas.
              Deves estar curioso e também angustiado com a demora de explicações concisas. Pois bem, meu amigo, não hei de demorar mais que o devido, revelando-te agora o verdadeiro motivo desta missiva já num tempo distante.
            Chegando a esta cidade, por volta de meses atrás, obtive generosa guarita em casa de um parente que mal conhecia. Tratava-se do viúvo de minha prima Amélia, aquela de quem minha mãe guardava afeto e muita admiração. Até hoje me lembro de suas palavras: “Pessoa distinta a sua prima Amélia, meu filho. Mulher religiosa, de ótimo caráter. Quando eu tiver que partir para a outra morada, tenho a certeza que ela lhe servirá de grande ajuda.”
            Sábia era a minha mãe, meu amigo. A mais sábia entre as mulheres. Pena a fatalidade ter também nos levado, na mesma barca, a minha prima Amélia. No entanto, essas são tragédias que não nos competem o mero julgamento. Cuidemos nós das coisas terrenas, as que nos serão de melhor valia.
           Depois desses infortúnios e dos contratempos, eis que me encontro aqui, neste lar que tem por cabeça da família o meu meio primo e respeitado escrivão, o Senhor Menezes; e que, ao seu lado, eu diria sem pestanejar, caminha o coração desta família, a amável Conceição, a nova esposa do primo Menezes. Veja como rimam as palavras, meu amigo! Não há coincidência, mas sim identidade.
           Nestas poucas linhas que escrevo já podes compreender e concluir com tuas próprias ideias o que tem me tomado de assombro. Doravante tua leitura será mais concreta e menos desajustada. Conseguirás acompanhar meu temperamento intempestivo e a minha tentativa de dividir contigo este estado de delicadezas.
          Tendo eu que adiantar meus estudos e as minhas anotações, assim que fui apresentado por meu quase parente, o Senhor Menezes, às mulheres da casa, as senhoras Conceição e sua mãe Inácia, tratei de mostrar tão somente ser de meu interesse embrenhar-me no vasto enriquecimento intelectual. Tornei-me então um obcecado por Literatura. Não que não gostasse, mas tratei de sustentar a imagem de leitor voraz e conhecedor das artes mais diversas. Todos da casa passaram a me enxergar com bons olhos, fazendo de mim um belo exemplo de jovem. “Tão aplicado”. Diziam todos. “Tão diligente”. Certamente, em vezes que não posso contar, me vi tentado a ceder aos encantos hedonistas e aos prazeres da esbórnia. Mas não! Mantive-me fiel, firme ao meu propósito! Imagine, o amigo, que cheguei a recusar vários convites de meu primo Menezes para irmos juntos ao teatro e aos concertos. Balelas para as senhoras, pois já deves bem supor do que se tratava. Mantive-me firme nas minhas convicções arranjadas. E por vezes testemunhei as chegadas sorrateiras do primo, logo pelo raiar do dia, esquivando-se com ares suspeitos de ilícito e um típico andar de embriaguez.
              Uma figura, meu caro, este meu primo Menezes! Já se encontra com os pés entre a terra e o céu, tendo que se sustentar numa bengala para não andar aos tropeços, mas nem por isso deixa-se admitir como velho, que bem o é! Vive a dar palpites absurdos sobre a política nacional, chamando todos os que lutam pela República de tolos e inconsequentes. Tomara o Menezes nunca descobrir o meu engajamento político. Pois digo ao bom amigo que continuo na luta sem esmorecer. Espalho panfletos alarmistas sobre a revolução militar que está sendo especulada. E trato de encorajar-me nos sussurros da causa. Espero que também tenhas mantido a tua militância. Por aqui sigo incógnito, mas não sem defender minha pátria e os meus ideais.
                Senti por muitas vezes a vontade de me despir dessa máscara para lutar contra todas as blasfêmias e tolices que sou obrigado a escutar. E sinto dizer que também por vezes sou obrigado a fingir concordar, pois não me vejo em posição de provocar um conflito no justo momento que mais dependo da confiança desses meus parentes. Menezes está sempre a me fazer elogios e a declarar a todos minha integridade e responsabilidade com os estudos. Confesso que chego a envaidecer-me com tanta bajulação paternal, pesando em meu íntimo os segredos que carrego.
               A mulher idosa chama-se Inácia, a mãe da adorável Conceição. Esta é uma senhora enérgica nos seus quase setenta anos. Está sempre a rondar a casa, fazendo comentários sobre o serviço prestado por moças livres que, por vício, ainda insiste chamar por mucamas. E vive a discutir com o genro, interrogando-o sobre suas saídas noturnas. No mais é boa mãe, sempre preocupada com o andamento da rotina doméstica, bem como faz justiça ao que chamam moral e bons costumes. É austera, um pouco queixosa, mas não tanto quanto o próprio primo Menezes.
             Depois do resumido delineamento das personalidades de ambas as colunas desta casa, penso que seja impossível para ti ou qualquer um supor que entre essas torres rígidas, brilhe uma estrela, uma autêntica flor. Pois sim, meu amigo, esta bela dama é Conceição, a esposa de Menezes, este meu parente distante.
            Deves estar um pouco surpreso com minha sinceridade, mas não duvide da bondade desses meus sentimentos, pois são os mais profundos que um homem em seus melhores dias de graça, poderá orgulhar-se em sentir.
            Enquanto reflito sobre este assunto, uma ansiedade preenche-me o coração, horas boas e horas más correm contra o tempo. Então todo o meu ser se inflama, corroído de paixão. Poderia gritar, mas não devo. Tento fugir, mas não consigo. Tento esquecer, não consigo. Mesmo que eu queira já não impeço a adoração da imagem que ocupa minha mente e minhas lembranças recentes. Um fogo me consome, corre o meu corpo. Agora mesmo estou a sentir essa febre e meu rosto queima. Minha adorada Conceição! Minha Cassiopéia...
           Tenho feito tantos planos, todavia tenho receios de revelá-los, por me considerar ainda indefeso. Sabes como são as mulheres, sempre a nos surpreender...
           Apesar dos olhos serenos que combinam com seus trinta anos, conceição tem o frescor das rosas que se renovam sem despedida. Pena que a minha adorada também possua espinhos como suas outras irmãs, carregando dores e angustias. Quando ensimesmada parece transmitir certa amargura e até indiferença; porém, quando está distraída, a folhear um livro, seus olhos refletem alegria e correspondência. São dois espelhos a arrancar o meu rosto.
           Então, penso eu na minha casmurrice: o que devo fazer? Que atitude deveria tomar? Sinto que posso perder a minha razão. Não, não poderia. Mas também sou invadido por uma força que me enche de coragem. Eu poderia estrangular este velhaco que a maltrata e a prende nesta masmorra de convenções.
          Sobre os sentimentos de Conceição, tenho cá minhas dúvidas. Talvez por timidez e recato não se permita demonstrar o que realmente deseja. Talvez tema um escândalo familiar. Talvez por isso se isole no seu mundo silencioso. Talvez a figura da mãe a reprima ou ela simplesmente se deixe influenciar pelo marido que a ignora. São muitas as minhas confabulações. O que sei é que algo a impede de uma maior aproximação.
         Ontem mesmo, enquanto eu me preparava para ir à Missa do Galo, conceição apareceu como uma visão translúcida. Veio até a sala, onde eu aguardava o tempo passar, desfrutando de uma leve leitura. Ela estava simplesmente radiante, vestindo uma espécie de sobretudo diáfano por onde, com um pouco mais de ousadia, podia-se observar a combinação de tom mais claro de rosa que lhe cobria a pele perfeita. Causava delicadas meias e seus cabelos, pela primeira vez, estavam soltos, caindo por seus ombros. Em muito se distanciava das mulheres dos quadros, que se exibiam com certa luxuria. Conceição tinha a face de um anjo sagrado.
        Ficamos por algum tempo sentados a conversar trivialidades, porém os gestos de Conceição evidenciavam mais do que intencionava mostrar. Dobrando as pernas deixava aparecer as formas salientes dos joelhos em suaves contornos. Apoiando levemente a cabeça na cadeira deixava livre para os meus olhos os traços de seu pescoço esguio. Sua voz era de uma suavidade incriminadora, dessas que guardam mensagens subliminares.
         Morreria naquele momento aos pés de Conceição, meu amigo. Suplicaria por seu amor. Mas não! Contive-me! Era preciso sustentar todos aqueles apelos até ver chegada a hora da missa.
         Desde então, não tenho me ocupado de mais nada que não seja contemplar em minhas fantasias: cada palavra, o corpo, o rosto e o vulto da adorada Conceição. Até nos olhos do padre, nos semblantes dos fiéis, nas estátuas dos santos... Conceição estava e está em todos os lugares.
        Caríssimo amigo Machado, espero que possas compreender minhas curtas memórias, tentando aconselhar-me com a tua vasta experiência. Estejas certo que com qualquer pequeno auxílio teu, pequeno que seja, ser-te-ei eternamente grato.
         Agora me vejo obrigado a interromper nossa conversação, pois sinto que minha amada se aproxima. Continuarei a te informar sobre todos os meus passos futuros.

                                                                                                         Lembranças deste que muito te estima,
 Nogueira.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Toda maçã será comida.

Vadim Stein



A mulher que sou é um bicho tolo,
ama sem vícios,
sem recompensas,
sem garantias
ou avisos prévios.
A mulher, que eu sou - é um bicho tonto,
é um bicho doido.
Perdoai.


Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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