sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um Prefácio


Tudo que escrevo é autobiográfico e é autorretrato de uma artista nua,
Nua em carne, pele,  sexo, origem, latência...
A escrita são os meus ossos do ofício, os meus pulmões para os berros,
Minha linguagem secreta com a Arte, meus artifícios e queixumes,
Até porque sempre busco desabitar as coisas que me habitam,
As tralhas da minha casa interna.  Trago isso primeiro do inconsciente,
E trato de entornar tudo até poder tomar o que foi escrito como as consciências do dito,
Mas nas consciências já sou a outra, a que corrige, corta, aponta a coesão e faz coação com requintes de carrasca... Já não gosto tanto desta e prefiro sempre a primeira, a que se joga no abismo por desequilíbrio, a bamba da corda ou a tonta.  
Penso que não há qualquer segurança para quem escreve.  A escrita é muito mais ruidosa e arriscada que os temas da vaidade.  Eu, particularmente, gosto do defeituoso e quanto mais defeituoso for o trajeto melhor será o meu encontro com o que eu leio do escrito.  O sublime está neste fraturar do tecido, no rude dos pontos, assim como o seu grotesco pode ser o belo do versar. Um grito é um defeito? Um choro, um defeito? As fragilidades do humano? As fraquezas são defeitos. E que sejam, porque nos tornam menos fantasmas do que já foi vivido.  As memórias do imperfeito dão convicção ao movimento.
Eu habito essa casa-escrita, mas sempre de malas prontas para partir para outra habitação, e assim vou construindo novas arquiteturas e me desvencilhando dos casulos, sempre tão confortáveis. Não me ofereço para ser o fantasma dos meus próprios poemas; dos quais me despeço com certa parcimônia, com uma boa dose de constrangimento, a necessária do Advir. A mobilidade é que sempre me chama para o salto seguinte e se a reminiscência me provoca, eu a levo junto para um novo experimento de salto.
Não me preocupo em ser uma pessoa que escreve com reconhecimento em círculos literários, porque os círculos que me fascinam são outros: bacias, mandalas, todas as formas redondas e a circularidade das palavras, essa tarefa de ser mãe das próprias ideias. E parir indiscriminadamente sem permitir que me rotulem em algum ponto periférico-circular entre os que muito falam.
A escrita, se me defino nela, é Maior que o cálculo de viver. Os planos? Os projetos? A escrita é o antes do plano ou do projeto, porque antecede  o pronto da tipografia com seus consertos finais, é antes o porém, o entre, mais conectiva que substantiva a princípio. É o nada que nos liga, como o cordão que nos liga ao primeiro mundo. Depois vem o outro novo mundo e a certidão de nascimento. O substantivo. O verbo. O sujeito. O verbo.
Escrevo para que os outros leiam. Se a Vida nos bastasse, lembrando Fernando Pessoa, por que faríamos Arte? Fazemos Arte porque somos crianças ávidas pelo Amor. E nossa expressão requer a mesma paciência que as crianças exigem para as suas garatujas.  Tenham paciência com a leitura de toda escrita. Todas merecem respeito e afago. Aos que trabalham com margem de lucro, sim, a esses podem pedir explicações.
Escrevo enfim para não morrer de inanição ou não enlouquecer o outro que me vê ainda alguma qualidade. Não herdei nada, talvez nem genes; mas deixarei esses escritos como um legado de alguém que amou fazer parte desse mundo através da escrita. 

Patrícia Porto

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Bicho do Mato

Patricia Porto

Vó me chama, eu ouço...
Quero voltar pra esse dentro,
quero voltar pro teu mundo,
quero meu, teu colo sereno.
O mundo é tão feio daqui, é o demo!,
o mundo da cidade grande é grande no apedreja.
Eu com essa cara de fraca, com esse jeito de chute,
com essa roupa de chita, esses pés de chão sem sossego,
minha alma é tão a nordeste de tudo.
Eu que só fiz chorar desde que me vi sentada nessa fabricação de gente,
já inundei dois sertões, dois rios, dois lagos e um caminho.
E até aprendi essa língua, encolhi  meu sotaque,
vesti fantasia de minha mais alta miséria!
Mas não sou ninguém desses,  deles sou o só do invisível,
o pó da mesa,  o pó do miolo que cai, o que se varre.
Sem luz nem vela,  agarrei-me ao pé de minha santa,
pedi tanto a São Benedito, fiz tanta prece,
tanta promessa de juntar meu pé de meia.
Mas a cidade grande te sacode até moer,
enfraquece os ossos, te bate na cara e violenta: “Cai, peste!”
É um sem saída, é um sei, não sei, não vejo por onde se abre mais a porta, portinhola,
alçapões, e os desvios.
Parece até que perdi a hora de voltar, minha mãe.
Já nem sei mais se de onde sou sei onde fico. 
Sou Bicho do Mato. Do Mato! O mato que me come e dorme.
Eu assobio de medo, mas vocifero tinhosa, esse brocado é de destino.

Patrícia Porto

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A cidade do sol.



(Para Niterói)

Quero lhe falar hoje,
_ Veste-me. Sim, veste-me...
Estou aqui neste estado de crer e ver.
Veste-me então de cravos e borboletas amarelas,
cobre o meu corpo de faltas em excesso...

Por isso preciso ouvir
linguagens que antes nunca me foi dita.
Por isso, rompi silêncios e desertos humanos
para estar nesta cidade onde todos encontram todos
e apagam luzes
sem soturnos.

Veste em mim a fina seda,
o frio metal de existência
e o vasto da alma coletiva.
Podes me cobrir?

Pois sim. Quero lhe falar de hoje
para amanhecer em mim a plena,
vasta, crédula,
cheia de sol
para nesses tempos
seguir a conversar contigo
a vida adentro
falando sobre a passagem...
Só nesse Porto azul assim, algo íntimo entre nós.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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