sábado, 23 de novembro de 2013

O delicado.

Frank Eugene, Adam & Eve, 1910.


O corpo me indica um sol
e se o tempo  é de norte, então seja.
Meu corpo pra lá me leva
e a água nos lava a roupa
que os corpos vestem.

Eu não nasci ontem, homem.
Eu tenho essa velha que eu carrego
debruçada em meu corpo.
Ela me faz essa prece.
Ela me faz essa dança de corda.

E vou por onde pauso esse corpo de silêncios
de linhagens tantas...
Que seja em tua cama, que seja doce o teu eixo.
Minha alma, a lavadeira
que se beira nesse Rio ela se banha,
se espanta, canta e quer se deitar.

Então se é para deixar que corra,
que seja em tua cama, homem.
Pra eu te ouvir esse velho, o tempo,
pra que esse corpo de almas velhas minhas
te seja a casa, a terra e finda.   


Patrícia Porto

Por onde velas.

Frank Eugene- The Graduating Class, 1913


Nada será como antes, amor.
Nem mesmo o depois:
esses ossos
desses pós
nossos esqueletos de ranhuras
amarguras no armário
no sudário da dor.

e onde era sorriso
agora espantalho.

Patrícia Porto

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Atropos

Karen Offut


Amo ter que amar o ser amado.
Assim como quase toda criança e poeta
amo a vontade de amar  todo o princípio que germina.
E amo de forma intensa, não correspondida, não investigável.
Amo pela beleza, belo grotesco, pelo encontro entre ambos no corredor
das minhas aparências. Por isso quebro espelhos e fico com as mãos.
Sedenta, abro e escancaro a janela onde foi trancada a tal porta.
Viro de lua, escrevo poemas incontáveis, indisciplinados, bruscos.
Porque o intenso é de brusco.  É um revoar de abraços, cantigas,
noites sempre acesas e boas de festa.
Ah, tudo que é intenso é tão cedo, é tão perto e longe,
tão passarinho de interior,
que eu me pego enrolando o misterioso
só pra ficar mais de dois minutos totalmente sentida.    

Patrícia Porto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Porque depois de ti, queimarei todas as naus.




Mar aberto e o pescador lança sua rede para
Atirar ao tempo a chance de encontrar sua
Resposta, pois no cais onde não se sabe se alma parte ou chega,
Correntes o antecipam com promessas de alimento à morte.
E restam tão pequenas gotas, um sal de lágrima, suponho, um soro de
Lágrimas indefinidas em suas represas, um medo abissal de tempestades e...
O pescador faz Deus existir para poder se atirar ao mar. E faz o mar existir onde não existe mar.
...................................... E ele é todo o mar, ele é o céu, ele é o próprio mergulho.


Patrícia Porto

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

28 de Novembro. (Para meu filho Pedro)




Para atravessar pontes, Pedro,
é preciso pousar o coração com cuidado,
pois do outro lado há sempre vida a ser preservada 
e aquela rua, a outra e mais a outra lá, todas elas
guardam tantas histórias e amores inacabados...
E as cidades, os rios, os mares, acredite!, eles têm alma!

E para atravessar pontes, meu filho,
as pontes de concreto e chão,
é preciso erguer-se com os braços
sempre trazendo-os para o centro-dentro.
E como numa canção de aconchego
abraçar a si mesmo quando estiver sozinho e confuso.
Eu sempre fui sozinha e confusa, mas não menos feliz.

As certezas vão ficando menores
e menores vão ficando melhores.
Quase incertezas...
Não há mais bicho papão
e se pode dormir seguro no fundo escuro do medo.

Sabe, Pedro, poderemos atravessar pontes
sem temer cair no abismo
dos passados ou dos futuros,
pois para atravessar pontes
- é preciso conhecer o sensível de si,
o simples, o pequeno do homem, o minúsculo, até se compreender como criança:
antes de saber da razão de tudo sempre perguntar o "porquê". É que o conhecimento
mora mais na dúvida e vive de aluguel na casa de uma moça chamada Desrazão.

Por isso digo a você que para atravessar pontes
volto para casa como voltava o meu avô,
- esse pão de cada dia,
a santinha na carteira,
seu retrato de menino,
uma qualquer verdade no olhar
e esse punhado de crença na areia
- para fartar nossa mesa de sonho
e amor.

_ Oxalá, meu filho,
nunca nos falte esse amor.
Pois para atravessar pontes
atravessar mundos, Pedro!


Patrícia Porto

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Serás eternamente livre.



Antonello Silverini


E ele constrói a casa, eles desabam.
E desabafa o desafaço,
esse engasgo todo,
dos pés à semente, e se pergunta;
de que me servirá pensar o desafeto
de minha classe tão distinta?
Melhor seria o desencanto, o desvalido
verso que não fiz por preguiça nascente,
porque nasci com canseiras de antes passados.
Vai, e espera no seu lugar, pois perseveram intrigas,
desalinha a metáfora do Equador numa nação de anões.
Ah, meu pequeno país, meu pequeno grande país de pequenos grandes Napoleões...
Nem a Rosa ficou. Desintegrada, desrespeitada, descamisada, abusada de tudo...
Mudou de identidade. Dizem que mora em outro planeta mais sutil
onde os heróis usam pijamas de dormir e bem bocejam.
A Rosa agora talvez use algum nome como baobá ou macieira...
E faz visagem de sensível onde tudo
que era Arte se doeu de vez.
Ele, o homem da criação, se perdeu pelo meio da história...
Vive cabisbaixo, andando pela ruelas e goelas, catando coquinhos.


Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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