sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Meu avô.


         
                Meu avô, Mário Porto, tinha um armazém ou quitanda, comércio comum entre imigrantes e migrantes que se firmavam nessa terra, pelos interiores... O armazém e a casa pegavam uma pequena área de quadra da rua, mas me pareciam bem maiores na minha lembrança crianceira. Pareciam o mundo! Um mundo bricolado de coisas e mais coisas a descobrir, coisas de brincar. Na parte da frente do armazém ficavam as sacas de farinha, feijão de corda, arroz e camarão seco, os cheiros da minha infância. No teto peças de salame e queijos pendurados. Uma mistura inusitada de brasis. Como se eu fosse assim muito pequena, ainda mais do que eu era, e como se pudesse enfim me quebrar ou partir, ele me colocava delicadamente sobre o balcão, onde havia um baleiro. Ele me dava balas num escondido de vovó. Então, se encostava bem perto e cantava uma linda música em meu ouvido, como um cochicho da alma. Meu avô tinha essa alma delicada de doer. E esse quadro de memória minha avó me deu de presente.

"A Deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol num dourado sonho
Vai claridade buscar
Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz
A ruazinha modesta
É uma paisagem de festa
É uma cascata de luz
Na rua uma poça d’água
Espelho da minha mágoa
Transporta o céu para o chão
Tal qual o chão da minha vida
A minh’alma comovida
O meu pobre coração
Infeliz da minha mágoa
Meus olhos são poças d’água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu e ela é nobre
Não vale a pena sonhar."

Poetisas.

.A aranha, meu quarto e a parede.


Todo poema um agudo dentro,
um  fosso,
a ferida aberta trágica,
uma flor arrancada dos espinhos.
A face de um Cristo emoldurada,
um desejo de fé,
uma saudade dobrada,
uma teia suspensa com uma aranha,
uma aranha pendurada, perdurada
a aranha a espera de ser alvejada
por mãos imensas.
Não mate a aranha, requer a escrita.
Não desvulcanize a aranha em seu devagar
exercício de existência.
Onde a morte a liberta do tapa da vida,
ela constrói uma nova gravidade.
E cai, teia, feia, forte, elástica, corcunda.
E é poema, um grave som de felicidade.
Feito.

Patrícia Porto

  

A prenda.

Du Xiaodong

Hoje chegou minha prenda.
Chegou vinda do mar.
Veio de corais, a estrangeira,
pescoço nu.
Tocou-me o vento com as mãos,
fez disparada.
E eu entregue ao seu traço de encanto,
deitei-me confortável na sombra de seus cabelos.
E quase morri, quase, quase,
- por ser eu ela mesma.

Patrícia Porto

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Para sempre.

Vlad Dumitrescu




E faço tantas confidências aos travesseiros.
Vou alisando o tempo das cabeceiras, discreta...
Onde dormem meus livros dormem meus afetos,
e meus dedos dedilham uma modinha.  

E esse sentir, que é musica,
entranha a abastecer
o que é invento
e nunca se basta. É atonal.
Precisa dar cuidados: algodão,
fronhas, franjas, leito de rio.
Umas desSincronias. 
Precisa dizer que te ama -
que ama esse imponderável,
esse abraço de canduras
sem acentos de rodapé.

Minhas mãos, nossas mãos
vão acariciando essas notas.
E diminuindo o som
apreciamos as pausas...
Eu pedindo ao espelho: me ecoa
nesse respiro diminuto.
Até o dia em que
confundidos de solidão,
a saudade apreciada,
atravessada de imprecisos
nos seja sempre
assim os namorados...
Distraídos.

Patrícia Porto

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Poema para a hora que não passa, mas passa.

René le Bègue, Méditation, 1900.


Eu te digo: reza
Reza, que passa

Eu te digo: peça
Peça, que passa.

Eu te digo: entorna o vinho.
Entorna, que passa.

O certo é que passa:
o errado, o vesgo, o refugo,
o corcunda, o esquerdo da tralha
das arquiteturas que gemem humana
e proliferam a faca e o corte do quarto escuro.

O frágil de tudo isso,
o que me quebra por dentro,
a finitude do beijo na morta, o sangue gelado.
O Beijo na morte.

Minha fé, minha menina, minha mãe, mãe de mim,
procissão de angústias entre esses braços que me atrapalham
e sustentam...
   Esse peito negado, arrancando o amor à fórceps.

Passa, passa, passarada voa...

Patrícia Porto

sábado, 23 de novembro de 2013

O delicado.

Frank Eugene, Adam & Eve, 1910.


O corpo me indica um sol
e se o tempo  é de norte, então seja.
Meu corpo pra lá me leva
e a água nos lava a roupa
que os corpos vestem.

Eu não nasci ontem, homem.
Eu tenho essa velha que eu carrego
debruçada em meu corpo.
Ela me faz essa prece.
Ela me faz essa dança de corda.

E vou por onde pauso esse corpo de silêncios
de linhagens tantas...
Que seja em tua cama, que seja doce o teu eixo.
Minha alma, a lavadeira
que se beira nesse Rio ela se banha,
se espanta, canta e quer se deitar.

Então se é para deixar que corra,
que seja em tua cama, homem.
Pra eu te ouvir esse velho, o tempo,
pra que esse corpo de almas velhas minhas
te seja a casa, a terra e finda.   


Patrícia Porto

Por onde velas.

Frank Eugene- The Graduating Class, 1913


Nada será como antes, amor.
Nem mesmo o depois:
esses ossos
desses pós
nossos esqueletos de ranhuras
amarguras no armário
no sudário da dor.

e onde era sorriso
agora espantalho.

Patrícia Porto

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Atropos

Karen Offut


Amo ter que amar o ser amado.
Assim como quase toda criança e poeta
amo a vontade de amar  todo o princípio que germina.
E amo de forma intensa, não correspondida, não investigável.
Amo pela beleza, belo grotesco, pelo encontro entre ambos no corredor
das minhas aparências. Por isso quebro espelhos e fico com as mãos.
Sedenta, abro e escancaro a janela onde foi trancada a tal porta.
Viro de lua, escrevo poemas incontáveis, indisciplinados, bruscos.
Porque o intenso é de brusco.  É um revoar de abraços, cantigas,
noites sempre acesas e boas de festa.
Ah, tudo que é intenso é tão cedo, é tão perto e longe,
tão passarinho de interior,
que eu me pego enrolando o misterioso
só pra ficar mais de dois minutos totalmente sentida.    

Patrícia Porto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Porque depois de ti, queimarei todas as naus.




Mar aberto e o pescador lança sua rede para
Atirar ao tempo a chance de encontrar sua
Resposta, pois no cais onde não se sabe se alma parte ou chega,
Correntes o antecipam com promessas de alimento à morte.
E restam tão pequenas gotas, um sal de lágrima, suponho, um soro de
Lágrimas indefinidas em suas represas, um medo abissal de tempestades e...
O pescador faz Deus existir para poder se atirar ao mar. E faz o mar existir onde não existe mar.
...................................... E ele é todo o mar, ele é o céu, ele é o próprio mergulho.


Patrícia Porto

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

28 de Novembro. (Para meu filho Pedro)




Para atravessar pontes, Pedro,
é preciso pousar o coração com cuidado,
pois do outro lado há sempre vida a ser preservada 
e aquela rua, a outra e mais a outra lá, todas elas
guardam tantas histórias e amores inacabados...
E as cidades, os rios, os mares, acredite!, eles têm alma!

E para atravessar pontes, meu filho,
as pontes de concreto e chão,
é preciso erguer-se com os braços
sempre trazendo-os para o centro-dentro.
E como numa canção de aconchego
abraçar a si mesmo quando estiver sozinho e confuso.
Eu sempre fui sozinha e confusa, mas não menos feliz.

As certezas vão ficando menores
e menores vão ficando melhores.
Quase incertezas...
Não há mais bicho papão
e se pode dormir seguro no fundo escuro do medo.

Sabe, Pedro, poderemos atravessar pontes
sem temer cair no abismo
dos passados ou dos futuros,
pois para atravessar pontes
- é preciso conhecer o sensível de si,
o simples, o pequeno do homem, o minúsculo, até se compreender como criança:
antes de saber da razão de tudo sempre perguntar o "porquê". É que o conhecimento
mora mais na dúvida e vive de aluguel na casa de uma moça chamada Desrazão.

Por isso digo a você que para atravessar pontes
volto para casa como voltava o meu avô,
- esse pão de cada dia,
a santinha na carteira,
seu retrato de menino,
uma qualquer verdade no olhar
e esse punhado de crença na areia
- para fartar nossa mesa de sonho
e amor.

_ Oxalá, meu filho,
nunca nos falte esse amor.
Pois para atravessar pontes
atravessar mundos, Pedro!


Patrícia Porto

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Serás eternamente livre.



Antonello Silverini


E ele constrói a casa, eles desabam.
E desabafa o desafaço,
esse engasgo todo,
dos pés à semente, e se pergunta;
de que me servirá pensar o desafeto
de minha classe tão distinta?
Melhor seria o desencanto, o desvalido
verso que não fiz por preguiça nascente,
porque nasci com canseiras de antes passados.
Vai, e espera no seu lugar, pois perseveram intrigas,
desalinha a metáfora do Equador numa nação de anões.
Ah, meu pequeno país, meu pequeno grande país de pequenos grandes Napoleões...
Nem a Rosa ficou. Desintegrada, desrespeitada, descamisada, abusada de tudo...
Mudou de identidade. Dizem que mora em outro planeta mais sutil
onde os heróis usam pijamas de dormir e bem bocejam.
A Rosa agora talvez use algum nome como baobá ou macieira...
E faz visagem de sensível onde tudo
que era Arte se doeu de vez.
Ele, o homem da criação, se perdeu pelo meio da história...
Vive cabisbaixo, andando pela ruelas e goelas, catando coquinhos.


Patrícia Porto

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Porque era ela.

MoonyKhoa Le

Porque era tão bela
deitou-se na flor,
comeu gominhos,
vestiu fantasias,
fez festa pra estrada,
cantou um sambinha,
trancou a Fera no armário
e fugiu diligente com o padeiro da esquina.

De certo nesta terra nunca mais lhe faltará pão nem piada.

Patrícia Porto 

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Beijo.

Gustav Klimt, O beijo.



De quantos silêncios mudos precisamos
para a clara voz do amor
girar docemente ao invés de
gritar rouca
no vão da boca alheia
o desejo de morrer
assim? 

Salivando tuas camadas
Morrendo em tua boca
Nascendo de novo de novo de novo
em tua língua.

Patrícia Porto

domingo, 10 de novembro de 2013

A vó da minha neta.

Rebecca Kinkead 

Eu acordei tão velha hoje
que resolvi tomar chá.
Gente apressada bebe café,
mas gente com calma bebe chá.

Liguei para minha mãe,
uma velha bem mais velha que a velha que eu sou.
Claro que me senti melhor.
Nada melhor para uma velha do que saber que estamos envelhecendo juntas.

Depois peguei minha nova sombrinha e fui andar.
Pela chuva?
Não. Pelo Sol!

Patrícia Porto

Palavra moída.

Gosia Herba

a contemporaneidade redimensionou a palavra,
e tornou tudo tão fast
tão pop bobo,
tudo tão instantâneo:
sopa, linguagem, poesia, fé,
tudo tão expresso:
fome, amor, vida, café.

Por isso escrevem vazios
sobre ex-silêncios
e criam pré-fabricados
de um tempo pós-moderno.
Tudo se tornando light e soft,
tudo plact, creck,
tudo best,
insight,
nothing,
palavras de plástico.

Amém aos velhos muros
com poesias de chão:
"o tempo é uma invenção?"

Patrícia Porto

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A mulher e a rua.

Erin Smith

               Gosto muito de Botafogo. Sem dúvida, um dos melhores lugares do Rio para se viver. Viver, digo. Sobreviver se faz em qualquer parte. Em Botafogo “se vive” e a rua ferve em todos os bons e maus sentidos. Quando eu era criança havia uma tia, a tia Marlô, que morava num prédio ao lado da igreja da Matriz. Da janela da tia eu olhava – do outro lado da rua – o Banco Nacional. Para uma menina pobre do Tirirical para Realengo, o Banco Nacional era um lugar incrível de trabalho. Da janela da tia eu via senhoras muito elegantes com seus óculos escuros de armações gigantescas. Elas pareciam donas de alguma coisa, entrando e saindo tão altivas e intempestivas, não sei, talvez fossem até mesmo mulheres de generais. E esse foi, sem dúvida, o meu primeiro contato com a diferença de classes e eu jamais poderia ser tachada de marxista naquela época porque eu não sabia de qualquer Marx, o que só viria muito tempo depois. Mas ali, naquele quadro, o banco me interessava sobremaneira. E eu profetizei para minha tia Marlô: “Tia, vou trabalhar naquele banco!”
A tia riu. Afinal, era uma expectativa que ela considerava muito baixa. Minha prima, filha dela, fazia curso de Artes Plásticas, tocava piano, estudava no Andrews. Ela riu, mas teve coerência. “Sim, é um bom lugar pra você trabalhar." A primeira lembrança estética de Botafogo tinha muito mais relação com as lutas de classes do que com os meus desejos infantis. Era uma contradição estética. Um paradoxo de caixinha de música. Lindo, mas insuportável na sua repetição.
De outra vez encontrei uma casa bem aprazível e o portão estava aberto.  Pessoas, jovens principalmente, circulavam com mochilas que cruzavam o corpo e sandálias de couro, cabelos desalinhados...  Achei tudo de tanta beleza!  Primeiro pensei se tratar de uma espécie de igreja, mas não! Lá a praia era outra: a do conhecimento. E novamente  profetizei. Disse para a prima então: “quero voltar aqui com mais calma para ver o que eles aprendem.” A prima riu. “Você terá que estudar bastante. Não é um lugar para todos.” Era o Iuperj. Não era.  E a prima tinha razão.
A vida passou. O tempo voou como é de voar mesmo. A circularidade, as cartas de tarô, a Roda da Fortuna... Tia Marlô se aposentou,  vendeu o apartamento, comprou uma chácara no mato.  E eu fui chamada para trabalhar num banco: o  Banco Bandeirantes. Que antes tinha sido o quê? Banco Nacional! Ah, muito cuidado com as profecias! Elas realmente se realizam! A roda da fortuna girando... Eu me tornei uma escriturária do Banco Bandeirantes e ficava no fundo, lá no fundo, perto da copa, num balcão de atendimentos, bem atrás de uma coluna. As moças altas e consideradas mais bonitas ficavam com os caixas.  Era a praxe.
E esse foi o meu segundo contato com a estética da cidade em transe. Mas agora eu já conhecia Marx e tinha mais de vinte anos. Rapidamente me tornei sindicalista e na primeira greve lá estava eu fazendo “baderna!”, espalhando panfletos, levando cacetadas da vida. Assim, cumprindo-se a profecia, eu quase podia sentir o riso quente de tia Marlô no meu pescoço, olhando pela janela em frente, rindo - com coerência - da minha existência bancária.
            Com a chegada e ampliação dos caixas eletrônicos, a reengenharia, o enxugar de despesas, a mudança de moeda; eu e outros fomos mandados embora – sem pagamento de horas extras, sem qualquer  provimentos e novidades. Botafogo me ensinou no amargo o sabor do café e do seguro desemprego. Tive raiva, ressentimentos, rancor, convulsões de amor partido. Febre de amar sem correspondência. Não me mandava uma carta sequer, a ingrata!
            E o tempo voou novamente. Mais circularidade e cartas de tarô. Uma nova numerologia. Conheci então anos e anos e anos mais tarde uma paixão que morava em Botafogo. Tantas paixões moram em Botafogo... E as ruas, os postes, as livrarias, os cinemas, os transeuntes, todos me voltaram a sorrir de dentro para fora. Foi amor a toda vista. E  deslumbrada com o outro da reinvenção até o trânsito me parecia um cortejo interessante.  Que belos os sinais, os homens, as mulheres e as crianças correndo para algum lugar! A boemia, o filme russo, o iugoslavo, todos os filmes que eu quisera ver. Todos os cafés que pudesse beber revirando os olhos nos livros. Eu era feliz!
            Claro que o mundo tem suas voltas, desvios, retornos... Cuidado: homens brincando com abismos!  Nem preciso explicar muito que - como todas as centenas de milhares de paixões do universo, a minha também partiu por puro e simples exercício de liberdade.  E foi viver sua natureza. E se apaixonou por uma bela moça, dessas que desfilam pelas áreas balneárias e soltam cabelos ao vento com gosto de praia por perto.  Eu tinha visto numa foto, ela com seu belo bronzeado.
            A vida tem dessas e outras coisas. O tempo e suas nuances, seus encontros proféticos ou fortuitos, esperados e inesperados, mas sempre encontros. Lá estava eu indo a um desses encontros, rever uma amiga que me esperava para um café; falaríamos de livros e daríamos gargalhadas... No caminho, pela rua em sobriedade transitória, vejo num desses relances eternamente demorado - a moça! A moça da praia, a moça do retrato, do tempo e do ócio encantado... Ela era tão leve que me assustou! Parecia andar com os pés levitando sobre as pedras, os cabelos de quem vivia de lírios. Ah, não tecem, nem fiam... Não tecem, nem fiam... Olhai! Pensei: por que nós tínhamos a inexorável necessidade de nos encontrar em dose única?
Peguei do meu espelho de bolso e antes de entrar na livraria onde minha amiga me aguardava com sorrisos, pude me olhar. Refletir. Fiquei um tanto culpada a princípio, e desejei por inveja e ciúmes a tal leveza da moça. Nunca fui pessoa de sentimentos nobres, por isso me perdoo. E me questionava: mas se eu fosse assim... Com essa leveza, o gesto gentil de andar sem salva-vidas? No entanto, e certamente não seria eu. Eu não andava sem colete salva-vidas desde a infância. No espelho de bolso eu via uma menina, uma mulher, a mesma estranha, a esquisita, a sombria, a de tantos segredos na alma, a de tantos mist... rios para carregar sem resolver.  Sem revólver pra carregar...
            O tempo flui, o tempo flui fixo em caleidoscópios, circular na retina.  A carta era a do Louco. O tempo mal cabe no meu espelho de bolso. Mal cabe em mim. Dentro de mim se gaba. Tolo. O tempo rói e ruina e faz outras coisas germinarem feito um espetáculo eterno das horas. É o moço e o velho. É a moça do lírio, ela não tece nem fia. Olhai! Ela acompanha o sol. Gira. Eu sou sua sombra e o tempo dos olhos que a guardam, eu sou a moça da roca. Eu sim teço e fio, eu tranço as histórias, os lugares, as sutilezas, as pequenas delicadezas dos encontros das agulhas... E eu devolvo à moça, ao moço e ao círculo um novo riscado, um tecido vivo, um ramo de tempo escorrido. Os enamorados.

Patrícia Porto