segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A mulher e a rua.

Erin Smith

               Gosto muito de Botafogo. Sem dúvida, um dos melhores lugares do Rio para se viver. Viver, digo. Sobreviver se faz em qualquer parte. Em Botafogo “se vive” e a rua ferve em todos os bons e maus sentidos. Quando eu era criança havia uma tia, a tia Marlô, que morava num prédio ao lado da igreja da Matriz. Da janela da tia eu olhava – do outro lado da rua – o Banco Nacional. Para uma menina pobre do Tirirical para Realengo, o Banco Nacional era um lugar incrível de trabalho. Da janela da tia eu via senhoras muito elegantes com seus óculos escuros de armações gigantescas. Elas pareciam donas de alguma coisa, entrando e saindo tão altivas e intempestivas, não sei, talvez fossem até mesmo mulheres de generais. E esse foi, sem dúvida, o meu primeiro contato com a diferença de classes e eu jamais poderia ser tachada de marxista naquela época porque eu não sabia de qualquer Marx, o que só viria muito tempo depois. Mas ali, naquele quadro, o banco me interessava sobremaneira. E eu profetizei para minha tia Marlô: “Tia, vou trabalhar naquele banco!”
A tia riu. Afinal, era uma expectativa que ela considerava muito baixa. Minha prima, filha dela, fazia curso de Artes Plásticas, tocava piano, estudava no Andrews. Ela riu, mas teve coerência. “Sim, é um bom lugar pra você trabalhar." A primeira lembrança estética de Botafogo tinha muito mais relação com as lutas de classes do que com os meus desejos infantis. Era uma contradição estética. Um paradoxo de caixinha de música. Lindo, mas insuportável na sua repetição.
De outra vez encontrei uma casa bem aprazível e o portão estava aberto.  Pessoas, jovens principalmente, circulavam com mochilas que cruzavam o corpo e sandálias de couro, cabelos desalinhados...  Achei tudo de tanta beleza!  Primeiro pensei se tratar de uma espécie de igreja, mas não! Lá a praia era outra: a do conhecimento. E novamente  profetizei. Disse para a prima então: “quero voltar aqui com mais calma para ver o que eles aprendem.” A prima riu. “Você terá que estudar bastante. Não é um lugar para todos.” Era o Iuperj. Não era.  E a prima tinha razão.
A vida passou. O tempo voou como é de voar mesmo. A circularidade, as cartas de tarô, a Roda da Fortuna... Tia Marlô se aposentou,  vendeu o apartamento, comprou uma chácara no mato.  E eu fui chamada para trabalhar num banco: o  Banco Bandeirantes. Que antes tinha sido o quê? Banco Nacional! Ah, muito cuidado com as profecias! Elas realmente se realizam! A roda da fortuna girando... Eu me tornei uma escriturária do Banco Bandeirantes e ficava no fundo, lá no fundo, perto da copa, num balcão de atendimentos, bem atrás de uma coluna. As moças altas e consideradas mais bonitas ficavam com os caixas.  Era a praxe.
E esse foi o meu segundo contato com a estética da cidade em transe. Mas agora eu já conhecia Marx e tinha mais de vinte anos. Rapidamente me tornei sindicalista e na primeira greve lá estava eu fazendo “baderna!”, espalhando panfletos, levando cacetadas da vida. Assim, cumprindo-se a profecia, eu quase podia sentir o riso quente de tia Marlô no meu pescoço, olhando pela janela em frente, rindo - com coerência - da minha existência bancária.
            Com a chegada e ampliação dos caixas eletrônicos, a reengenharia, o enxugar de despesas, a mudança de moeda; eu e outros fomos mandados embora – sem pagamento de horas extras, sem qualquer  provimentos e novidades. Botafogo me ensinou no amargo o sabor do café e do seguro desemprego. Tive raiva, ressentimentos, rancor, convulsões de amor partido. Febre de amar sem correspondência. Não me mandava uma carta sequer, a ingrata!
            E o tempo voou novamente. Mais circularidade e cartas de tarô. Uma nova numerologia. Conheci então anos e anos e anos mais tarde uma paixão que morava em Botafogo. Tantas paixões moram em Botafogo... E as ruas, os postes, as livrarias, os cinemas, os transeuntes, todos me voltaram a sorrir de dentro para fora. Foi amor a toda vista. E  deslumbrada com o outro da reinvenção até o trânsito me parecia um cortejo interessante.  Que belos os sinais, os homens, as mulheres e as crianças correndo para algum lugar! A boemia, o filme russo, o iugoslavo, todos os filmes que eu quisera ver. Todos os cafés que pudesse beber revirando os olhos nos livros. Eu era feliz!
            Claro que o mundo tem suas voltas, desvios, retornos... Cuidado: homens brincando com abismos!  Nem preciso explicar muito que - como todas as centenas de milhares de paixões do universo, a minha também partiu por puro e simples exercício de liberdade.  E foi viver sua natureza. E se apaixonou por uma bela moça, dessas que desfilam pelas áreas balneárias e soltam cabelos ao vento com gosto de praia por perto.  Eu tinha visto numa foto, ela com seu belo bronzeado.
            A vida tem dessas e outras coisas. O tempo e suas nuances, seus encontros proféticos ou fortuitos, esperados e inesperados, mas sempre encontros. Lá estava eu indo a um desses encontros, rever uma amiga que me esperava para um café; falaríamos de livros e daríamos gargalhadas... No caminho, pela rua em sobriedade transitória, vejo num desses relances eternamente demorado - a moça! A moça da praia, a moça do retrato, do tempo e do ócio encantado... Ela era tão leve que me assustou! Parecia andar com os pés levitando sobre as pedras, os cabelos de quem vivia de lírios. Ah, não tecem, nem fiam... Não tecem, nem fiam... Olhai! Pensei: por que nós tínhamos a inexorável necessidade de nos encontrar em dose única?
Peguei do meu espelho de bolso e antes de entrar na livraria onde minha amiga me aguardava com sorrisos, pude me olhar. Refletir. Fiquei um tanto culpada a princípio, e desejei por inveja e ciúmes a tal leveza da moça. Nunca fui pessoa de sentimentos nobres, por isso me perdoo. E me questionava: mas se eu fosse assim... Com essa leveza, o gesto gentil de andar sem salva-vidas? No entanto, e certamente não seria eu. Eu não andava sem colete salva-vidas desde a infância. No espelho de bolso eu via uma menina, uma mulher, a mesma estranha, a esquisita, a sombria, a de tantos segredos na alma, a de tantos mist... rios para carregar sem resolver.  Sem revólver pra carregar...
            O tempo flui, o tempo flui fixo em caleidoscópios, circular na retina.  A carta era a do Louco. O tempo mal cabe no meu espelho de bolso. Mal cabe em mim. Dentro de mim se gaba. Tolo. O tempo rói e ruina e faz outras coisas germinarem feito um espetáculo eterno das horas. É o moço e o velho. É a moça do lírio, ela não tece nem fia. Olhai! Ela acompanha o sol. Gira. Eu sou sua sombra e o tempo dos olhos que a guardam, eu sou a moça da roca. Eu sim teço e fio, eu tranço as histórias, os lugares, as sutilezas, as pequenas delicadezas dos encontros das agulhas... E eu devolvo à moça, ao moço e ao círculo um novo riscado, um tecido vivo, um ramo de tempo escorrido. Os enamorados.

Patrícia Porto 

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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