quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Pra ontem!


           
           Mal atravesso a rua e vejo na esquina uma mãe falando aos berros com uma criança, um menino de cinco anos talvez. ”Disse pra você que tinha que fazer o dever de casa, não disse! Agora sua professora fala pra você que era pra ontem?!”  O que poderia existir de estranho numa mãe dando bronca em seu filho por não fazer o dever de casa? A meu ver, poderíamos começar questionando o papel do “dever de casa” para uma criança tão pequena.  Por isso vou pedir que rebobinem a fita. Claro, não temos mais fitas pra rebobinar. E a pergunta então coça: por que tanta pressa? Por que no final de período letivo encontramos uma criança pequena apavorada, uma mãe estressada e uma professora... Bem, a professora é “pra ontem”! Como a nossa educação brasileira que vem sendo fomentada ou para ontem ou para um amanhã que nunca chega de fato. Penso que o  pobre do futuro deva estar até corcunda de tanto peso que jogam pra ele.  
          Não consigo entender e muito menos aceitar esse tipo de método  que inclui e impõe responsabilidades extremas às crianças, e para crianças ainda tão pequenas.  Por que tão cedo? Ah, sim, é o “pra ontem”! Se ao cinco está assim, aos dez certamente estará tomando ansiolíticos com o consentimento e aplauso de toda gente. Aos treze será diagnosticado como bipolar por um sujeito que teoriza sobre o assunto, tomará antidepressivos, consumirá todos os outros tipos de drogas até chegar aos dezoito quando decidirá participar de um reality show de reabilitados para enfim se reintegrar à sociedade.  Tudo isso assim, num estalo de dedos: pra ontem!
               Vivemos no mundo das megacorporações, dos executivos de ponta, do empreendedorismo, do mercado competitivo e agressivo, do CEO’s. Disso sabemos. Mas pergunto de novo: quem ocupará esses lugares na grande cadeia alimentar da monstrópolis? Os nossos filhos e netos? Ou os meninos que estudaram desde a pré-escola nas escolas bilíngues, falam mandarim, fizeram MBA nas melhores universidades do ranking mundial?  Que ilusão é essa sorrateira, perversa, que faz pais zelosos jogarem seus filhos tão cedo e tão logo ao refugo dos seres que rastejam por sucesso? Não entendo e não aceito.
           Vejo meninos e meninas com dez, onze anos com agendas abarrotadas de afazeres. Estão deixando de viver suas infâncias e mal sabem o que é brincar pra valer.  Os pais exigentes pressionam seus filhos para os resultados, para a competição – quase sempre desigual.  Colocam na cabeça das crianças que elas precisam se tornar “sociáveis, vencedoras, pessoas bem sucedidas”.  O fracasso é a desordem do século XXI. Ser tímido já em si ser fracassado. Ser mediano nas notas significa um fracasso. Ser diferente é um caos completo.  Queremos uma juventude alta, atlética, bonita e bem sucedida.  E tudo o que não couber nesse pacote deverá ser descartado.  O padrão estético é uma das exigências dessa nova mentalidade.  É a ontogênese de plástico.  Os corpos devem ser esculpidos, feitos em blocos de produção de massinhas nas academias que se proliferam numa proporção diametralmente oposta ao número de bibliotecas, livrarias e espaços culturais. Uma monstrópolis mesmo, uma multidão sem cabeça.
              E aí chegamos a um paradoxo inevitável: como a multidão sem cabeça conseguirá gerar maior equilíbrio num mundo cada vez mais desequilibrado? E desequilibrado emocionalmente, apesar do abuso dos psicotrópicos. Em países mais desenvolvidos o número de suicídios cresce de forma alarmante entre os jovens.  A depressão será a grande doença vilã do fim de século. Mas será que paramos para imaginar como será a velhice dos centenários depressivos do século XXI? O homem viverá mais. Que homem? Pra quê? Como a ciência que aumenta anos de vida poderá sanar a ansiedade, o mal estar contemporâneo, o aumento da psicopatia, das insanidades cometidas por desvios emocionais mal resolvidos?
         Para pensar o ser humano na sua inteireza, holisticamente,  não poderemos ao mesmo tempo projetar essas cobaias de futuros promissores, de vencedores em tudo.  Não é apenas contraditório, é doente. É um sinal de doença dessa sociedade, de doença também de uma classe média achatada entre ser e ter, conseguir e não conseguir...  E ambicionar ser o melhor sem o meio termo, sem a média, não é em si uma garantia de topo.  Nem para quem está no topo da cadeia há garantia de topo.  Menos ainda para a classe média. Então... Por que tanta pressa? Por que formar para deformar?
         Outro dia vi uma cena que me chamou atenção. Uma mesa repleta de adolescentes numa lanchonete de shopping com seus smartphones. Ninguém conversava com ninguém, mas todos falavam coisas aleatórias, monossilábicas, de quando em quando, sem desgrudar os olhos de seus brinquedinhos. Disse isso, porque essa é uma cena que não chama mais a atenção de ninguém, ela se tornou lugar  tão comum que chega a ser boring. Não que os que os adultos também não façam a mesma coisa. Mas a questão que urge é que, bem sucedidos ou não, esses adolescentes serão os adultos da minha velhice.  Vai me dizer que você não se preocupa com a sua velhice? Eu me pré-ocupo com os adolescentes e me preocupo comigo, com o futuro que deles é meu, é nosso.
            Não sei aonde e como chegará essa nova modalidade de ser humano.  E entendo que saberemos dele cada vez menos ao pensar que sabemos cada vez mais. Quanto mais o dominarmos mais ele se esquivará para dentro de seu abismo particular, quanto mais o doutrinarmos para o sucesso mais ele se sentirá rejeitado, mal amado, mal integrado... Claro, estamos fazendo tudo que rege o método dos apressadinhos, menos o que rege a nossa intuição: amá-los, ficar mais com eles e ouvi-los. É porque amar não vem em bula, não é mesmo? Não há receita. E, por incrível que pareça, ainda não inventaram um método mais bem sucedido de chegar à felicidade.  
           A melhor pedagogia passa por aí e não me interessa conhecer os números, as estatísticas dos que se julgam donos da expertise pedagógica da vez.  Os números podem sempre ser torturados. Mas as crianças deveriam ser poupadas disso. Deveriam lhes devolver suas infâncias roubadas com horas e mais horas livres para não fazerem absolutamente nada. Porque o nada  é o gênesis, é onde a ideia germina, a ciência acontece, a poesia se mostra, a história se cria. O nada é muito.
              E “pra ontem”, professora, só o passado sem volta. E a vontade do hoje.



Patrícia Porto

Descanso

Henri-Cartier-Bresson


Não tenho mais tempo
para brincar de esconde e esconde.
Minhas pernas pedem cadeira
e desejo de carinho com pés no balanço.
Amor de nó e remanso. 
Quem não for ficar já se foi.
Uma lua azul com essa dama da noite...
Nem sinto passar... Só jazz.

Ah, e faz um tempo incrível lá fora!

Patrícia Porto

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Coisas

©Alejandro Arce ©Laura Trovò Carteleria y Fotos La suerte. 


Coisas
eu gosto das coisas assim como Manoel,
gosto de palavras e larvas,  
tenho dons de exatidão reversa,
me apaixono por pessoas e bichos, os de fora e dentro da casca,
mas as coisas que me fazem feliz são mínimas:
poemas, luzes de Natal, livros, santos,  amuletos,  pedrinhas coloridas,
sacolas de feira...
Que ideia é essa de mandar na sorte alheia?
Esses verbos imperativos da língua mãe que metem medo. 
Deixa o outro quieto no seu canto curando suas coisas, curtindo o tecido da linguagem,
deixa que ele escolha o tempo de se desvencilhar das coisas.
Deixa a inutilidade das coisas se formigarem até desmerecer saliva.
E quem quiser que vá consultar seu próprio umbigo na terra dos "indivíduos",
eu não monossílabo, eu me divido é com as coisas em muitas partes.

Patrícia Porto


A metacrônica.



Fui convidada, insistentemente, a ler uma crônica de uma moça que está sendo muito badalada na mídia. Como a apresentação e o enaltecimento eram grandes e chatos, fiz questão de fazer o jogo dos sete erros. Até porque quando se tem muitos fogos, sempre pode ser droga. E foi o que vi e li, uma droga. Uma droga de texto. Excessivo nas considerações, politicamente correto até dar náuseas. Mas a foto ao lado do texto nos embromava e quem muito vê cara não lê texto, pelo menos foi o que me pareceu, pelos comentários super-mega- hiper piegas que foram sendo deixados como procissão; inclusive li poucos, porque minha curiosidade por bizarrices tem limite. E li a tal crônica porque me indicaram muito, vou deixar aqui até no sujeito indeterminado, do tipo: “quebraram a janela”, “roubaram a fazenda” para não trollar a amizade.
O bom é que pude analisar alguns aspectos importantes da xaropada contemporânea que se derrama aos nossos sentidos. Não vou dar créditos, mas o texto era muito curto pra ser chamado sequer de crônica. Eu chamaria de “post” e já estaria muito bom! Ele passou longe, muitas léguas do que entendemos ser uma crônica  pela perspectiva do que é um texto com lógica, coesão, coerência, blá blá blá... Mas é que futebol, religião, educação, sexo e agora – texto,  depois do advento das redes sociais,  leva pitaco ou cutucada de todo mundo.   Acho que a ordem é essa mesma.  Futebol, religião, educação e sexo. Por aí... Talvez política entre uma coisa e outra.  Podemos até perguntar pra FIFA ou pra Fernanda Fifa ou Lima, coitada, envolvida num desses esculachos do ano. Estou fazendo minha lista dos dez maiores esculachos do ano, seguindo a tradição de Sérgio Porto. Mas dez é pouco, eu sei.
Vamos de deixar a prolixidade de lado e voltar ao “post” da moça. A moça muito bonita, já disse. Foto quase do tamanho do texto que o site importante chamava de crônica  ressaltando a inteligência do escrito. No meu jogo dos sete erros fui numa busca googlemaníaca atrás do nome com sobrenome da mocinha boa da história. Então encontrei o alto grau de seriedade de suas palavras, não seria pra menos. Claro que um sobrenome não deveria dizer tanta coisa, mas ainda estamos aqui, neste lugar paradisíaco, miscigenado, mixado onde tudo a partir de outubro é Carnaval. Estou até feliz porque 2014 vai ser só Carnaval com alguns feriados prolongados.  Nem vai ser preciso gastar dinheiro com roupa, é uma fantasia só para o ano todo. Vai até inflacionar o mercado de abadás.
Então.... Vestida já com o meu abadá... A moça e o texto. A moça com sobrenome pomposo. A moça e a foto. O texto é um “post”.  O texto é chamado pelo site “importante” de crônica.  Vamos fechando aqui os pontinhos. Infelizmente o que vai aparecer ao final de figura é um vaso de barro. Sempre podemos colocar flores e rezar pelo defunto. Nada impede.
E o fato deste meu desafeto todo é que fiquei bastante incomodada. Coisas da minha avó. Como aquela propaganda que me dá vontade de entrar na tela, como no filme neorrealista de Maurizio Nichetti e meter spray de pimenta na protagonista. Como alguém consegue fazer aquela expressão com uma toalhinha dentro das calcinhas, minha filha? Mas a moça da vitrine e a da propaganda são juntas a mesma moça da crônica que não é crônica. Inclusive as três vão dar notas no Lulu para os amigos e ex-namorados achando que estão realmente fazendo a grande revolução feminista contra as humilhações seculares que passam e vivem as  mulheres. Até suponho  que essas moças “não envelheçam”.  Pera aí. Para onde as foram as violetas que estavam aqui há pouco?
Eu nem deveria mostrar este texto pra ninguém, afinal foi escrito na hora de uma raiva súbita. Recalque, alguns vão chamar. “Ela está com inveja da moça.” Por sinal, tudo aqui se resume a inveja: ciúme, perda de parente, desemprego, fome... “Vai fazer terapia e tratar da sua inveja pra parar de ser chutado!” Minha tia falava que raiva passa pra comida. Todo mundo tem uma tia pra falar essas coisas e a minha tia Marta dizia que não se podia oferecer ao outro uma comida cheia de raiva. Fiquem à vontade para abandonar o texto a qualquer momento, porque a raiva ainda prossegue com requinte de exibicionismo público.
Por final, falaremos do conteúdo do texto da moça. Dissertava sobre o quê? Sobre nada, porque se dissesse alguma coisa eu me lembraria de algo, não? Ah, sim, falava sobre liberdade de expressão em três pequenos parágrafos, mas assim pequenos... Ah, tem sempre a turma que vai falar que tamanho não é documento. Tudo bem, na certidão de nascimento deveria vir somente escrito: “nasceu”.
 Liberdade de expressão é uma coisa difícil aqui em casa com bebê, adolescente e cachorro. Eu até entendo o complexo. Mas a liberdade de expressão referida no texto era ainda um rescaldo do tema “biografia” que foi pra batedeira midiática. O interessante foi que na conclusão da “crônica” ou do crônico, ela usou a expressão “feissibuque” para dizer que não admitiria mais comentários maldosos sobre seus próprios textos. Você não entendeu? Eu também não. Vamos tentar juntos.
É engraçada essa mania de se achar e se escrever superior da elite de uma determinada casta tupiniquim. É estranho também. Lembro-me de uma pessoa assim dessas  que chamava os empregados com sinos e dizia com orgulho nunca ter visto uma televisão na vida. “Nunca tivemos televisão em casa! Papai e mamãe queriam a melhor educação pros seus filhos! ” Oh, sorte do papi e da mami que não ficaram pra assistir ao vivo o estrago de pessoa que deixaram no mundo. Mas esses metidos a sabichões gostavam dessa armadilha de dizer que não viam televisão. Santa idiotice, Batman! Também nunca tinham lido um livro na vida.  A proporção era a mesma.
Agora são novos os tempos, mas as bestas quadradas continuam.  Dizer que não tem facebook hoje correspondente analogicamente a dizer que não tinha televisão há décadas atrás. Nem tantas décadas assim já que o mundo do pós é volátil. E aí eu empaquei feito uma mula teimosa na tal frase da moça.  O fato de ter ou não ter facebook não diz nada sobre nada. Não é isso? Respondam os que sabem tudo.  Está aberta a temporada de caça ao pato. O “feissibuque” seria uma pequena manchinha no tapete persa chinês produzido por mãos infantis e mão de obra barata?
Em tempos de Lulu e Tubby, penso que qualquer bravata de arrogância é pequena na pequeneza humana mesmo, no detalhe sórdido sobre nós dois e a humanidade. Melhor seria usar a energia da juventude para compreender essas reversões, inversões que levam a mais e mais crueldade contra os outros, os diferentes – do que ficar assistindo a grande tela sistina achando que está pintando o novo dedo de Adão.  Não digo nem o que fazer com o dedo.  Deixem o Adão em paz!
Somos todos imitadores, grandes ou pequenos. O eu é uma janela por onde o outro me diz quem eu sou. A porta é pesada demais, é o próprio Pai encarnado.  O facebook é uma televisão com interações indiscretas e o que está por vir chego a ter medo. E só posso prometer a mim mesma não me esconder atrás de nenhuma cortina. E cada um que cuide de si, porque  ao cuidar de si se cuida do outro. Lembrando que cuidar vem de “cogitare”, mas aí já é outro texto.  Pra se pensar com alegria.

Patricia Porto

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Devora-se

Eva Besnyö


o amor que eu não te dei
é santo!
e o amor que nunca disseste
foi tanto
tanto não!

mas hoje eu vou comer
a tua rejeição
eu vou comer
partir com as mãos
teu corpo feito pão

e no altar
teu nome derramado
meu sangue 
é vão

O desaparecimento de Patrícia Porto.

Mario Giacomelli


Perdoe, mas hoje não quero ser outra para fora de minhas regiões internas.  
Guardei devidamente os dotes em minhas gavetas bem arrumadas.
Perdoe a solidão de minhas viagens marinhas.
Perdoe a minha mania de contemplar o que é de beleza estranha, distância insana.
Sinto muito pela falta de comunicação quando tudo se comunica com tudo
e ninguém sabe de ninguém a dor e o coração.
Minhas cartas, estas estão aqui na mesa, escritas,  seladas,
mal posso esperar para enviá-las ao sem destino.
Da janela renasço mariposa, a irmã feia da borboleta.
Todos a querem matar pela má semelhança.
Podem pensar: “pobre é o destino  das mariposas...”   
Mas talvez ali no obscuro do quarto lhe salve a liberdade,
a fuga suprema do envidraçamento.
Ser mariposa não é de todo mal assim.
Por isso peço perdão por não colocar minhas “às favas” em dia,
por não ter uma alegria a ser exposta a cada dezena de horas,
por escrever coisas para poucos lerem,
por ter deixado de pertencer aos humildes e humilhados
e então deixar de ouvir que posso entrar no reino dos céus.
Peço perdão por reagir aos saqueadores de almas,
aos que vendem promessas e recolhem da terra nossos ossos em vão.
Sim, peço perdão por hoje,
perdoem o meu desejo de ficar só quando tudo mais o que se espera
do mundo, do desejo, da utopia, é a fantasia do baile: a máscara.
Preciso pedir perdão por não ficar chapada diante do mundo que consome,
por ter uma melancolia suburbana quando marcas de roupa dizem
que há mais bonecos de vitrine do que gente de carne e sangue desfilando nas ruas.
Perdoem, por hoje, que seja... Perdoem aqueles que preferem ainda sentir e viver realidades,
os que se deixam ser varridos por medos, dúvidas, delírios selvagens.
Perdoem  aqueles que têm preferência por nuvens, dias chuvosos e noites longas.
Eles sabem.  Eles não sabem. Eles sonham com o que podem saber.
Por ser uma louca como todos esses -  é que preciso sentir que sou a outra
 – a que me salva –
 a todo instante!
Não, não quero me curar!
Sou louca! Sim, sou louca de pedras, de pedras e rio, de rio ao mar, e ventanias.
E minha loucura talvez fique sem perdão.
Às vezes ela se apresenta antes de mim, de chofre.
Outras, depois, no fluir do tempo, o interminável.
“Coitada da louca.”  Há murmúrios sobre mim...
Ouço e sinto muito por ela e por todos os coerentes com tudo.
Mas preciso ser a louca, não posso sequer pensar em ser a sã.
Porque tenho rostos demais de outras em minhas internalidades
e por hábito habito sozinha conversas comigo e costumo cochichar com plantas, bichos e crianças coisas afins.
Porque gosto da lentidão da lagarta.  
Sinto... E peço perdão por gostar mais do meu silêncio que do barulho da festa,
por preferir a solidão da escrita ao declínio dos atualizados, os novos bárbaros.
Por mergulhar em livros na hora exata em que a noite ferve.
Sinto não ter hoje uma felicidade qualquer de ocasião,
por não querer fazer sexo de brinde ou ter um orgasmo de bolso.
Sim, sou louca e não me vejo nem um pouco forçada a ser
 na amplitude do que é fluxo, vasto e infindo
- a mulher vestida de foto,
- o retrato estático da capa.
 Porque desapareci há séculos e o meu desaparecimento é mero.
Podem mirar!
Semblantes das que foram demolidas e mortas são aqui abastadas,
as desaparecidas dentro de mim.
  
Patrícia Porto

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Transparências.

Karen Offutt


O véu que adorna o rosto, o adorno.
O mosquiteiro sobre a cama, o mosquito.
O mundo bem podia ser feito de filó e sofia, 
de sua transparência outra, o outro.

Os chambres de dormir, o diáfano.
As cortinas de banheiro, um som experimental.
O fino algodão que encobre os corpos
para serem levados ao Ganges.

Algo dão,
Algo dão doce, engorda a cheia.

A água de rio corrente... desacorrenta almas e tecidos?

Tãolúcidos nos tornamos. Desejo.
Translúdicos como crianças que acabaram de nascer. Espera.
Transparentes da mesma família humana. Um mito.
Fosso e poço com a sede das águas dos rios,
profundos indo, profanos sendo.

A poesia é uma transaparência do ser
que se desnuda, a derme exposta.

O poeta é um sonhador que transparece feliz.
O fundo é o barrento da alma que se transforma
e transcende o que superficia.

Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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