quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Para um coração numeroso.

Anna Magruder


Eu sou a cidade, Drummond, eu sou a península e a ilha,
eu sou o mar sem cais, selvagem de mãos humanas,
Sexta-feira causando desconforto na aventura alheia...
Todo homem tem sua província dentro de si.
Um casulo, uma rua sem saída, o aceno de um chapéu.
O beco que a ilha não impede de existir sem as pedras
e arrebentações. 


Patrícia Porto

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Medo

O poema do poema, por Vanessa Vieira, moça que tece versos: 
(Para A Torre de Caim)

Alejandra Karageorgiu



Medo

Esperto
Vem perto
Excesso 

vai longe (bem longe)

Equilíbrio te quero
vem certo

Vanessa Vieira 



Para Vanessa:

Se usas do meu tecido
para destecer-me o sentido
te ouço e assobio

se usas dos fios de meus retalhos
quero logo o ponto novo

o ovo do novo
que fias no coração velho...


Patricia Porto

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

O menor poema guinness do mundo.





No que tange e perpassa o bojo de tudo isso, melhor seria o engodo, o esgoto...
mas só sem riscos.
E rindo escreve um tratado do tolo ego ao quadrado,
posteriormente elevado ao infinito.

Patrícia Porto

Dodói

© nevada wier 


Porque eu te amei aos poucos, devagar.
Porque não vivi todo gole então eu tive sede
e tive desejos mais.  
Amor, quando é para sofrer,
só me gasta o verso.
Porque se atravessei a vida sem pensar
pagando minhas loucas penas
pelos teus desvios de atenção.
Tive desejos mais, a submissa!
Porque se é por antecipação ferir para depois sangrar -
tem flores na janela, amor.
Arranque algumas delas
e espinhes as próprias mãos. 


Patrícia Porto

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

A Torre de Caim.

Angelo Massi


Querem que você levante antes mesmo de cair?
Para medo não se tem mais choque,
porque o choque agora é não sentir mais medo?
Cachorro tem medo? Não sei, não sou cachorro.
E elefante? Ah, como admiro os elefantes...
Mas desejo firmemente que não tropecem em mim.
Por que alimentamos os pombos?
E por que tememos o rato?
Não temos mais o direito de temer o rato.
O medo de hoje é o rato. E o rato foi feito para o corte, o abate.
Por que não alimentamos os ratos?
Por que o medo é tão sujo, meu menino?
Não brinque com o medo! O medo é sujo, não deixe o menino brincar!
Quem brinca com o medo acorda mijado!
Por que alimentamos os macacos de grades?
Por que alimentamos com açúcar o beija-flor?
Por que você tem medo do escuro se é criança?
O medo é sujo! O medo é tão feio! Pega a vassoura, menina! Mata esse medo!
Pode bater no medo, enxota! Sim, lá para dentro, bem dentro do ralo. Tranca esse medo no quarto!
Por que compramos venenos que é dos ratos para nos matar - homens?
Por que matamos os homens, os elefantes, o menino sujo de verme e a menina do quarto?
Por que alimentamos os vermes?
Por que sangramos a terra de tanta coragem?
Por que alimentamos os egos com restos de ratos?
Quem foi que entupiu esse ralo?
Por que alimentamos as caçambas de lixo? E os meninos?
Por que não sentimos a euforia do escuro?
Por que eu agora não me sinto alegre?  
Por que alimentamos a alma de pílulas para não sentir o escuro da sombra?
Por que a sombra nos projeta um assombro?
Por que alimentamos os egos de ratos se tomamos pílula e veneno?
Os gatos sentem medo?
Por que não alimentamos do mesmo amor os gatos quando pretos?
Por que alimentamos fogueiras com gatos e mulheres de vestido preto?
Por que eu sinto medo da noite se não sou mais criança?
A noite que é dos poetas, as ruas, esquinas...
Por que alimentamos a noite de armas?
E os meninos negros, por que têm medo?
Mas o medo é tão sujo! É preciso amordaçar o medo! Calar o medo!
Deem  torturas elétricas no medo de sentir medo até o medo vomitar todo o seu infeliz medo!
Por que alimentamos de eletricidade cadeiras que matam homens que matam outros homens?
Por que queremos tanta essa eletricidade? Por que não tememos a luz se ela pode nos cegar os olhos de tanta luz?
Por que alimentamos os nossos corpos de máquinas de fazer medo no outro se o outro não pode viver seu medo?
Os ratos sentem medo? Você aí, é um homem ou um rato?
Os ratos se borram de medo?
Os ratos os homens os elefantes os macacos os cupins...
Por que os cupins se alimentam das nossas casas por dentro?
Os cupins sentem medo?
O futuro nos dirá?
“Apenas os objetos inanimados sentirão medo? A natureza morta? O estático? A estátua grega?”
Por que deixamos de alimentar de corpos a terra para alimentar o ar com nossas cinzas?
Por que tememos o Pai?
Por que eu tenho tanto medo de você nessa hora se você é meu irmão, meu irmão único de raça?   

Patrícia Porto


O poema do poema, por Vanessa Vieira, moça que tece versos: 

Alejandra Karageorgiu



Medo

Esperto
Vem perto
Excesso 

vai longe (bem longe)

Equilíbrio te quero
vem certo

Vanessa Vieira 



Para Vanessa:
Se usas do meu tecido
para destecer-me o sentido
te ouço e assobio

se usas dos fios de meus retalhos
quero logo o ponto novo

o ovo do novo
que fias no coração velho...

Patricia Porto

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Pedra e Asa.

Pierre Verger


Oh, senhora do templo
a tratar de lei tacanha  
que diz que gente oprimida
não pode mudar de curva...
A gente que é de floresta
o rio corta à braçada,
a margem corta à navalha
e não se dobra, deságua.  

Sai do meu caminho
pá do sem destino!
Não me rele a mão!
Que eu sou é de santo,
eu sou de Maria,
de santo oratório.
Eu sou da destreza
do jogo de perna,
e serpente que muito arrasta
não come ave esperta.

Levo o patuá
feito de erva forte.
Trago no meu peito
de alma salobra
água que é benzida
de gente sofrida.
Não sou do perdido
nem escravo ou mula.
Não sou do calado
seu  cavalo velho.

Sou  Casa das Minas,
cabocla Jurema que não vai calar.
Solta a voz do povo!
Deixa a voz falar!
Quem o corpo fecha
mal não vai matar.

Na beira do rio
jogo minhas prendas.
Sou gente de rendas,
meu barco é fechado.
O tecido é vasto.
Vou correr o mundo
para me sarar.

Gente de outras terras
pode me aguardar.


Patrícia Porto


sábado, 19 de outubro de 2013

So over...



…one woman, one time,
one voice: “sorry, it’s very cold here in my soul”,
te escrevo para lembrar,
até me poupar
do tempo de regar as horas,
do tem pó de fazer café?
o poço do tempo de dormir criança
e acordar adulto in the hell, Din-go bell…

o tempo de pedir abrigo
o tempo de amor de amigo
o tempo do quarto do "sei, sei",
o Rei do hiper bacana
de flores no cabelo,
anos de ins ones
a vestir de pedra e poesia
as meninas portuguesas.

minha doce dose de poeta
e o tempo de perder
o espelho da lua que me espelha um sol...

- a arte é o corpo que atravessou
da nossa partida - a feia,
nossos corpos de linguagens.
Sou tão sensível e odeio!

espinha minha vulva delicada
nossos atos so falhos,
velhos e dementes a trocar as garotas desse tempo
por qualquer demo de música estranha.
Não tememos do verso o abusado e o desbunde.

caóticos, mentes famintas,
desatadores de umbilicais...

Mas antes que eu padeça
de verso acanhado e triste,
te sussurro necessidades amantes,
solando um sol so alone

o que me espreme essa fruta boa
da tua palavra em calda
em duo blues canta: so over...

Patrícia Porto

(Para Vinicius de Moraes)

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Primavera de Outubro: O palhaço e a flor.

PALHAÇO preso na Manifestação de 15 de Outubro. Nossa Primavera.  


Vem saber que também da poesia se gera
a aventura sinistra da festa de agir.
Vou acordar desse vasto universo estranho,
do tão fel, do tão corte e tão indiferente
para mostrar no meu corpo à vontade da vida - o que me ascendeu!

Tantos foram os sonhos e os pães dormidos no redemoinho!
Tão pouco foi o moinho pra tanta entranha!
A noite acendeu essa voz que me leva pra Rua. Vai que esse susto não Volta!

Não sou mais um nesse túnel da tela vazia.
Levo nas mãos minha Flor.

Patrícia Porto

Sons

Doppleganger by Valerie Galloway.jpg


Em plena dor da carne
não me toque a delicadeza.
Já estou ficando a sós -
junto desse rio, à margem estreita,
junto desse mar,
que só me trai,
que só me trai...

Tem essa distância ouvindo tudo,
apertando o nó da minha boca.
Tem um som batendo no meu sangue -
ele não é meu,
não é mais o meu.

Sinto o invento da tua lembrança,
não consigo mais sair da carne.
Minha dor na boca dessa angustia -
deixe me esquecer:
tente, tente me esquecer.


Patrícia Porto

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Quartografia.

Sarolta Ban

Personagem auto psico grafada...
Vida virada... que é só reverso.
Se o coração é oco a cabeça entoa...
Mas meu coração de poeta é traço no mundo,
porque afinal eu nunca me chamei Raimundo.
Mas se ele me chama: Vem pra festa! Eu não vou...
Quero ficar só de quarto, virada da lua,
consumida de meus bens imprescindíveis:
Amor, poesia e café... 
sede de vida, vampira que assombra,
viagens noturnas ditam minha vida submarina, 
fluindo aqui, ali, em ocasos, casos e versos ocasionais.

Patrícia Porto

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Água doce.

Imagem @ Jacques Lowe The Joy of Music, N.Y.C., 1960.


a criança que ria do rio vindo,
que ria do tempo indo,
ela não cresceu.
Ela está lá no rio rindo,
e no meu rito
é minha rota de passagemembolada,
minha sombra engolida na rede.

a criança do rio que ri é o tempo,
e não há sapatos que caibam em seus pés.
Não há floresta que a faça crescer.

a criança rindo do feito mágico
rindo de todo juízo afinal,
com seus dentes de leite,
com sua boca e sorriso.

a criança é a vingança contra o tempo,
contra o abuso, o desespero, a maldição,
contra a triste desesperança da violência,
contra o assalto da alma à espreita.

a criança me leva de volta pro todo, ela é a inteira,
está livre dos dogmas e das vigilâncias sociais que inventaram
o verniz da aparência.

a criança é a vingança maior contra a opressão,
contra a ordem da casa, a fundo, o silêncio do lodo,
contra os antídotos que não te deixam sonhar.

a criança soprou palavras no meu ouvido,
dançou sobre minhas perdas mais sentidas, afagando meus lutos.
Um canto: a criança é tudo o que tenho, nada mais... nada mais...
...o rio rindo, o rio vindo, a criança e o riso, o viço, a risada
- tudo, tudo o que tenho...

a criança que ria era cria do rio,
criada a crença do pouco siso,
era a vingança contra a ascendência da intolerância,
do preconceito e de todo o peso da mão da mãe,
do pé pesado do pai sobre o soalho gasto.

a criança é a vingança sobre a inquietação da noite sem fim
contra os medos do quarto trancado, das trancas da solidão de fora ao claustro.
contra a face deixada para bater. Que batam! Ah, seus sentidos não sabem culpa...

e então a criança mostra seus dentes, seus dentes que mudam,
que morrem e renascem do novo.
E ri tão alto, tão alto, tão alto, tão longe, tão absurdo...
E segue o rio e o rio é o seu íntimo.

a criança conversa com a natureza das palavras:
poesia, estrela, amplidão, céu, poeira iluminada...
e habita a fragilidade de existir e perdurar;
sabe ler os vestígios na travessia, as ruínas sobre o terreno acidentado.
Sobre os corpos afogados trazidos no espírito -
é a coragem de esquecer.

a minha é menina e mora nas entranhas,
solta do meu útero a fazer cócegas nas minhas fraturas expostas.
Ela ri do rio e o tempo é tudo o que ela tem.

Porque já viu de tudo, porque sentiu de todos -
a criança tem os elementos da terra para fortalecer os grãos
contra a estiagem.
Ela ri e sua vingança contra o ódio é a lavoura, a terra encharcada,
a lama e a limpa do rio,  o tempo vindo no rio,
o rio rindo de dentro,
vivendo e morrendo - a-co-lhendo...
...vivendo e morrendo - de tanto rir.


Patrícia Porto

Bernard Descamps

sábado, 5 de outubro de 2013

persona made in


© Dmitri Markine 


alguém me disse:
para lidar com isso só criando uma persona.
lembrei do tempo de infância falida
com casa grande e boneca de espiga de milho.
a gente arrumava um pano, cobria a frente,
mas as costas se visíveis denunciavam os nós.

Nenhum tecido made in dava conta de nós.


Patrícia Porto

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

poema para a mulher do invisível

Alice Wellinger

mãe filha mulher menina avó moça velha alguém desceu as escadas para o quarto branco cheio de falas e falsas ternuras e de anjinhos pregados nas paredes brancas ursos brancos de pelúcia portas retratos bibelôs perfumes vidrinhos toalha de prato mesa de jantar vaso de rosas a santa a vela o colar a pérola o grão de areia alguém fechou a porta e se trancou no esquecimento não tinha nome nem residência fixa apenas o quarto hóspede de suas alucinações lembranças encantarias o ontem soube lhe acariciar as faces ninguém lhe perguntou as horas ninguém lhe perguntou sua graça os anos passaram a enrugar e ela coseu casaquinhos de lã as paredes resolveram lhe fazer companhia e ela falava em línguas estranhas escrevia para os parentes mortos escutava a rádio relógio você sabia? você sabia? você sabia? você é minha irmã? um dia também morreu e ninguém a sepultou anos mais tarde varreram seus ossos seus cabelos seus poemas seus engasgos suas larvas seu vulcão extinto vermelho vermelho vermelho veias maquiagem de boneca suas coxas seus olhos suas lágrimas seus mistérios sem qualquer mera curiosidade mero espanto mera passageira das coisas belas e feias do destino quimera quisera coragem quisera nome herança partilha ilusão silhueta anel quisera passar espelhos para trocar mas ninguém lhe sabia o nome você sabia? você sabia? você sabia!


Patrícia Porto

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

O atrito: entre espaços e muros na rapsódia da vida.

Imagem© Christy Lee Rogers, from Underwater series

Humanamente
Huma na mente.
Mente, vai!
Afinal foste feito para não dar certo.
Para morrer de medo e pavor, e também sangrar!

Mas ainda assim, loucamente sonhas!
E acreditas nalguma liberdade.
Vazio e cheio.
Cheio e vazio.
Fraco e não fundo.
Desejo de ir profundo.
Feito leito de rio.

Patrícia Porto